Mostrar mensagens com a etiqueta Camilo & Viana. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Camilo & Viana. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 26 de abril de 2017

CAMILO &M VIANA
[1857: “velha” como “nova” (03)]


No “post” anterior, transcrevi uma interessante carta de Camilo a José Barbosa e Silva (JBS). [(Re)ver RODRIGUES, 2017a]
Datada de 17 de agosto de 1855, nela, o amigo do Porto pede ao amigo de Viana que diligencie uma «casa de quinta», nas vizinhanças desta cidade, para uma tal D.  Isabel Cândida - «a freira», precisa Camilo, não fosse o destinatário epistolar confundir esta com outras donas de ambos também conhecidas -, casa essa para ela nela passar o mês de setembro e também, a partir daí, «fazer ao Minho algumas excursões».
Informa também Camilo que a Isabel Cândida não importava o preço nem as formas de pagamento. Custasse o que custasse, as suas preferências iam por uma habitação rural simplesmente mobilada, mas que não deixasse de ser «uma aposentadoria mais ou menos romântica».
A freira não viria sozinha. Acompanhá-la-iam três criados, dois do sexo feminino, de «sofríveis fachadas», todavia.
Mas não só: além da criadagem, também Camilo integraria (obrigatoriamente: «eu não vou se ela não vai») a comitiva da conventual. Não obstante, ele ficaria hospedado no Cara de Pau. Nesta estalagem prometia e estimava o Escritor que os três (ele, a freira e o amigo) passassem, após opíparas almoçaradas, agradáveis momentos de lazer e divertimento, de convívio e confraternização, condimentadas também por animadas conversas sobre temas poéticos e literários.

[Já agora, um pedido: sabe o meu paciente leitor onde se situava a hospedaria Cara de Pau? Muito obrigado, desde já, pela informação.]

A realizar-se esta excursão, seria a segunda vez que Camilo visitaria, com alguma demora, as margens da foz do Lima. A primeira, recordo, acontecera já na Páscoa de 1853. [(Re)ver RODRIGUES, 2013 e RODRIGUES, 2013a].

Acontece, porém, que esta projetada e tão desejada visita de 1855 não se concretizou.
Porquê?
A resposta encontra-se na carta que Camilo enviou, em 21 de agosto, a JBS:


                                                   MEU CARO BARBOSA

Queira Deus que o incommodo do teu Luiz[1] tenha passado. O nome que dás á molestia, ao menos na terminação, faz-me crêr q[ue] a estas horas o doente está em ligeira convalescença.
E, portanto, Vianna está tocada! Já se não pode dizer que a virgem do Lima rirá das impurezas das cidades corruptas. Assim o esperei. A bafaragem da Ásia passará mais ou menos atravez de todos os ceos.
Já agora não ponhas diligencias na acquisição da casa p[ar]a D. Isabel. O que ella queria era fugir á colera: se lhe consta o mais pequeno incidente ahi, redobram os sustos por que lhe falta la a assistencia dos medicos em q[ue] ella tem m[ui]ta fé. Eu estou em identicas circumstancias. Decerto não irei, como tanto queria, a banhos. Serei aqui testemunha (se não fôr parte no formidavel processo) da espantosa destruição, cujo incremento há trez dias ameaça um formal assalto dos q[ue]  ultimam[en]te soffre a Espanha. Lembrou-me ir p[ar]a Lx.ª [Lisboa], e tomar banhos em Cascaes; mas a estas horas Lisboa reconheceu a invalidade das prevençoens do Moacho[2].
Hontem fiz entregar 2 exemplares do teu romance[3] na Concordia e Braz Tisana. Espero q[ue] os redactores digam a respeito d’elle o que deve dizer-se de um bom romance. Quando queiras mandar alguns exemplares p[ar]a os rapazes, já sabes q[ue] serão pontualm[en]te entregues.
Ha duas noutes q[ue] o Ferrei[r]a (medico) me visitou ás 2 horas da noute. Suppuz q[ue] tinha a colera: mas era imaginação, resultado de uma visita imprudente q[ue] fiz ao hospital. Vivo mal. Sinto um torpor de corpo, um abatimento de alma q[ue] parece uma profecia m[ui]to funebre…
Ad[eu]s[.] Deixa-me sentir os teus cuid[a]dos por teu mano, e abraça-o da minha parte logo que elle se levante. Poupa-te. Tem m[ui]tos cuidados hygienicos, e alapa-te em Perre[4] logo q[ue] a invasão não seja equivoca.

                                 Teu do coração
        21 d’Agosto de 1855
                                                           Camillo C. Bran.co
[Carta reproduzida em BARBOSA, [1919]: 75-77. Respeitei a grafia da edição consultada, exceto as formas abreviadas, tal como se encontra no autógrafo camiliano. Xavier Barbosa, aliás, regista, no «Proemio» às Cem Cartas de Camillo: «Na transcripção de todas estas cartas escrupulosamente se respeitou a ortographia constante das originaes». (Barbosa, [1919]: (s/paginação). A carta acima trasncrita encontra-se também em CABRAL, 1984 (I): 89.]

[1] Luís Barbosa e Silva (1825-1892) era um dos quatro irmãos de JBS. Na crónica/folhetim «Peregrinação sobre a Face do Globo», depois intitulada «Do Porto a Braga», reunida no volume Duas Horas de Leitura, o Escritor traça «o vulto moral» deste seu também grande amigo vianês. [(Re)ver Rodrigues, 2014]
[2] «Moacho (Matheus Cezario Rodrigues) Doutor em medicina pela Universidade e antigo fisico-mor da India, era por aquelle tempo Fiscal do Conselho de Saude Publica do Reino. Como tal, consoante o art.º 4.º da lei de saude de 3 de Janeiro de 1837, competia-lhe ser o executor das deliberações do referido Conselho, e assignar a correspondencia pelo mesmo expedida; e, assim, sem que elle tivesse qualquer preponderancia sobre os seus outros collegas, só por Moacho apparecem assignados os editaes destinados ao publico e as instrucções e conselhos dirigidos ás auctoridades e corporações administrativas a proposito da colera morbus que então assolava o Reino, sendo provavelmente estas medidas de prophylaxia official as taes prevenções a que Camillo na sua carta alude.» [Barbosa, [1919]: 76, nota de rodapé n.º 7. Respeitada a grafia da edição consultada.]
[3] Trata-se do romance Viver para Sofrer – Estudos do Coração, escrito por JBS, com prefácio («Juiso Crtico») de Camilo, e dedicado aos irmãos. Apesar de impresso, em 1855, o livro nunca foi posto à venda.
[4] «Quinta da Costa em S. Miguel de Perre; o mesmo prediosinho rustico que prendera a attenção de Camillo, quando da sua estada em Vianna pela pascoa de 1853.» [Barbosa, [1919]: 77, nota de rodapé n.º 9. Respeitada a grafia da edição consultada.]


«Mas – perguntar-me-á o (im)paciente leitor – quem é essa freira? E que tem ela a ver com Camilo (ou Camilo com ela), para assim viajarem juntos e juntos gozarem um mês nas vizinhanças de Viana? E logo e necessariamente numa romântica casa de quinta, apenas simplesmente mobilada?!...

Prevejo no leitor um sorrisinho malicioso.
Adiante!

Bem, os autores que têm estudado a vida e a obra de Camilo, melhor dizendo, a vida na sua obra e a obra na sua vida, referem os principais dados biográficos desta D. Isabel Cândida. Poderia fornecer-lhes, aqui e agora, as referências bibliográficas e/ou com base nelas redigir a biografia possível da senhora. Não o farei.
Primeiro, transcreverei (continuarei a transcrever) as cartas (na íntegra ou partes, consoante o interesse estimado para o caso) em que Camilo fala a JBS desta freira, que já sabemos ser materialmente rica, determinada de génio e evidente amiga do Escritor. No final das transcrições, apresentarei, com base nas cartas e nas informações dos biógrafos encartados, os traços principais da sua vida, em particular no que toca às relações com o Escritor.
Entretanto, o leitor, com as informações epistolares fornecidas e/ou delas inferidas, irá construindo uma imagem ou retrato desta nossa “irmã religiosa”. Que, depois, confrontará com a dos seus biógrafos, incluindo a minha.

          Não me parece merecer comentários adicionais a carta acima transcrita, escrita por Camilo em 21 de agosto de 1855, em resposta a carta de JBS (criminosamente destruída, como as outras suas), datada de 19, que por sua vez respondia à carta de 17.
(Como eram rápidos, de facto, os correios, há mais de 150 anos!...)

No próximo “post”, por isso, continuarei a apresentar referências à «D. Isabel Cândida (a freira)», encontradas na correspondência de Camilo para o seu amigo vianês José Barbosa e Silva.

Até lá, vá o leitor (re)lendo Camilo. Por exemplo: se quiser ter uma visão geral e global da obra do Escritor, nas suas diferentes facetas de artista e mestre da palavra, desde os chamados juvenilia, agarre-se à coletânea Camiliana, selecionada, prefaciada e anotada pelo escritor e camilianista José Viale Moutinho, edição do Círculo de Leitores, em quatro grossos e densos volumes, de que já se encontram disponíveis os três primeiros. Nos vols. 1 e 2, encontrará «Todos os contos, novelas curtas e romances breves»; no vol. 3, «Cartas Escolhidas»; para o vol. 4 estão anunciados «Crónicas, textos polémicos e artigos escolhidos».

Referências:
BARBOSA, L. Xavier, [1919]: Cem Cartas de Camillo. Lisboa: Portugal-Brasil Limitada, Sociedade Editora. [À entrada do livro, ao centro de página ímpar (não numerada), encontra-se a seguinte informação: «A propriedade d'este livro pertence ao CULTO CAMILIANO, por generosa dadiva do autor.»]
BRANCO, C. C., 18582: «Do Porto a Braga», em Duas Horas de Leitura. Porto: Cruz Coutinho.
CABRAL, Alexandre, 1984: Correspondência de Camilo Castelo Branco com os Irmãos Barbosa e Silva - I. (Escolha, prefácio e comentários de). Lisboa: Horizonte.
RODRIGUES, David F., 2017: «CAMILO &M VIANA / [1857: “VELHA” COMO “NOVA” (01)»: http://vianacamilo.blogspot.pt/2017/04/camilo-viana-1857velha-como-nova-01.html
------------, 2014: «Camilo & os irmãos Barbosa e Silva [12] em Duas Horas de Leitura (1857) [II]: http://vianacamilo.blogspot.pt/2014/11/015.html
------------, 2013a: «Camilo & Viana 003 / Camilo e os irmãos Barbosa e Silva [01]»: http://e-ternoretorno.blogspot.pt/2013/11/camilo-viana-003.html
----------, 2013: «Camilo & Viana 002 / Camilo e os irmãos Barbosa e Silva [01]: http://e-ternoretorno.blogspot.pt/2013/11/camilo-viana-002.html

sexta-feira, 21 de abril de 2017

CAMILO &M VIANA
[1857: “velha” como “nova” (02)]


          Recordo: na tarde de 7 de abril de 1857, Camilo Castelo Branco chegava à cidade de Viana do Castelo. O jornal A Aurora do Lima dava a notícia de «tão honrosa visita», no dia seguinte. Desta “velha” como “nova” fiz, no “post” anterior, transcrição, seguida de breve comentário. Prometi, no final, complementar e esclarecer aspetos nela referidos que, já na altura, seriam, mais ou menos propositadamente, esquecidos ou deixados na sombra. [(Re)ver em RODRIGUES, 2017]

        Ora, cá estou, para um primeiro suplemento, na esperança de tornar aquela notícia, “velha” de 160 anos, um pouco mais “nova”, isto é, atualizada, sobre as relações de Camilo com Viana.
     Deixando para depois considerações sobre aspetos puramente formais, fixemo-nos nos pontos mais relevantes da peça. Encontram-se eles no primeiro parágrafo, a que, hoje, se poderia chamar, em termos jornalísticos, o lide:

         Chegou hontem de tarde a esta cidade, vindo do Porto, o nosso particular amigo e collega, o Snr. Camillo Castello Branco, que conta, por motivos de saude residir temporariamente nas amenas e risonhas margens do Lima. Este cavalheiro distinguirá com a sua collaboração as columnas d’este jornal.

Quem conhece as cartas que Camilo escreveu ao seu grande e generoso amigo José Barbosa e Silva (JBS) - cofundador, coproprietário e um dos principais impulsionadores e redatores do jornal A Aurora do Lima – saberá ou recordará que:

(i) não era a primeira vez (nem a última), que o Escritor visitava esta cidade;
(ii) a sua vinda não se devia, apenas ou principalmente, a «motivos de saúde»;
(iii) sua intenção não era tão só «residir temporariamente nas amenas e risonhas margens do Lima»;
iv) não era, a partir daquela data, que daria a sua colaboração a este jornal.

Mas saberá ainda mais, o meu leitor, que:

v) a razão principal por que Camilo trocava, segundo a correspondência, o Porto por Viana, era, fundamentalmente, de natureza profissional e económica (monetária), como a seu tempo se verá/lerá.

Quanto a i), está documentado que Camilo já tinha efetuado, antes de 1857, uma primeira visita a Viana do Castelo. Foi na Páscoa de 1853. Abordei já esta visita em dois “posts” – RODRIGUES, 2013 e, sobretudo, RODRIGUES, 2013a – para que remeto.
Sabe-se, por outro lado, que depois de 1857, o Escritor voltou a Viana mais duas vezes, pelo menos. Também destas há testemunhos documentados. Dedicar-lhes-ei, oportunamente, os “posts” necessários.
Mas entre 1853 e 1857, uma outra visita projetou Camilo realizar a Viana. Visita cuja duração não seria de breves dias, mas de um mês. Teve, também por isso, de ser devidamente preparada com o seu grande e confidente amigo JBS. Sublinhei também, porque, desta vez, ao contrário da anterior (a de 1853), Camilo viria acompanhado. Por quem? Já verá/lerá. Começou, por isso, a prepará-la através da carta que, a seguir, transcrevo.
Nota - As relações de Camilo com Viana do Castelo têm sofrido alguns atentados. Além da destruição recente da casa, situada na encosta sul do Monte de Santa Luzia, junto da Capela de S. João d’Arga, onde o Escritor residiu, entre 7 de abril e 29 de maio de 1857, também as cartas que JBS dirigiu ao seu particular e dileto amigo foram - informa Alexandre Cabral - «vandalescamente» destruídas. Pois, «em Ceide não se encontra uma única». [CABRAL, 1984 (I): 41]

Vamos à carta:

MEU BARBOSA

Será possivel o seguinte?
D. Izabel Candida (a freira) com quem me congracei por uma celebre eventualidade, quer passar um mez nas visinhanças de Vianna, e d’ahi fazer ao Minho algumas excursoens. Segundo os estatutos monasticos, não pode estancear se não de passagem em estalagens, e não pode residir. Quer ella, portanto, uma casa de quinta mobilada simples[mente] do q[ue] é propriamente mobilia: paga tudo, acceita todas as condições monetarias. (Estas bravatas pecuniarias estão em harmonia com o genio e as posses da dita). Uma vez me disseste tu q[ue] era possível arranjar-se para mim uma casa como a deseja a D. Izabel. Eu vou para a hospedaria[*]; mas bem quizera que ella por ahi estivesse, por q[ue] verás q[ue] passaremos algumas horas de nonchalante convivencia. Tomaremos banhos, cysnes derrabados, e depois do almoço confortavel como convem a dous Antonuys de estomago, recordaremos, poetas poitrinaires, as decepçoens da infancia, a pouca vergonha das illusoens mentidas como a onda (vide Shakespeare). Pelo q[ue]:
Muito importa q[ue] lances as tuas diligentes medidas, e me digas se se pode contar com a caza nos dias 1 ou 2 de Setembro. Nota, meu caro José, que eu não vou se ella não vai, e ella não vai se tu lhe não preparas la (com a simplicid[ade] que ja te disse) uma aposentadoria m[ais] ou menos romantica. A fam[ilia] d’ella são trez creados, onde domina o sexo feminino com duas soffriveis faxadas. Tive um abraço teu transmitido p[or] Ant[onio] Bernardo. Nas azas da briza da tarde mandei-te um beijo em retribuição. Responde, q[uando] possas, ao teu
Recados a teus manos

17 de Agosto
   de 1855.
                                                      Camillo.
[Carta reproduzida em BARBOSA, [1919]: 74-75. Respeitei a grafia da edição consultada, exceto as formas abreviadas, tal como, certamente, se encontra no autógrafo camiliano. Também em CABRAL, 1984 (I): 87].
* O original desta carta foi visto, lido e transcrito, segundo a ortografia de 1984, por Alexandre Cabral. Este conceituado camilianista observa que «L. Xavier Barbosa permitiu-se alterar o texto do escritor, pondo a palavra hospedaria onde estava Cara de Pau (o nome da hospedaria).» Aqui fica, por isso, o reparo.

         Comentarei esta carta no próximo “post”. Até lá, vá o meu paciente leitor (re)lendo Camilo.




Referências:
BARBOSA, L. Xavier, [1919]: Cem Cartas de Camillo. Lisboa: Portugal-Brasil Limitada, Sociedade Editora. [À entrada do livro, ao centro de página ímpar (não numerada), encontra-se a seguinte informação: «A propriedade d'este livro pertence ao CULTO CAMILIANO, por generosa dadiva do autor.»]
CABRAL, Alexandre, 1984: Correspondência de Camilo Castelo Branco com os Irmãos Barbosa e Silva - I. (Escolha, prefácio e comentários de). Lisboa: Horizonte.
RODRIGUES, David F., 2017: «CAMILO &M VIANA / [1857: “VELHA” COMO “NOVA” (01)»: http://vianacamilo.blogspot.pt/2017/04/camilo-viana-1857velha-como-nova-01.html
-----------------, 2013a: «Camilo & Viana 003 / Camilo e os irmãos Barbosa e Silva [01]»: http://e-ternoretorno.blogspot.pt/2013/11/camilo-viana-003.html
-----------------, 2013: «Camilo & Viana 002 / Camilo e os irmãos Barbosa e Silva [01]: http://e-ternoretorno.blogspot.pt/2013/11/camilo-viana-002.html

sexta-feira, 7 de abril de 2017

CAMILO &M VIANA
[1857: “velha” como “nova” (01)]


Ora façam o favor de ler:

«Chegou hontem de tarde a esta cidade, vindo do Porto, o nosso particular amigo e collega, o Snr. Camillo Castello Branco, que conta, por motivos de saude residir temporariamente nas amenas e risonhas margens do Lima. Este cavalheiro distinguirá com a sua collaboração as columnas d’este jornal.
Seria suspeito á amisade expansiva, tributar como era devido, as boas vindas ao abalisado e primoroso escriptor. A Vianna, á sua illustração, e ao seu nome nas lettras portuguezas, damos nós cordialissimos emboras, pela distinção de tão honrosa visita.
O Snr. Camillo Castello Branco era esperado no caminho por muitos dos seus amigos. Conjuntamente com elle, vinha também o nosso estimavel amigo o Snr. Sant’Anna e Silva, abbade de S. Martinho da Barca, vocação muito esperançosa da eloquencia sagrada, e um dos primeiros ornamentos do pulpito portuense.»
[Cf. Barbosa, [1919]: 78-79. Respeitada grafia da versão consultada que, julgo, será igual à usada no Aurora de 1857.
O mesmo texto, com grafia atualizada (anterior ao AO90), encontra-se também em Anselmo, 1989: 16 e 1993: 119.]

Com esta “nova”, publicada a 08 de abril de 1857, informava o jornal A Aurora do Lima (n.º 195) que Camilo Castelo Branco se encontrava, desde a tarde do dia anterior – 07 de abril de 1857 – em Viana do Castelo, onde tencionava «residir temporariamente».

Faz hoje 160 anos, portanto, que o Escritor começou a viver nas «margens do Lima», oportunidade sendo para, apesar dos pessoais «motivos de saúde», segundo conta a “nova”, «o abalizado e primoroso escritor» distinguir as colunas do ainda jovem periódico (o seu 1.º n.º saiu em 15-12-1855), «com a sua colaboração».


É este um documento relativamente importante sobre as relações estreitas que, a vários níveis e de vária ordem, existiam entre Camilo Castelo Branco e A Aurora do Lima, que o mesmo é dizer (ou melhor dizer), entre o Escritor e os seus grandes amigos vianeses, os irmãos Barbosa e Silva, nomeadamente com o José, o benjamim da família.

Merece, por isso, esta “local”, pelo que revela e – diga-se ,  já então também encobria, leituras que, por um lado, melhor a contextualizem e, por outro, esclareçam alguns aspetos nela referidos, explícita e/ou implicitamente. É o que procurarei fazer, dentro das minhas capacidades e possibilidades, em “posts” futuros.

Referências:
ANSELMO, A., 1989: «Camilo e “A Aurora do Lima”». Rodapé em A Aurora do Lima, n.º 19, de 03/03, p. 1. O autor fez publicar, neste jornal, numa série consecutiva de 7 rodapés, num total de 28 pp., o texto referido abaixo, em Anselmo, 1993. A notícia da chegada de Camilo a Viana encontra-se reproduzida na p. 16 do quarto rodapé.
-----------------, 1993: «Camilo e “A Aurora do Lima”». Camilo Castelo Branco- Jornalismo e Literatura no Séc. XIX (Colóquio promovido pelo Centro de Estudos Camilianos em V. N. de Famalicão, de 13 a 15 de Outubro de 1988). Estudos Camilianos – 3. V. N. de Famalicão: Centro de Estudos Camilianos; pp. 115-123.
BARBOSA, L. X., [1919]: Cem Cartas de Camillo. Lisboa: Portugal-Brasil Limitada, Sociedade Editora. [À entrada do livro, ao centro de página ímpar (não numerada), encontra-se a seguinte informação, que pode ser entendida como dedicatória: «A propriedade d'este livro pertence ao CULTO CAMILIANO, por generosa dadiva do autor.»]

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

024. Camilo & e os irmãos Barbosa e Silva [21]
          em Duas Horas de Leitura (1857) [XI]

[Continuação do post anterior.]

            Com este, termino a série de posts dedicados às relações de Camilo Castelo Branco com os irmãos vianeses Luís e José Barbosa e Silva, explícita ou implicitamente referidos na crónica «Do Porto a Braga», cujo primeiro título foi «Peregrinação sobre a Face do Globo», reunida, depois com outros escritos, em Duas Horas de Leitura. Nesta, o Escritor relata com muita fantasia e não menor ironia e, por vezes, algum sarcasmo, o passeio que os três, juntamente com Evaristo Basto, fizeram entre aquelas duas cidades, com paragem e pernoita em Famalicão. Mas o destino final era o Bom Jesus do Monte, estância que, desde muito cedo, o haveria de marcar afetivamente.

As melhores recordações que Camilo teve do Bom Jesus foram depois de 1856, ano em que, com os três amigos, visitara pela segunda vez. A primeira foi quando tinha 11 anos, em 1836, após a morte do pai, a caminho de Vila Real, onde ficaria, juntamente com a irmã Carolina, aos cuidados da tia paterna, Rita Emília. [Ver AQUI.] Depois do ano da crónica referida, Camilo visitou muitas vezes a estância, na companhia de Ana Plácida, ainda ela vivia com o marido, Manuel Pinheiro Alves. Numa delas, os dois amantes terão tido oportunidade de ser um casal feliz, física e psicologicamente, pela primeira vez. E outras se terão seguido, evidentemente.

[Escadório atual do Bom Jesus do Monte. Fotografia colhida em Google+ / Imagens / Bom Jesus do Monte]

Mas a recordação pior que o Escritor nos dá e revela do Bom Jesus é da «hospedaria real», onde os quatro «peregrinos» tencionavam jantar e pernoitar. Jantar ainda jantaram. Agora dormir, foi impossível, devido à falta de higiene, a tal ponto de Camilo de desejar ver exposto «ao azorrague e às moscas o taverneiro estabelecido no Senhor do Monte, como numa na «picota». [Branco, 18562: 165]
E prosseguindo, relata Camilo:

Quando os nossos olhos mortaes acharam este foco de infecção, sentimos spasmos no esophago, e estivemos a lançar naquelle chão maldicto o café forte de Braga. Fôramos alli como a um manancial de inspirações saudosas, e encontramos uma Aganippe de... d'onde beberam, talvez, os poetas que decoraram as paredes d'aquella sentina. Nunca os beiços se te descollem d'essa fonte, taverneiro ignobil! Já que não approveitas as grossas nascentes, que te jorram á porta, para lavares o teu bragal, ainda eu te veja, sicario, reduzido, não a pó, que é esse o commum destino da humanidade, mas.... Para elles são vozes no deserto estas apostrophes; mas, se ellas chegarem aos ouvidos e ao illustrissimo nariz da camara municipal de Braga, a ella incumbe vigiar o quarto ou cloaca n.º 2 da immunda tasca, e remover d'alli aquellas colchas, fumigar aquelle quarto, e desalojar o sordido taverneiro que alli está envergonhando a terra, provando que elle é mais immoral do que foram todos juntos os judeus das capellas visinhas.
Anojados e phreneticos corremos ao quarto dos nossos rapazes a relatar o escandalo. E[varisto] B[asto] regougava que o deixassem dormir, transigindo assim momentaneamente com a impudencia. L[uís] B[arbosa] pediu com ancia umas piugas, e saltou da cama, livido de terror. Então juramos não passar alli a noite, e reunimos em sessão para decidirmos o que devia comer-se, menos susceptivel da influencia suja do cozinheiro. Meditada profundamente a proposta, e recolhido cada qual em sua consciencia, levantaram-se todos como um só homem e preromperam em vozes unanimes, dizendo: — “Nós somos livres, o nosso estomago livre é, e, assim queremos bacalhau.”
E. B. viera juntar o seu brado á causa da justiça e da moralidade. […]
Em quanto o bacalhau se cosia, fomos desenjoarnos com o ar purissimo do arvoredo.
[…]
Houve silencio de alguns minutos. Foi E. B. que o quebrou assim:
“A mim disseram-me que enviasse d'aqui um suspiro, nas azas da saudade, ao coração saudoso... não direi de quem, porque o amor mais sancto é o que mais se resguarda no sanctuario do mysterio. Um suspiro saudoso! Como darei eu um suspiro?! É forçoso que se cumpra o sacrifício.” Disse, e soltou um som cavo, coisa inclassificavel entre o arrôto e o espirro.
Não sei se os leitores se riram; eu não pude. Aquelle gracejo para mim foi um incentivo de mui dolorosa meditação. E não pude guardal-a só comigo: revelei-a assim aos meus amigos:
“Se nos aqui reunissemos antes dos vinte annos, E. B. não teria senão um suspiro em caricatura com que saudasse neste logar a memoria de uma mulher? Os nossas corações teriam, apenas, uma ironia para celebrar debaixo d'este céo o amor? É bem lastimavel esta aridez de quatro homens, tres dos quaes [C., J. B. e E. B.] não ha muito que revellavam nos versos paixões profundas, extasis do céo, amores incendiarios, saudades sanctas de uma outra vida que não é esta! Que almas tão decahidas as nossas! Este local é como um padrão onde devem vir afferir-se os corações que perderam no mundo o seu valor. Quem não traz para aqui a imagem de uma mulher que possa cá purificar-se em imagem d'anjo, é bem infeliz! Pois nem ao menos uma saudade do que fomos? nem a esperança póde já reviver? Que sentes tu L. B.?
[“]Nada.[“]
“E tu, J. B.?
[“]Nada: estou prodigiosamente estupido. Preciso estar callado.[“]
“Mas no silencio o que ouves? o que dizes?
[“]Nada: é um cáhos de idêas, sem significação.[“]
“E tu, E. B. que sentes?
[“]Vontade de jantar. Essas perguntas são vans e pretenciosas. Trinta annos passados, volta-se a ampulheta.[…] É chegada a tua vez: e tu que sentes? [“]
  Eu ia dizer o que sentia, quando divizei dous vultos sentados á sombra de uma arvore. […]
[…] Não sei d'olhos mais bonitos, nem de cabellos negros que tão bem dissessem com o marfim do collo! Não sei quem ella é, nem conheço o ditoso conjuge; mas não sirva isto de embargo aos meus parabens a ella e a elle. Vivam muitos annos, e tenham muitos meninos, que eu vou comer o meu caldo negro de Sparta que corresponde ao bacalhau de Braga.
Foi um devorar homerico ! Tudo o que está dito na Gastronomia, poema de Berchoux, é inferior áquillo! Por um auspicioso systema de compensação, conheci que a vitalidade dos meus amigos refugira do coração para outra viscera dos suburbios. Provou-se o elasterio do estomago, e levou-se á evidencia que as brizas e agua fresca não eram suficiente alimento para nós. Nunca Shakspeare ousaria dizer que Hamlet vivia d'ar e esperanças, se o pobre moço, em vez de andar á bordoada com o padrasto, viesse até ao Bom Jesus de Braga impregnar-se da molecula saborosa do bacalhau. Inaugurada a realeza do estomago, como prova do maximo adiantamento, é difficil morrer de pena que não seja a de uma indigestão.
Foi justamente a morte que eu muito receei lá em cima. Ficamos n'um spasmo de tres horas, depois do jantar. Confesso que me pareceu feia a natureza, e até feias as mulheres que me sorriam divinas quando o bacalhau não era ainda metade da minha existencia vegetal. Este estylo ressente-se do meu estado de então.
Immalamos, e partimos para Braga.
Dentro do carro, fomos rodados de modo que o regurgitamento cedeu aos choques.
Entramos na cidade ao lusco-fusco.
Desde a entrada até ao campo de Sanct’Anna fomos recebidos com assobios e guinchos e mugidos dos garotos, aprendizes de chapelleiro, que vinham ás portas das officinas ganir. Os nossos antigos descobridores quando saltavam em praia de barbaros eram assim recebidos. O mais é que os patrões das officinas pareciam folgar naquelle alarido da canalha. Que terra! Aquillo poderá ser gente? O que lhes vale é o terço depois que uivam. Para que quererá Deus lá em cima similhantes alarves?
Chegamos á hospedaria da Estrella do Norte.
Vimos um par de grossas pernas de uma redonda matrona que se estirava o mais commodamente que se póde sobre uma cama, e dava gratis o espectaculo aos que lhe passavam deante da sua porta. Pareceu-nos bastante ingenua a nossa vizinha de quarto! Os commentarios ás pernas foram interrompidos por um robusto “aqui-d'el-rei” que vinha da rua.
Saiba-se o que é isto. E. B. desceu á rua, e nós fomos á janella. Vimol-o innovelar-se na mó do povo que se apinhava em redor da victima lamuriante.
Depois lá debaixo cá para o segundo andar, E.B. com toda a força dos seus pulmões, exclamou:
“Foi o fidalgo que lhe bateu.”
Apenas proferida a palavra “fidalgo!” todo aquelle gentio escoou-se pelas travessas lateraes, e o cidadão bracharense, desamparado, achou que era quéda sobre o couce do fidalgo enrouquecer gritando pelo rei, que valia menos alli que o cabo de policia.
[…]
Vou concluir.
Passamos uma noite atormentada. A legião dos persovejos lá de cima tinha destacamentos cá em baixo. L. B. e E. B. andaram tres horas com os enxergões ás costas. Eu descobri na minha cama um animal novo; não era bem insecto nem mollusco; repelli-o com toda a força da minha indignação, e adormeci.
Ás tres horas da manhã estavamos em marcha. Os dous irmãos Barbosas para Vianna, sua bella patria: Evaristo Basto, e eu para o Porto.
Agora seriedade:
No abraço de despedida, conhecemos que ainda tinhamos coração, um grande coração para a amizade. […] [Id.: 166-173]

NB1 – Foi respeitada a grafia da edição consultada. O sinal […] indica fragmentos que não foram transcritos.
NB2 – Em Duas Horas de Leitura encontram-se mais dois escritos em que o Camilo se refere aos irmãos vianeses Barbosa e Silva, como a seu tempo se verá. Todavia, porque diretamente relacionada com a crónica «Do Porto a Braga», apresentarei, no próximo post, uma carta que o Escritor escreveu a Evaristo Basto, em 1864, e onde o romancista volta a referir-se, naturalmente, aos irmãos Barbosa e Silva. Essa carta encontra-se na narrativa No Bom Jesus do Monte (1864).

LEITURAS
BRANCO, C. C., 18582: «Do Porto a Braga», em Duas Horas de Leitura. Porto: Cruz Coutinho.
RODRIGUES, D. F., 2013: «”A excellencia de carnaval” (1856)»,em AQUI
-----------, 2014: «Camilo faz hoje 189 anos». AQUI
-----------, 2014a: «Camilo & e os irmãos Barbosa e Silva, em Duas Horas de Leitura (18582) [I], AQUI
-----------, 2014b: «Camilo & e os irmãos Barbosa e Silva, em Duas Horas de Leitura (18582) [II], AQUI.
-----------, 2014c: «Camilo & e os irmãos Barbosa e Silva, em Duas Horas de Leitura (18582) [III], AQUI.
-----------, 2014d: «Camilo & e os irmãos Barbosa e Silva, em Duas Horas de Leitura (18582) [V], AQUI.
-----------, 2014e: «Camilo & e os irmãos Barbosa e Silva, em Duas Horas de Leitura (18582) [VI], AQUI.
-----------, 2014f: «Camilo & e os irmãos Barbosa e Silva, em Duas Horas de Leitura (18582) [VII], AQUI.
-----------, 2014g: «Camilo & e os irmãos Barbosa e Silva, em Duas Horas de Leitura (18582) [VIII], AQUI.
-----------, 2014h: «Camilo & e os irmãos Barbosa e Silva, em Duas Horas de Leitura (18582) [IX], AQUI.
-----------, 2014i: «Camilo & e os irmãos Barbosa e Silva, em Duas Horas de Leitura (18582) [X], AQUI.