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segunda-feira, 22 de maio de 2017

CAMILO &M VIANA
[1857: “velha” como “nova” (09)]


O paciente leitor deste blogue já construiu, estou certo, um retrato de «D. Isabel Cândida (a freira)». Fê-lo, segundo desejei, a partir da leitura das cartas que, longa ou ocasionalmente, à religiosa se referindo, Camilo enviou a José Barbosa e Silva (JBS). Mas se, além disso, a sua natural sede sobre a vida desta conventual e suas relações com o Escritor foi saciar também a outras fontes, permita-me que o felicite por isso.

Ressalta da leitura das 14 referências epistolares transcritas (sobretudo das três cartas integrais, sem, contudo, menosprezar os 11 fragmentos), que Isabel Cândida era uma freira, economicamente abastada. Pertencia a uma determinada ordem religiosa, cujo convento se situava na cidade do Porto. Passaria, porém, dias mais ou menos prolongados fora do convento, em propriedade(s) que possuiria na cidade e/ou arredores. Segundo os estatutos da ordem monástica a que pertencia, não podia demorar-se em estalagens. Mas ela era rica, gostava de passear e conviver. Estanciava, por isso, em casas que arrendaria noutras localidades, acompanhada dos seus criados, onde confraternizaria com os amigos que a visitavam.

 Um desses amigos foi, como lemos, Camilo. Os contactos entre ambos estabelecidos aprofundou a amizade entre ambos: enamoraram-se e tonaram-se amantes. Fruto das conversas que foram tendo sobre as vidas passadas de cada um e eventuais projetos de vida futura, Camilo há de ter revelado à apaixonada freira que era pai natural de uma menina. Esta revelação terá despertado os sentimentos de maternidade na amante e, ao mesmo tempo, fortalecido o amor que dedicava ao Escritor. Isabel Cândida ter-se-á oferecido, então, para educar a filha do amante –  Bernardina Amélia – acolhendo-a no convento e nas suas propriedades seculares.

A paixão entre a freira e o Escritor terá atingido um dos seus pontos altos em 1855, ano em que ambos estiveram para vir gozar o mês de setembro em Viana do Castelo, com passeios pelo Minho e animadas conversas literárias, juntamente com JBS, na hospedaria vianesa Cara de Pau, onde Camilo ficaria instalado. Ela, com seus criados, iria para uma quinta simplesmente mobilada, nos vizinhanças da cidade. As custas da quinta e da hospedagem - tudo - seriam pagas pela abastada monja. Receando, porém, que a epidemia de cólera, que então atravessava a Europa, invadisse também a virgem do Lima, o plano de aqui gozar um aprazível mês de setembro foi pela água abaixo. Mas, por intermédio e com o beneplácito do Escritor, Isabel Cândida estabeleceu laços de amizade com dois irmãos Barbosa e Silva, o Luís e o José. Sobretudo com este último, que lhe havia oferecido o romance, de que era autor, Viver para Sofrer (1855). A freira deveria sentir, como outras mulheres suas contemporâneas, uma atração especial por poetas e folhetinistas.

Entretanto, sem nada revelar à amante, Camilo negociava, com JBS, uma vinda para Viana, a fim de ocupar o cargo, remunerado, de redator do jornal A Aurora do Lima. A freira, porém, ia profetizando que o amante iria abandonar o Porto. Até que, um dia, certa das secretas intenções do amante, acusa-o virulentamente de ingratidão, passando, de seguida, à mansidão das lágrimas suplicantes. A dramática cena deu-se, no convento, em 11 de setembro de 1856, na presença da Bernardina Amélia, também ela banhada em lágrimas. O Escritor comoveu-se. Regressa à Foz, onde ainda se encontrava a banhos, com os restos do seu coração atravessados numa roda de navalhas. Cedeu. Propõe-se, então, dirigir a A Aurora a partir do Porto, contentando-se em receber, como paga, o que receberia qualquer redator que para Viana viesse.

A partir daquele dia, a paixão amorosa entre os amantes entra em acelerado declínio. A 7 de abril de 1857, Camilo chega, enfim, a Viana, para se dedicar, a tempo inteiro, à redação d’A Aurora, ainda que a notícia publicada no jornal, no dia seguinte, não seja clara a tal respeito. Propositadamente, como se lerá.
Não obstante, a freira Isabel Cândida e o novelista Camilo continuaram amigos, embora afetivamente cada vez mais distantes. Bernardina Amélia continuou, efetivamente, a ser educada e protegida, a frequentar o convento e a(s) casa(s) secular(es) da amiga religiosa.

Esta é a biografia de «D. Isabel Cândida (a freira)» que, com base, apenas, na leitura e interpretação das referências epistolares enviadas a JBS, aqui deixo à consideração do paciente leitor. No próximo “post”, acrescentarei outros dados biográficos sobre esta religiosa, mulher com quem Camilo manteve uma das mais longas relações de amizade e amor. Ou vice-versa.

Entretanto, continue a ler Camilo. Por exemplo: Vingança, romance publicado em 1858. Aquele onde o escritor mais se expõe biograficamente. Transfigurado, evidentemente. Até aquela data.
Até ao próximo.

Referências:
RODRIGUES, David F., 2017: «CAMILO &M VIANA / [1857: “velha” como “nova” (01)»: http://vianacamilo.blogspot.pt/2017/04/camilo-viana-1857velha-como-nova-01.html
-----------------, 2017a: «CAMILO &M VIANA / [1857: “velha” como “nova” (02)»: http://vianacamilo.blogspot.pt/2017/04/camilo-viana-1857-velha-como-nova-02.html
-----------------, 2017b: «CAMILO &M VIANA / [1857: “velha” como “nova” (03)»: http://vianacamilo.blogspot.pt/2017/04/camilo-viana-1857-velha-como-nova-03.html
-----------------, 2017c: «CAMILO &M VIANA / [1857: “velha” como “nova” (04)»: http://vianacamilo.blogspot.pt/2017/04/camilo-viana-1857-velha-como-nova-04.html
-----------------, 2017d: «CAMILO &M VIANA / [1857: “velha” como “nova” (05): http://vianacamilo.blogspot.pt/2017/05/camilo-viana-1857velha-como-nova-05.html
-----------------, 2017e: «CAMILO &M VIANA / [1857: “velha” como “nova” (06): http://vianacamilo.blogspot.pt/2017/05/camilo-viana-1857-velha-como-nova-06.html
-----------------, 2017g: «CAMILO &M VIANA / [1857: “velha” como “nova” (08): http://vianacamilo.blogspot.pt/2017/05/camilo-viana-1857-velha-como-nova-08.html

sexta-feira, 19 de maio de 2017

CAMILO &M VIANA
[1857: “velha” como “nova” (08)]


Convido o paciente leitor destes apontamentos a acompanhar-me em mais uma visita a «D. Isabel Cândida (a freira)»: (re)ler as referências que, na correspondência para José Barbosa e Silva (JBS), Camilo faz a esta sua amiga.
Antes, porém, talvez seja conveniente recordar as 14 cartas, 12 delas remetidas até finais de 1856, ou seja, poucos meses antes de Camilo visitar, pela segunda vez, a cidade Viana do Castelo, em 7 de abril de 1857. [(Re)ver RODRIGUES, 2017]
Sintetizo, no quadro seguinte, essas referências epistolares.

REFERÊNCIAS A ISABEL CÂNDIDA
EM CARTAS DE CAMILO PARA JOSÉ BARBOSA E SILVA
Ref.ª
Data
No blogue
Bibliografia
1.ª
17/08/1855
Integral: (Re)ver
Barbosa, [1919]: 74-75; Cabral, 1984 (I): 87
2.ª
21/08/1855
Integral: (Re)ver
Barbosa, [1919]: 75-77; Cabral, 1984 (I): 89
 3.ª  
18/12/1855
Trechos: (Re)ver
Barbosa, [1919]: 4-5; Cabral, 1984 (I): 96
4.ª
02/07/1856
                                    Cabral, 1984 (I): 102
5.ª
24/07/1856
Trechos: (Re)ver
Barbosa, [1919]: 12; Cabral, 1984 (I): 107
6.ª
*03/08/1856 [?]
Barbosa, [1919]: 124; Cabral, 1984 (I): 108-109
7.ª
*07/09/1856 [?]
Barbosa, [1919]: 15; Cabral, 1984 (I): 116
8.ª
02/07/1856
                                   Cabral, 1984 (I): 102
9.ª
11/09/1856
Integral: (Re)ver
Barbosa, [1919]: 16-17; Cabral, 1984 (I): 117-119
10ª
23/09/1856
Trechos: Neste “post”
                                   Cabral, 1984 (I): 120
11
20/10/1856
Barbosa, [1919]: 23; Cabral, 1984 (I): 127
12
15/12/1856
                                   Cabral, 1984 (I): 133
13
04/05/1858
Barbosa, [1919]: 133-134; Cabral, 1984 (II): 37
14
*Ag./St./1858 [?]
                                   Cabral, 1984 (II): 48
* O sinal [?] serve para indicar hipótese de datação. Os investigadores dos autógrafos não conseguiram precisar as datas das respetivas cartas. Camilo raramente datava a sua correspondência.

Repare-se que, em 1855, ano de 11 cartas ao amigo de Viana, Camilo fala de/ou em Isabel Cândida, por 3 vezes. Em 1856, ano de 23, se refere 9. Todavia, em 1857, ano de 32 cartas - segundo Alexandre Cabral [cf. CABRAL, 1984 (I): 134-177] ou 35, segundo Manuel Tavares Teles [cf. TELES, 2008: 197-217] - em nenhuma a conventual se encontra referida. Isabel Cândida só volta a aparecer, brevissimamente, em duas cartas de 1858, ano em que Camilo dirigiu ao amigo de Viana cerca de uma trintena.
A diferença entre o número de cartas datáveis de 1857 deve-se ao facto de Cabral situar duas em 1858 (cartas n.º 100 e n.º 101) e uma de 1863 (n.º 176), enquanto Teles situa as três no ano de 1857. Porquê? Tudo tem a ver com a paternidade de Manuel Augusto Pinheiro Alves (1858-1877), filho adulterino de Ana Plácido (1831-1895). Adulterino porque, apesar de Manuel Pinheiro Alves (1807-1863), marido de Ana, ter perfilhado a criança, Cabral é de opinião que Manuel Plácido, nome por que depois ficou mais conhecido, é filho de Camilo, enquanto Teles defende que o pai é António Ferreira Quiques (18??-1909). Camilo e Quiques foram amigos muito próximos. Chegaram a pensar em fazer uma visita a Viana, nos princípios de 1858, segundo refere o Escritor em carta a JBS. [Cf. CABRAL, 1984 (I): 182]. Trata-se da tal carta n.º 100, que não se encontra em BARBOSA, [1919]. Além disso, o Escritor dedica a este (ainda) seu grande amigo Vingança (1858), romance de que exclui, na 2.ª edição (1863), a dedicatória. [Cf. CABRAL, 20032, respetivas entradas destes nomes e título.] Tudo isto, porém, são outros episódios, mais ou menos enredosos, do apaixonante romance que foi a enredada vida apaixonada do Escritor.

Regresso, portanto, a pesar de pouco mais ser, às referências a Isabel Cândida, nas cartas de Camilo para o benjamim Barbosa e Silva.
As fortes relações de amizade entre o Escritor e a freira chegaram a pôr em causa a longamente preparada e negociada vinda de Camilo para Viana, em 1857. [(Re)ver carta datada de 11/09/1856, em RODRIGUES, 2017e, bem como, neste “post”, abaixo, iii)] Todavia, tal não sucedeu, como se sabe. Camilo chegou e viveu, em 1857, cerca de dois meses em Viana, como oportunamente se recordará, descreverá e comentará.
As referências a Isabel Cândida, que venho transcrevendo [(Re)ver RODRIGUES, 2017a - 2017e] têm, como objetivo - recordo - ajudar o paciente leitor a formar e/ou a completar (se é que ainda não o fez) o retrato desta freira abastada e devotada amiga do Escritor, através das relações muito amigas que entre ambos existiram e que nas 14 cartas se foram refletindo.

Apresentarei, por isso e para isso, de seguida, mais cinco referências. Três delas inscritas em cartas de 1856 e duas em cartas de 1858.
Eis as três primeiras:

i) D. Isabel, que estava para recolher ao Convento, resolveu ir para Lessa. Minha filha está boa. Eu recolho ao Porto em princípio de Outubro. Estou farto disto, e dou-me mal com o nitro do mar. [Carta datada de 23/09/1856]
{Cabral, 1984 (I): 120. Não consta em Barbosa [1919]}

ii) A D. Izabel pediu-me, instou q[ue] te fizesse mil saudosas recomendações, e ao teu Luiz. [Carta datada de 20/10/1856]                                        
[Barbosa, [1919]: 23. Também em Cabral, 1984 (I): 127]

iii) Agradeço-te muito os cuidados que te merece minha filha. Esteve doente em minha Casa; hoje está no colégio. D. Isabel vive apoquentada com a minha rara frequência no convento. Isto vai expirando lentamente: é necessário. Sem ela, eu hoje viveria em Viana, e parece-me que feliz, quanto posso sê-lo. [Carta datável de 15/12/1856]
 {Cabral, 1984 (I): 133. Não consta em Barbosa, [1919]}

O que de mais importante ressalta nestes fragmentos é, por um lado, o evidente afastamento de Camilo de Isabel Cândida e, por outro, a ligação da religiosa à Bernardina Amélia, filha adulterina de Camilo. [(Re)ver Rodrigues, 2017d] Além disso, o Escritor mostra, mais uma vez, a vontade de sair do Porto e de montar residência em Viana, terra por que sempre manifestou simpatia e vontade de, um dia, nela viver, como se há de ler em “posts” futuros.

Para terminar este “post”, eis os dois últimos trechos epistolares onde Camilo fala, de fugida, de Isabel Cândida, em cartas de 1858. Recorde-se ou saiba-se que, neste ano, as relações amorosas entre Camilo e Ana Plácido se intensificavam. Clandestinamente. Ainda.

iv) A Henrique Azuil entrou hontem no convento. O Almeida Campos diz q[ue] vai depois de manhan p[ar]a Inglaterra. Recommenda-se-te o Evaristo, e D. Izabel felicita-te cordealm[en]te pela tua eleição. [Carta datável de 04/05/1858]
[Barbosa, [1919]: 133-134. Também em Cabral, 1984 (II): 37]

v) Não sei como a Henriqueta obterá a assinatura do marido, que está fora, e creio que zangado com ela, por que ambos são doudos. Não vou ao convento; mas mandei o requerimento à Isabel C. [Carta datável de agosto/setembro de 1858]
[Cabral, 1984 (II): 48. Não consta em Barbosa, [1919]]

Não cabe, aqui e agora, identificar quem foram Henriqueta Azuil, Almeida Campos e Evaristo, tudo gente conhecida e das relações também dos irmãos José e Luís Barbosa e Silva. A seu tempo, quando oportuno, falaremos destas figuras. Interessará, apenas, de momento, relevar que, apesar Camilo se afastar cada vez mais da freira, a amizade entre ambos permanecia. Bernardina Amélia, a filha do Escritor, era o forte elo que os mantinha unidos e em contacto.
Em iv, Isabel Cândida, por intermédio de Camilo, felicita JBS pela sua eleição (primeira) para deputado por Viana. Candidato, nesse ano de 1858, na lista governamental, obteve uns significativos 2901 votos, contra Tomás Norton e António Pereira da Cunha que, candidatos pela lista da coligação, obtiveram, respetivamente, 1463 e 1437 votos. [Cf. CABRAL, 1984 (II): 35]

No próximo “post”, apresentarei os dados biográficos mais (re)conhecidos desta nossa irmão religiosa. Para que cumprido fique o que prometi, quando começou a constar das cartas que Camilo ia remetendo para o amigo José Barbosa e Silva. [(Re)ver RODRIGUES, 2017a]

Até ao próximo. Continue a (re)ler Camilo.

Referências:
BARBOSA, L. Xavier, [1919]: Cem Cartas de Camillo. Lisboa: Portugal-Brasil Limitada, Sociedade Editora. [À entrada do livro, ao centro de página ímpar (não numerada), encontra-se a seguinte informação: «A propriedade d'este livro pertence ao CULTO CAMILIANO, por generosa dadiva do autor.»]
BRANCO, C. C., 18582: «Do Porto a Braga», em Duas Horas de Leitura. Porto: Cruz Coutinho.
-----------------, 18702: A Mulher Fatal. Lisboa: Campos Júnior.
CABRAL, Alexandre, 1984: Correspondência de Camilo Castelo Branco com os Irmãos Barbosa e Silva - I. (Escolha, prefácio e comentários de). Lisboa: Horizonte.
-----------------, 1984: Correspondência de Camilo Castelo Branco com os Irmãos Barbosa e Silva II e com Sebastião de Sousa. (Escolha, prefácio e comentários de). Lisboa: Horizonte.
-----------------, 20032: Dicionário de Camilo Castelo Branco (ed. revista e aumentada). Lisboa: Caminho.
RODRIGUES, David F., 2017: «CAMILO &M VIANA / [1857: “velha” como “nova” (01)»: http://vianacamilo.blogspot.pt/2017/04/camilo-viana-1857velha-como-nova-01.html
-----------------, 2017a: «CAMILO &M VIANA / [1857: “velha” como “nova” (02)»: http://vianacamilo.blogspot.pt/2017/04/camilo-viana-1857-velha-como-nova-02.html
-----------------, 2017b: «CAMILO &M VIANA / [1857: “velha” como “nova” (03)»: http://vianacamilo.blogspot.pt/2017/04/camilo-viana-1857-velha-como-nova-03.html
-----------------, 2017c: «CAMILO &M VIANA / [1857: “velha” como “nova” (04)»: http://vianacamilo.blogspot.pt/2017/04/camilo-viana-1857-velha-como-nova-04.html
-----------------, 2017d: «CAMILO &M VIANA / [1857: “velha” como “nova” (05): http://vianacamilo.blogspot.pt/2017/05/camilo-viana-1857velha-como-nova-05.html
-----------------, 2017e: «CAMILO &M VIANA / [1857: “velha” como “nova” (06): http://vianacamilo.blogspot.pt/2017/05/camilo-viana-1857-velha-como-nova-06.html
TELES, Manuel Tavares, 2008: Camilo e Ana Plácido – Episódios ignorados da célebre paixão romântica. Porto: Caixotim.

sexta-feira, 12 de maio de 2017

CAMILO &M VIANA
[1857: “velha” como “nova” (06)]


            Ora cá vai a carta de Camilo para José Barbosa e Silva, na sua versão integral, tal como havia prometido no “post” anterior [(Re)ver RODRIGUES, 2017d]. Trata-se de documento muito importante sobre as relações do Escritor com «D. Isabel Cândida (a freira)», por um lado, e sobre a sua vinda para Viana [(Re)ver RODRIGUES, 2017], a fim de ser o redator principal de A Aurora do Lima, por outro. E, além disso e também por isso, carta que mostra ainda o estado de inquietação psicológica e económica em que vivia o filho de Manuel Joaquim Botelho Castelo Branco (1778-1835) e da «mãe incógnita» Jacinta Rosa [de Almeida] do Espírito Santo [Ferreira] (1799-1827). [(Re)ver RODRIGUES, 2014]
Dada a real importância deste documento, os comentários ficam para “post(s)” próximo(s). Agora, é obrigatório ler, com a melhor atenção, a carta:


MEU CARO BARBOSA.   

            Cauza-te espanto uma carta m[inh]a depois de outra q[ue] hontem receberias? Tamb[e]m a mim me maravilha escrever-t’a. São 11 horas da noite, e chego do Porto, com estes restos de coração atravessados n’uma roda de navalhas. É o caso:
        Eu nunca disse a Izabel Candida as m[inh]as intenções a resp[ei]to de ir p[ar]a Vianna, p[o]r que previa o abalo, e receava os efeitos p[o]r ella e p[o]r mim, que sou um imbecil, quando sou cauza e ao m[es]mo tempo testemunha d’uma grande dor. Era m[inh]a tenção deixal-a recolher ao convento, e depois ca de fora escrever-lhe uma carta, longam[en]te meditada, de modo que o golpe fosse dado com punhal d’um só gume: isto é – tencionava mentir-lhe, dizendo q[ue] a minha hida era simplesmente uma tentativa p[ar]a o melhoram[en]to da m[inh]a saúde.
        Hoje, indo eu levar-lhe m[inh]a filha, que se achava aqui há 3 dias, recebeu-a chorando, sem querer dizer-me a razão p[o]r que. Muito instada, prorompeu n’uma acusação quase virolenta á m[inh]a ingratidão, e acabou p[o]r me dizer q[ue] sendo ella a m[inh]a amiga era a ultima q[ue] devia saber que eu sahia do Porto. Da violência passou para a mansidão das lagrimas suplicantes, e por fim acabou por ser assaltada d’um terrivel incommodo que me assustou. N’este estado, foi-me impossível dizer-lhe uma so palavra de consolação. M[inh]a filha chorava, e o medico Ferr[ei]ra que eventualmente occorreu n’este ensejo, fez-me sentir que a organização enfraquecida da pobre m[ulh]er podia facilm[en]te succumbir a semelhante choque. Eu estava parvo, e parvo sahi quando a noite já adiantada me obrigou.
        Aqui tens uma situação bem especial – uma das mi[nh]as deabolicas situações, em q[ue] o coração revive em toda a compaixão q[ue] as m[inh]as proprias desgraças não tem podido desvanecer p[ar]a] com os outros. Isto é uma fatalid[ad]e de q[ue] não ha partido a tirar. É-me impossivel, já agora, ser meu. Ha de haver sempre em mim um pensam[en]to bom q[ue] me escravize ao mal. Sou como aquelle que mede a profundid[ad]e do abysmo, e não tem a resolução de recuar.
        Vamos remediar d’algum modo isto meu caro Barbosa. Eu adevinho q[ue] a tua boa alma não é estranha aos sentim[en]tos da minha. D’estes sabes tu sentil-os melhor q[ue] eu. Penso até que m’os louvas, e serias o primeiro a dizer-me «não desampares essa pobre m[ulh]er, que tem contra ella a id[ad]e a dizer-lhe que os seus annos já não podem vencer os calculos d’um homem»[.] Isto é duro, e chora-me o coração figurando-me a alma de I[sabel] Candida, q[ue] não tem em si recursos p[ar]a a defeza d’uma ingratidão. Como poderemos remediar isto? Ha um modo q[ue] tu recuzarás, mas eu não deixo p[o]r isso de t’o propor. Eu serei d’aqui redactor do teu jornal. Uma simples carta tua com poucas palavras será sufficiente inspiração p[ar]a artigos especialmente consagrados ao Destricto. Mandarei regularm[en]te 3 artigos politicos-economicos p[ara] o jornal, e 3 correspondencias que devem substituir as do Novaes, que eu acho m[ui]to inferiores a uma patacoada. Alguns extractos e correspondencias bastarão p[ar]a encher dignam[en]te a folha. Se, todavia, p[o]r q[u]alq[ue]r consideração, não queres apear o Novaes, eu escreverei m[ai]s q[ue] os 3 artigos, e forjaria uma apparente correspondencia de Lx.ª [Lisboa][.] Convencido estou de q[ue] a m[inh]a assistencia ao pe do jornal não o tornaria p[o]r isso mais lido nem m[ai]s em dia, n’uma terra onde é reflexiva a politica, e donde d’um dia p[ar]a o outro tu me avisas dos pontos em q[ue] convem tocar.
        Não sinto precisão de te dizer m[ai]s[.] Tu é que me deves escrever logo q[ue] resolvas, na certeza de q[ue], p[o]r um motivo m[ui]to nobre, terei grande pezar q[ue] recuzes. Devo dizer-te q[ue] me contento, em paga, com a q[ue] darias a qual[que]r redactor que p[ar]a ahi fosse. Pareceu-me dever notar isto como uma circumstancia que te faria pensar alguns instantes.

        (Foz, 11 de Setembro de 1856)
                                                                            Teu Camillo
[Barbosa, [1919]: 16-19. Também em Cabral, 1984 (I): 117-119]

        Então, até ao próximo!
            E continue a ler Camilo! Tem tanto e tão rico onde pode (es)colher!

Referências:
BARBOSA, L. Xavier, [1919]: Cem Cartas de Camillo. Lisboa: Portugal-Brasil Limitada, Sociedade Editora. [À entrada do livro, ao centro de página ímpar (não numerada), encontra-se a seguinte informação: «A propriedade d'este livro pertence ao CULTO CAMILIANO, por generosa dadiva do autor.»]
CABRAL, Alexandre, 1984: Correspondência de Camilo Castelo Branco com os Irmãos Barbosa e Silva - I. (Escolha, prefácio e comentários de). Lisboa: Horizonte.
RODRIGUES, David F., 2017: «CAMILO &M VIANA / [1857: “velha” como “nova” (01)»: http://vianacamilo.blogspot.pt/2017/04/camilo-viana-1857velha-como-nova-01.html
-----------------, 2017a): «CAMILO &M VIANA / [1857: “velha” como “nova” (02)»: http://vianacamilo.blogspot.pt/2017/04/camilo-viana-1857-velha-como-nova-02.html
-----------------, 2017b): «CAMILO &M VIANA / [1857: “velha” como “nova” (03)»: http://vianacamilo.blogspot.pt/2017/04/camilo-viana-1857-velha-como-nova-03.html
-----------------, 2017c): «CAMILO &M VIANA / [1857: “velha” como “nova” (04)»: http://vianacamilo.blogspot.pt/2017/04/camilo-viana-1857-velha-como-nova-04.html
-----------------, 2017d): «CAMILO &M VIANA / [1857: “velha” como “nova” (05)]:  http://vianacamilo.blogspot.pt/2017/05/camilo-viana-1857velha-como-nova-05.html
-----------------, 2014: «Camilo faz hoje [16/03] 189 anos»: http://vianacamilo.blogspot.pt/2014/03/006.html

quarta-feira, 10 de maio de 2017

CAMILO &M VIANA
[1857: “velha” como “nova” (05)]


Até 7 de abril de 1857, dia em que chegou à cidade Viana do Castelo [(Re)ver RODRIGUES, 2017], por razões e finalidades que hei de rever e analisar, o Escritor refere-se a «D. Isabel Cândida (a freira)», em 12 cartas enviadas ao seu amigo vianês José Barbosa e Silva (JBS).
Apresentei já, em “posts” anteriores, três dessas referências, duas delas em cartas que transcrevi na sua versão completas. [(Re)ver RODRIGUES, 2017a; 2017b e 2017c] Restam, portanto, nove.
Prosseguindo na recolha de dados biográficos, na correspondência camiliana referida, que possam ajudar a desenhar o retrato ou imagem desta abastada e dedicada amiga de Camilo, fixar-me-ei, hoje, em mais três excertos epistolares, que transcrevo nas alíneas seguintes:

i) M[inh]a filha está no Collegio. D. Izabel está boa. Dir-lhe-hei que te lembraste d’ella. [Carta datada de 24/07/1856].
Barbosa, [1919]: 12. Também em Cabral, 1984 (I): 107]

ii) D. Izabel está doente, mas não seriam[en]te[.] M[inh]a filha começa a fazer versos! Irra! que annuncio! [Carta datável de 03/08/1856]
[Barbosa, [1919]: 124. Também em Cabral, 1984 (I): 108-109.]

iii) A minha filha está boa; e D. Izabel soffre… parece q[ue] profetisa. Ha de ser-lhe m[ui]to penosa a m[inh]a sahida; mas é força transigir. Eu aqui asfixio. [Carta datável de 07/09/1856]
[Barbosa, [1919]: 15. Também em Cabral, 1984 (I): 116]

             Nestes trechos, correspondendo, certamente, a perguntas e cumprimentos de JBS, Camilo informa, por um lado, sobre o estado de saúde de Isabel Cândida e, por outro, sobre a educação da filha.
Trata-se, a uma primeira leitura, das habituais cortesias trocadas entre amigos na correspondência. Fruto da profunda amizade existente entre os dois homens, as relações de JBS com Isabel Cândida também se terão desenvolvido. A oferta do livro Viver para Sofrer – Estudos do Coração a esta conventual e o elevado apreço e reconhecimento que ela manifestou, via Camilo, pelo romance do estreante romancista vianês, s(er)ão prova disso mesmo. {(Re)ver RODRIGUES, 2017c]

           Ressalta destes excertos que a saúde de Isabel Cândida passou, no tempo aproximado de uma semana, de «boa» para «doente», embora «não seriamente» (i e ii). Mas, ao fim de um mês, Camilo revela a JBS que «D. Isabel sofre». Sofrer, porém, este que lhe parece mais de natureza afetiva que física. Segundo interpreta, a sua amiga freira profetizava a sua saída e afastamento do Porto, facto que lhe causaria muita pena. A religiosa ver-se-ia, assim, privada das visitas do amigo Escritor (iii).

            Mas, para não morrer asfixiado no Porto, embora naquela data se encontrasse a banhos na Foz, para onde partiria Camilo? Para onde, porquê e para quê?
          Resposta a estas e outras questões encontrá-la-á, o paciente leitor, na próxima carta que o Escritor dirigiu a JBS e que, no próximo “post”, será transcrita na sua versão integral. A não perder, por isso e tanto.

            Falta, porém, saber quem é a filha de Camilo, referida nos três excertos. Filha que está num colégio (i), que começou a fazer versos (ii) e que se encontra de boa de saúde (iii).
          Repare-se, antes de mais, que, nos excertos epistolares acima transcritos, as referências a Isabel Cândida seguem ou precedem referências à filha e sempre no mesmo parágrafo. Quer isto dizer que Camilo, ao falar da amiga e abastada freira, se lembrava também da filha e vice-versa.
A este respeito, só mais um exemplo. A referência seguinte precede, no mesmo parágrafo, o excerto da carta de 02/07/1856, que transcrevi no “post” anterior [(Re)ver RODRIGUES, 2017c] e que agora reproduzo em parte:

(iv) O Evaristo tem aqui vindo: Hoje vai jantar com ele a Amélia, por que são os anos da filha mais velha. Eu farei saber à D. Isabel Cândida a tua recomendação e a do Luis. […]. [Carta datada de 02/07/1856]
[Cabral, 1984 (I): 102. Barbosa, [1919], não reproduz esta carta.]

            Pois é: a filha de Camilo, referida nestes excertos epistolares, é Amélia. Melhor: Bernardina Amélia. Na data em que foi jantar com o Evaristo [Basto] (iv), um dos maiores e fiéis amigos do Escritor, esta filha de Camilo tinha 8 anos de idade. É a sua segunda filha, filha natural, pois fruto da relação adulterina que ele teve com Patrícia Emília do Carmo de Barros (1826-1885).
Adulterina?
Sim: adulterina. Camilo, quando se envolveu intensa e conturbadamente com Patrícia Emília (chegaram a fugir e a estar presos), era casado com Joaquina Pereira de França, desde o dia 18/08/1841, de quem ficou viúvo 6 anos depois, em 25/11/1847. Entretanto, 2 anos depois do casamento, em 25/08/1843, nascia a primeira e única filha legítima de Camilo, a quem deram o nome de Rosa. Viveu esta menina pouco mais de 4 anos, pois faleceu em 10/03/1848, isto é, pouco mais de 3 meses após a morte da mãe e pouco mais de 3 meses antes do nascimento da sua meia-irmã Bernardina.
De facto, Bernardina Amélia nasceu a 25/06/1848. Assim, o ato feliz da sua conceção deve ter ocorrido 9 meses antes, num incerto dia de outubro de 1847. Era ainda viva a jovem esposa do jovem marido. Quando se receberam na igreja de Salvador/Ribeira de Pena, Joaquina tinha apenas 15 anos e Camilo apenas 16. Umas crianças, comentar-se-ia. Então e sobretudo hoje.

Maria Pereira de França e Sebastião Martins dos Santos
(Sogros de Camilo) [Em PIMENTEL, 1916: 44]

Camilo nunca quis assumir o seu casamento com Joaquina Pereira de França, embora se possam encontrar, em alguns dos seus escritos, veladas referências. Chegou mesmo, em declarações oficiais, a omitir o seu estado de casado e de viúvo.
Conta Alberto Pimentel (1849-1925), primeiro biógrafo do Escritor, de quem foi dedicado e delicado amigo, a este respeito:

«Quando, tendo-me pedido informações sôbre o trabalho da sua biografia, eu lhe confessei lealmente no Hotel Borges, em Lisboa, que possuia uma certidão do seu primeiro casamento, Camilo retorquiu-me, excitado:
  — Esse casamento foi uma infâmia.»
[PIMENTEL, 1916: 10]

           Bem diferentes foram, contudo, as relações de Camilo com a filha Bernardina Amélia e a mãe Patrícia Emília, como se sabe e/ou há de saber.

Regressando aos três primeiros trechos epistolares acima transcritos, resta(rá) identificar o colégio onde Camilo tinha a filha Bernardina Amélia. Será que tal situação tem alguma coisa a ver com «D. Isabel Cândida (a freira)»?
Talvez a resposta, mais uma, se encontre no próximo “post”.
Até lá, continuem a ler Camilo.

Referências:
BARBOSA, L. Xavier, [1919]: Cem Cartas de Camillo. Lisboa: Portugal-Brasil Limitada, Sociedade Editora. [À entrada do livro, ao centro de página ímpar (não numerada), encontra-se a seguinte informação: «A propriedade d'este livro pertence ao CULTO CAMILIANO, por generosa dadiva do autor.»]
CABRAL, Alexandre, 1984: Correspondência de Camilo Castelo Branco com os Irmãos Barbosa e Silva - I. (Escolha, prefácio e comentários de). Lisboa: Horizonte.
PIMENTEL, Alberto, 1916: A Primeira Mulher de Camilo. Lisboa: Guimarães & C.º - Editores.
RODRIGUES, David F., 2017: «CAMILO &M VIANA / [1857: “velha” como “nova” (01)»: http://vianacamilo.blogspot.pt/2017/04/camilo-viana-1857velha-como-nova-01.html
-----------------, 2017a): «CAMILO &M VIANA / [1857: “velha” como “nova” (02)»: http://vianacamilo.blogspot.pt/2017/04/camilo-viana-1857-velha-como-nova-02.html
-----------------, 2017b): «CAMILO &M VIANA / [1857: “velha” como “nova” (03)»: http://vianacamilo.blogspot.pt/2017/04/camilo-viana-1857-velha-como-nova-03.html
-----------------, 2017c): «CAMILO &M VIANA / [1857: “velha” como “nova” (04)»: http://vianacamilo.blogspot.pt/2017/04/camilo-viana-1857-velha-como-nova-04.html