[Continuação do post anterior]
ERAM seis
horas da manhã, quando a parelha, açodada pelo estalido do chicote, sempre
prodigo das suas amabilidades á entrada de terras grandes, arrastava aos pulos
o côche bambo pelas ruas fragosas de Braga, cognominada “Augusta” por politica
dos Cezares, e condecorada com o epitheto de “fiel” no tempo em que o Porto,
por força de rima, era ”ladrão.”
A respeito
de Braga e Porto o melhor é calarmo-nos.
[Branco, 18582: 131]
De
facto, os quatro amigos [recordem-se: Camilo, Evaristo Basto (E. B.) os irmãos
vianeses Luís (L. B.) e José (J. B.) Barbosa e Silva] devem ter-se levantado e
saído bem cedinho de Famalicão, para às seis da manhã já estarem em Braga.
Apesar
da última frase acima transcrita, Camilo sempre nos vai recordando algumas
rivalidades, remotas e recentes, que, desde há «nove seculos mais ou menos»
terão existido entre as duas cidades.
Braga
parece gostar pouco do Porto e vice-versa, assim como Camilo parece gostar pouco dos
bracarenses. Dos moradores das ruas por onde passavam, o Escritor dá-nos retratos
físicos e morais pouco agradáveis. Segundo ele, os bracarenses são «um povo bem
morigerado» - ia meditando ele – porque «adormeceu rezando o terço e os versos
de S. Gregório, e acordou para levar ao templo o coração lavado com que se
deitou! Aquelle capóte, forrado de baeta, com este calor que faz, é sem dúvida
um grande sacco de penitencia debaixo do qual se escondem os cilicios
expiatórios, quando vão á missa, e o garrafão do verdasco, quando voltam para
casa!» [Id.: 132-3]
E
porque os seus companheiros não lhe
pareciam então propensos a meditações tão graves, Camilo relata o que um
dia passou ao passar na rua onde agora passavam, continuando as suas reflexões (satíricas
e irónicas) a propósito:
Deste e
daquelle lado, estas boas almas rezavam o terço de meias. Eu passei com o
chapeu na cabeça; mas com o espirito cheio de reverencia aos bons costumes
d'esta sancta gente. N'isto, d'um e d'outro lado, suspende-se um padre-nosso, e rebenta uma ladainha de
apostrophes contra mim, a mais amavel das quaes era “fóra, bebado!”
Descobri-me, quando me vi em perigo de levar com um pedaço de escumalha da
forja nas costas, e fui abençoando o zelo d'esta sancta irmandade, que ahi está
posta de atalaia á religião da humildade e da tolerancia, para que se não diga
que a pureza d'ella fugiu d'esta terra, onde ainda ha portuguezes de lei, raça
sem mistura d'aquella que fez com as fogueiras o que esta, para mor honra e
gloria de Deus, quer fazer com a escumalha. Podesse este espirito de caridade
ser contagioso — continuei eu com as minhas seraphicas reflexões — e os homens
seriam todos excellentes creaturas, quebrar-se-hiam reciprocamente as caras em
defeza da fé, perdoar-se-hiam injurias e affrontamentos que não valem para
estes devotos uma palha; por exemplo, fraquezas, que uma refinada etiqueta
chama desdouros, lapsos do femeaço, useiro e vezeiro n'elles, isso que tem, ou
que faz para a salvação da alma? As raparigas, se as tivessemos, davam-se á
caução dos padres, para que elles as retemperassem do sal que resiste ao ranço
do vicio; e, se por más artes de Lucifer, Belzebut, Astharoth, Uriel, Asmodeu,
ou Diabo, a carne se contaminasse, e o ultimo pequeno désse ares do padre que
veio a casa exorcismar os esthericos da mulher, a coisa remediava-se com o
terço á noite, missinha d'alva ao outro dia, e uma formal bebedeira ao domingo,
em que se fariam as pazes, arranchando o padre com duas duzias de frigideiras.
Quam facil não seria reorganisar assim a sociedade que tão afanosos traz os
charlatães de elixires fourieristas, blanquistas, e proudhonianos?! Liguêmo-nos
todos, se ainda é tempo, pelo terço; perdoêmo-nos uns aos outros mutuamente as
velhacadas que nos fizermos; reservemo-nos, porém, o caso exceptuado de
quebrarmos a cabeça ao nosso similhante, se elle a não destapar diante dos
nossos nichos do Padre Sancto Antonio, e S. Torquato, que nos comem o azeite de
meias com as nossas bêrças.
[Id.:
134-5]
E
eis que voltamos a encontrar os nossos amigos vianeses, Luís e José Barbosa e
Silva. O tripeiro Evaristo Basto, esse, foi «visitar suas primas», despedindo-se «por meia
hora», tempo suficiente - digo eu - para as consolar.
E, n'este
discorrer, paramos na estalagem dita Estrella
do Norte.
[…] L. B.
perguntou ao primeiro encapotado onde era o botequim do café-forte. J. B. e eu
seguimol'-o com o intuito de espertarmos com o almejado café o espirito de
analyse, qual convinha a “touristes” d'um tal ou qual calibre.
Mandaram-nos
debaixo d'um renque de arcos, no Campo de Sant'Anna, onde a mão civilisadora,
em 1836, salvo erro, collocou o primeiro e unico botequim bracharense.
Lembra-me, faz hoje cinco annos, vêr alli no batente d'aquella porta um molho
de palha painça pendurado. N'este tempo, o botequim não era exclusivo do animal
bipede: o viajeiro podia almoçar e mais o azemel na mesma locanda: o armario da
cavaca e de pão pôdre [pão de ló] fornecia o grão e a palha para os dois
freguezes economicos. Hoje, não. A botiquineira, instrumento involuntario do
epygramma aos seus conterraneos, deixou de accumular os dois generos de consumo,
e d’esta vez não vendia palha, pelo menos com cartaz á porta. Em compensação,
as suas estantes de legitimo pinho amarello medraram em agua-ardente de
medronhos, licor de canella, e laranjas azedas.
L. B. pediu
café forte. O adjectivo, proferido
com intimativa, deu de nós á botiquineira uma idêa alta. J. B. fallando
francez, fez-nos talvez passar pelos contractadores da illuminação a gaz, ou
delegados russos que vinham fomentar a revolta. […]
Eu, em
quanto o café se preparava atravez dos variados philtros que lhe dão a
fortaleza em Braga, fui comprar uma folha de papel para escrever para a terra.
Em cata do
papel, tive occasião de entrar na tenda contigua ao botequim, e vi uma moçoila
espadauda, escarlate, cachopa de encher o olho desdenhoso do mais enfastiado
veterano dos salões. Estive, vai não vai, a pedir-lhe uma conta exacta das suas
impressões ao vêr-me; mas abstive-me de sondar os segredos do tecido adiposo
que lhe pejava os suburbios do coração. Retirei-me com a mulher entalhada na
terceira potencia d'alma — porque sou extremamente espiritualista — e vim
sentar-me a escrever a minha carta, em quanto L. B. lia um prospecto do
Cosmorama em Braga na noite d'aquelle dia.
“Se viermos
hoje ficar a Braga, de volta do Senhor do Monte — disse elle com a mais comica
seriedade — temos uma noite cheia.”
— Por que ?
— disse J. B.
“Vejam esse
programma.”
Lêmos, e
notamos, entre outros, dous quadros da exposição, que muito nos deviam
deleitar, e instruir sobre dous factos importantissimos, cuja averiguação nos
tinha dado muito que scismar. Era o primeiro:
O
MAGNIFICO QUADRO
DA PESCA DO SALMÃO!
A pesca do
salmão!
Imagina o
leitor, não visto na pesca da solha e do safio, o que é a pesca do salmão?!
J. B. tinha
visto o Louvre, Versailles, S. Marcos em
Veneza, S. Pedro em Roma, o Tunel, o Lago di Como, e declarou com o coração a rebentar de curiosidade e
riso, que não fazia ideia alguma da magnifica pesca do salmão! L. B. e eu, que a respeito da pescaria, não vamos além da pescadinha marmota e da tainha, estavamos , como o outro que diz, parvoinhos com a gloria de entrarmos nas nossas terras a contar aos ignorantões que nunca viram nada, a magnifica pesca do salmão!
Não riam um
riso tôlo os tôlos que só sabem rir. Eu conheço-os, dos que foram ás duas Exposições, para se exporem aos nossos olhos, na vespera de irem, e depois de voltarem.
Pois ninguem dirá que foram. Este, o que trouxe de lá, foi uma casaca comprada
em Londres; aquelle veio dizer aos seus amigos que o cavallo de tal lord tinha
a clina pintada, e uma malha encarnada no jarrete direito; est'outro d'uma
agua-furtada de Pariz namorou uma collareja, e não ultrapassou a decencia
platoniana, porque não sabia francez. Todos elles com aquella pose, que lhes vêdes, de homens que
viram, se a instrucção pagasse direitos de sahida, crêde-me que passariam na
alfandega inviolaveis ao fisco. São contrabando, sim, mas contrabando no
senso-commum. Estão ahi postos em altura invejada do vulgo sordido, porque o
tendeiro pai, ou o almocreve avô, não podem vir da campa dar-lhes na cara com
os tamancos e os calções de belbutina que lhes cá deixaram para memento. É o que os mata a elles, ainda
assim, a visão dos tamancos e dos calções! Sandeus, porque não hides ver, e
contar á familia o magnifico quadro da
pesca do salmão!
Deixal-os:
elles não lêem isto, nem lêem nada. Andam ahi consubstanciados nos seus
cavallos, e fazem de conta que vieram, porque eram cá precisos; e, medrados ao
bafejo da estupida fortuna, fazem da sociedade, que os acata, o seu incessante
espolinhadoiro. Meu querido tempo, e meu querido papel!...
Vamos ao
outro quadro:
OS
COLLEGIAES SAHINDO A PASSEÍO
NA RUA DA CORREDOURA,
NA CIDADE DE TUY.
Quanto
dariam vossas excellencias, leitores, por verem os collegiaes de Tuy passearem,
como qualquer de nós, na rua da
Corredoura? A circumstancia de serem de Tuy, e a de passearem na rua da
Corredoura, é um facto que, se não palpita, pelo menos escoucinha de interesse!
Abençoadas tintas e abençoadas lentes que, por um pataco, nos raptam os olhos
com maravilhas que a mais fogosa imaginação não traçaria! Que bem empregado
pataco, se eu podesse vêr o expositor, d'après
nature, com uma albarda no dorso, e um collegial de Tuy bifurcado nella!
“Venha o
café, que tudo isto desafia o vomito” — disse J. B. em quanto eu archivava na
minha carteira este documento, que espero não seja o unico das minhas
explorações por estes mundos de Christo.
Veio, em
fim, o café; e, diga-se a verdade, era forte. […]
[Id.: 136-141]
[Continua]
NB1 – Foi respeitada, nas citações, a grafia
da edição consultada.
NB2 - Caricatura da autoria de Francisco Valença (1924). Retrato (gravura em madeira) de Pastor (1874)
[Fragmento da capa do livro, 4.ª ed., 1903]
BRANCO, C. C., 18582: «Do Porto a Braga», em Duas
Horas de Leitura. Porto: Cruz Coutinho.
RODRIGUES, D. F., 2014: «Camilo & e os irmãos
Barbosa e Silva, em Duas Horas de Leitura (18582)
[I], AQUI
-----------, 2014a: «Camilo & e os irmãos Barbosa e
Silva, em Duas Horas de Leitura (18582)
[II], AQUI.
-----------, 2014b: «Camilo & e os irmãos Barbosa e
Silva, em Duas Horas de Leitura (18582)
[III], AQUI.
-----------, 2014d: «Camilo & e os irmãos Barbosa e
Silva, em Duas Horas de Leitura (18582)
[V], AQUI.
-----------, 2014e: «Camilo & e os irmãos Barbosa e
Silva, em Duas Horas de Leitura (18582)
[VI], AQUI.
-----------, 2014f: «Camilo & e os irmãos Barbosa e
Silva, em Duas Horas de Leitura (18582) [VII], AQUI.