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segunda-feira, 2 de março de 2015

025. Camilo & e os irmãos Barbosa e Silva [22]



Conforme referi, em nota [NB2], no post anterior, em Duas Horas de Leitura encontram-se mais dois escritos onde Camilo se refere aos irmãos vianeses Barbosa e Silva. Todavia, porque diretamente relacionada com a crónica «Do Porto a Braga», inicialmente intitulada «Peregrinação à Face do Globo», apresentarei, neste, uma carta que o Escritor escreveu a Evaristo Basto, em 1864. Nela, o romancista recorda acontecimentos vividos pelos quatro peregrinos (Camilo, Evaristo Basto, Luís e José Barbosa e Silva), no passeio que deram até Braga / Bom Jesus do Monte. O objeto e objetivo deste blogue são as relações de profunda amizade que Camilo manteve com dois irmãos vianeses e como tais relações se refletem na obra do Escritor. Também nesta carta, datada de janeiro, se encontram tais referências.






LEITURAS
BRANCO, C. C., 18582: «Do Porto a Braga», em Duas Horas de Leitura. Porto: Cruz Coutinho.
-------------, 1864: No Bom Jesus do Monte. Porto: Viuva Moré. Edição consultada:  AQUI.
RODRIGUES, D. F., 2013: «”A excellencia de carnaval” (1856)»,em AQUI
-----------, 2014: «Camilo faz hoje 189 anos». AQUI
-----------, 2014a: «Camilo & e os irmãos Barbosa e Silva, em Duas Horas de Leitura (18582) [I], AQUI
-----------, 2014b: «Camilo & e os irmãos Barbosa e Silva, em Duas Horas de Leitura (18582) [II], AQUI.
-----------, 2014c: «Camilo & e os irmãos Barbosa e Silva, em Duas Horas de Leitura (18582) [III], AQUI.
-----------, 2014d: «Camilo & e os irmãos Barbosa e Silva, em Duas Horas de Leitura (18582) [V], AQUI.
-----------, 2014e: «Camilo & e os irmãos Barbosa e Silva, em Duas Horas de Leitura (18582) [VI], AQUI.
-----------, 2014f: «Camilo & e os irmãos Barbosa e Silva, em Duas Horas de Leitura (18582) [VII], AQUI.
-----------, 2014g: «Camilo & e os irmãos Barbosa e Silva, em Duas Horas de Leitura (18582) [VIII], AQUI.
-----------, 2014h: «Camilo & e os irmãos Barbosa e Silva, em Duas Horas de Leitura (18582) [IX], AQUI.
-----------, 2014i: «Camilo & e os irmãos Barbosa e Silva, em Duas Horas de Leitura (18582) [X], AQUI.
-----------, 2014j: «Camilo & e os irmãos Barbosa e Silva, em Duas Horas de Leitura (18582) [XI], AQUI.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

024. Camilo & e os irmãos Barbosa e Silva [21]
          em Duas Horas de Leitura (1857) [XI]

[Continuação do post anterior.]

            Com este, termino a série de posts dedicados às relações de Camilo Castelo Branco com os irmãos vianeses Luís e José Barbosa e Silva, explícita ou implicitamente referidos na crónica «Do Porto a Braga», cujo primeiro título foi «Peregrinação sobre a Face do Globo», reunida, depois com outros escritos, em Duas Horas de Leitura. Nesta, o Escritor relata com muita fantasia e não menor ironia e, por vezes, algum sarcasmo, o passeio que os três, juntamente com Evaristo Basto, fizeram entre aquelas duas cidades, com paragem e pernoita em Famalicão. Mas o destino final era o Bom Jesus do Monte, estância que, desde muito cedo, o haveria de marcar afetivamente.

As melhores recordações que Camilo teve do Bom Jesus foram depois de 1856, ano em que, com os três amigos, visitara pela segunda vez. A primeira foi quando tinha 11 anos, em 1836, após a morte do pai, a caminho de Vila Real, onde ficaria, juntamente com a irmã Carolina, aos cuidados da tia paterna, Rita Emília. [Ver AQUI.] Depois do ano da crónica referida, Camilo visitou muitas vezes a estância, na companhia de Ana Plácida, ainda ela vivia com o marido, Manuel Pinheiro Alves. Numa delas, os dois amantes terão tido oportunidade de ser um casal feliz, física e psicologicamente, pela primeira vez. E outras se terão seguido, evidentemente.

[Escadório atual do Bom Jesus do Monte. Fotografia colhida em Google+ / Imagens / Bom Jesus do Monte]

Mas a recordação pior que o Escritor nos dá e revela do Bom Jesus é da «hospedaria real», onde os quatro «peregrinos» tencionavam jantar e pernoitar. Jantar ainda jantaram. Agora dormir, foi impossível, devido à falta de higiene, a tal ponto de Camilo de desejar ver exposto «ao azorrague e às moscas o taverneiro estabelecido no Senhor do Monte, como numa na «picota». [Branco, 18562: 165]
E prosseguindo, relata Camilo:

Quando os nossos olhos mortaes acharam este foco de infecção, sentimos spasmos no esophago, e estivemos a lançar naquelle chão maldicto o café forte de Braga. Fôramos alli como a um manancial de inspirações saudosas, e encontramos uma Aganippe de... d'onde beberam, talvez, os poetas que decoraram as paredes d'aquella sentina. Nunca os beiços se te descollem d'essa fonte, taverneiro ignobil! Já que não approveitas as grossas nascentes, que te jorram á porta, para lavares o teu bragal, ainda eu te veja, sicario, reduzido, não a pó, que é esse o commum destino da humanidade, mas.... Para elles são vozes no deserto estas apostrophes; mas, se ellas chegarem aos ouvidos e ao illustrissimo nariz da camara municipal de Braga, a ella incumbe vigiar o quarto ou cloaca n.º 2 da immunda tasca, e remover d'alli aquellas colchas, fumigar aquelle quarto, e desalojar o sordido taverneiro que alli está envergonhando a terra, provando que elle é mais immoral do que foram todos juntos os judeus das capellas visinhas.
Anojados e phreneticos corremos ao quarto dos nossos rapazes a relatar o escandalo. E[varisto] B[asto] regougava que o deixassem dormir, transigindo assim momentaneamente com a impudencia. L[uís] B[arbosa] pediu com ancia umas piugas, e saltou da cama, livido de terror. Então juramos não passar alli a noite, e reunimos em sessão para decidirmos o que devia comer-se, menos susceptivel da influencia suja do cozinheiro. Meditada profundamente a proposta, e recolhido cada qual em sua consciencia, levantaram-se todos como um só homem e preromperam em vozes unanimes, dizendo: — “Nós somos livres, o nosso estomago livre é, e, assim queremos bacalhau.”
E. B. viera juntar o seu brado á causa da justiça e da moralidade. […]
Em quanto o bacalhau se cosia, fomos desenjoarnos com o ar purissimo do arvoredo.
[…]
Houve silencio de alguns minutos. Foi E. B. que o quebrou assim:
“A mim disseram-me que enviasse d'aqui um suspiro, nas azas da saudade, ao coração saudoso... não direi de quem, porque o amor mais sancto é o que mais se resguarda no sanctuario do mysterio. Um suspiro saudoso! Como darei eu um suspiro?! É forçoso que se cumpra o sacrifício.” Disse, e soltou um som cavo, coisa inclassificavel entre o arrôto e o espirro.
Não sei se os leitores se riram; eu não pude. Aquelle gracejo para mim foi um incentivo de mui dolorosa meditação. E não pude guardal-a só comigo: revelei-a assim aos meus amigos:
“Se nos aqui reunissemos antes dos vinte annos, E. B. não teria senão um suspiro em caricatura com que saudasse neste logar a memoria de uma mulher? Os nossas corações teriam, apenas, uma ironia para celebrar debaixo d'este céo o amor? É bem lastimavel esta aridez de quatro homens, tres dos quaes [C., J. B. e E. B.] não ha muito que revellavam nos versos paixões profundas, extasis do céo, amores incendiarios, saudades sanctas de uma outra vida que não é esta! Que almas tão decahidas as nossas! Este local é como um padrão onde devem vir afferir-se os corações que perderam no mundo o seu valor. Quem não traz para aqui a imagem de uma mulher que possa cá purificar-se em imagem d'anjo, é bem infeliz! Pois nem ao menos uma saudade do que fomos? nem a esperança póde já reviver? Que sentes tu L. B.?
[“]Nada.[“]
“E tu, J. B.?
[“]Nada: estou prodigiosamente estupido. Preciso estar callado.[“]
“Mas no silencio o que ouves? o que dizes?
[“]Nada: é um cáhos de idêas, sem significação.[“]
“E tu, E. B. que sentes?
[“]Vontade de jantar. Essas perguntas são vans e pretenciosas. Trinta annos passados, volta-se a ampulheta.[…] É chegada a tua vez: e tu que sentes? [“]
  Eu ia dizer o que sentia, quando divizei dous vultos sentados á sombra de uma arvore. […]
[…] Não sei d'olhos mais bonitos, nem de cabellos negros que tão bem dissessem com o marfim do collo! Não sei quem ella é, nem conheço o ditoso conjuge; mas não sirva isto de embargo aos meus parabens a ella e a elle. Vivam muitos annos, e tenham muitos meninos, que eu vou comer o meu caldo negro de Sparta que corresponde ao bacalhau de Braga.
Foi um devorar homerico ! Tudo o que está dito na Gastronomia, poema de Berchoux, é inferior áquillo! Por um auspicioso systema de compensação, conheci que a vitalidade dos meus amigos refugira do coração para outra viscera dos suburbios. Provou-se o elasterio do estomago, e levou-se á evidencia que as brizas e agua fresca não eram suficiente alimento para nós. Nunca Shakspeare ousaria dizer que Hamlet vivia d'ar e esperanças, se o pobre moço, em vez de andar á bordoada com o padrasto, viesse até ao Bom Jesus de Braga impregnar-se da molecula saborosa do bacalhau. Inaugurada a realeza do estomago, como prova do maximo adiantamento, é difficil morrer de pena que não seja a de uma indigestão.
Foi justamente a morte que eu muito receei lá em cima. Ficamos n'um spasmo de tres horas, depois do jantar. Confesso que me pareceu feia a natureza, e até feias as mulheres que me sorriam divinas quando o bacalhau não era ainda metade da minha existencia vegetal. Este estylo ressente-se do meu estado de então.
Immalamos, e partimos para Braga.
Dentro do carro, fomos rodados de modo que o regurgitamento cedeu aos choques.
Entramos na cidade ao lusco-fusco.
Desde a entrada até ao campo de Sanct’Anna fomos recebidos com assobios e guinchos e mugidos dos garotos, aprendizes de chapelleiro, que vinham ás portas das officinas ganir. Os nossos antigos descobridores quando saltavam em praia de barbaros eram assim recebidos. O mais é que os patrões das officinas pareciam folgar naquelle alarido da canalha. Que terra! Aquillo poderá ser gente? O que lhes vale é o terço depois que uivam. Para que quererá Deus lá em cima similhantes alarves?
Chegamos á hospedaria da Estrella do Norte.
Vimos um par de grossas pernas de uma redonda matrona que se estirava o mais commodamente que se póde sobre uma cama, e dava gratis o espectaculo aos que lhe passavam deante da sua porta. Pareceu-nos bastante ingenua a nossa vizinha de quarto! Os commentarios ás pernas foram interrompidos por um robusto “aqui-d'el-rei” que vinha da rua.
Saiba-se o que é isto. E. B. desceu á rua, e nós fomos á janella. Vimol-o innovelar-se na mó do povo que se apinhava em redor da victima lamuriante.
Depois lá debaixo cá para o segundo andar, E.B. com toda a força dos seus pulmões, exclamou:
“Foi o fidalgo que lhe bateu.”
Apenas proferida a palavra “fidalgo!” todo aquelle gentio escoou-se pelas travessas lateraes, e o cidadão bracharense, desamparado, achou que era quéda sobre o couce do fidalgo enrouquecer gritando pelo rei, que valia menos alli que o cabo de policia.
[…]
Vou concluir.
Passamos uma noite atormentada. A legião dos persovejos lá de cima tinha destacamentos cá em baixo. L. B. e E. B. andaram tres horas com os enxergões ás costas. Eu descobri na minha cama um animal novo; não era bem insecto nem mollusco; repelli-o com toda a força da minha indignação, e adormeci.
Ás tres horas da manhã estavamos em marcha. Os dous irmãos Barbosas para Vianna, sua bella patria: Evaristo Basto, e eu para o Porto.
Agora seriedade:
No abraço de despedida, conhecemos que ainda tinhamos coração, um grande coração para a amizade. […] [Id.: 166-173]

NB1 – Foi respeitada a grafia da edição consultada. O sinal […] indica fragmentos que não foram transcritos.
NB2 – Em Duas Horas de Leitura encontram-se mais dois escritos em que o Camilo se refere aos irmãos vianeses Barbosa e Silva, como a seu tempo se verá. Todavia, porque diretamente relacionada com a crónica «Do Porto a Braga», apresentarei, no próximo post, uma carta que o Escritor escreveu a Evaristo Basto, em 1864, e onde o romancista volta a referir-se, naturalmente, aos irmãos Barbosa e Silva. Essa carta encontra-se na narrativa No Bom Jesus do Monte (1864).

LEITURAS
BRANCO, C. C., 18582: «Do Porto a Braga», em Duas Horas de Leitura. Porto: Cruz Coutinho.
RODRIGUES, D. F., 2013: «”A excellencia de carnaval” (1856)»,em AQUI
-----------, 2014: «Camilo faz hoje 189 anos». AQUI
-----------, 2014a: «Camilo & e os irmãos Barbosa e Silva, em Duas Horas de Leitura (18582) [I], AQUI
-----------, 2014b: «Camilo & e os irmãos Barbosa e Silva, em Duas Horas de Leitura (18582) [II], AQUI.
-----------, 2014c: «Camilo & e os irmãos Barbosa e Silva, em Duas Horas de Leitura (18582) [III], AQUI.
-----------, 2014d: «Camilo & e os irmãos Barbosa e Silva, em Duas Horas de Leitura (18582) [V], AQUI.
-----------, 2014e: «Camilo & e os irmãos Barbosa e Silva, em Duas Horas de Leitura (18582) [VI], AQUI.
-----------, 2014f: «Camilo & e os irmãos Barbosa e Silva, em Duas Horas de Leitura (18582) [VII], AQUI.
-----------, 2014g: «Camilo & e os irmãos Barbosa e Silva, em Duas Horas de Leitura (18582) [VIII], AQUI.
-----------, 2014h: «Camilo & e os irmãos Barbosa e Silva, em Duas Horas de Leitura (18582) [IX], AQUI.
-----------, 2014i: «Camilo & e os irmãos Barbosa e Silva, em Duas Horas de Leitura (18582) [X], AQUI.


terça-feira, 20 de janeiro de 2015

021. Camilo & e os irmãos Barbosa e Silva [18]

         em Duas Horas de Leitura (1857) [VIII]

[Continuação do post anterior]


ERAM seis horas da manhã, quando a parelha, açodada pelo estalido do chicote, sempre prodigo das suas amabilidades á entrada de terras grandes, arrastava aos pulos o côche bambo pelas ruas fragosas de Braga, cognominada “Augusta” por politica dos Cezares, e condecorada com o epitheto de “fiel” no tempo em que o Porto, por força de rima, era ”ladrão.”
A respeito de Braga e Porto o melhor é calarmo-nos.

[Branco, 18582: 131]

De facto, os quatro amigos [recordem-se: Camilo, Evaristo Basto (E. B.) os irmãos vianeses Luís (L. B.) e José (J. B.) Barbosa e Silva] devem ter-se levantado e saído bem cedinho de Famalicão, para às seis da manhã já estarem em Braga.
Apesar da última frase acima transcrita, Camilo sempre nos vai recordando algumas rivalidades, remotas e recentes, que, desde há «nove seculos mais ou menos» terão existido entre as duas cidades.
Braga parece gostar pouco do Porto e vice-versa, assim como Camilo parece gostar pouco dos bracarenses. Dos moradores das ruas por onde passavam, o Escritor dá-nos retratos físicos e morais pouco agradáveis. Segundo ele, os bracarenses são «um povo bem morigerado» - ia meditando ele – porque «adormeceu rezando o terço e os versos de S. Gregório, e acordou para levar ao templo o coração lavado com que se deitou! Aquelle capóte, forrado de baeta, com este calor que faz, é sem dúvida um grande sacco de penitencia debaixo do qual se escondem os cilicios expiatórios, quando vão á missa, e o garrafão do verdasco, quando voltam para casa!» [Id.: 132-3]
E porque os seus companheiros não lhe pareciam então propensos a meditações tão graves, Camilo relata o que um dia passou ao passar na rua onde agora passavam, continuando as suas reflexões (satíricas e irónicas) a propósito:

Deste e daquelle lado, estas boas almas rezavam o terço de meias. Eu passei com o chapeu na cabeça; mas com o espirito cheio de reverencia aos bons costumes d'esta sancta gente. N'isto, d'um e d'outro lado, suspende-se um padre-nosso, e rebenta uma ladainha de apostrophes contra mim, a mais amavel das quaes era “fóra, bebado!” Descobri-me, quando me vi em perigo de levar com um pedaço de escumalha da forja nas costas, e fui abençoando o zelo d'esta sancta irmandade, que ahi está posta de atalaia á religião da humildade e da tolerancia, para que se não diga que a pureza d'ella fugiu d'esta terra, onde ainda ha portuguezes de lei, raça sem mistura d'aquella que fez com as fogueiras o que esta, para mor honra e gloria de Deus, quer fazer com a escumalha. Podesse este espirito de caridade ser contagioso — continuei eu com as minhas seraphicas reflexões — e os homens seriam todos excellentes creaturas, quebrar-se-hiam reciprocamente as caras em defeza da fé, perdoar-se-hiam injurias e affrontamentos que não valem para estes devotos uma palha; por exemplo, fraquezas, que uma refinada etiqueta chama desdouros, lapsos do femeaço, useiro e vezeiro n'elles, isso que tem, ou que faz para a salvação da alma? As raparigas, se as tivessemos, davam-se á caução dos padres, para que elles as retemperassem do sal que resiste ao ranço do vicio; e, se por más artes de Lucifer, Belzebut, Astharoth, Uriel, Asmodeu, ou Diabo, a carne se contaminasse, e o ultimo pequeno désse ares do padre que veio a casa exorcismar os esthericos da mulher, a coisa remediava-se com o terço á noite, missinha d'alva ao outro dia, e uma formal bebedeira ao domingo, em que se fariam as pazes, arranchando o padre com duas duzias de frigideiras. Quam facil não seria reorganisar assim a sociedade que tão afanosos traz os charlatães de elixires fourieristas, blanquistas, e proudhonianos?! Liguêmo-nos todos, se ainda é tempo, pelo terço; perdoêmo-nos uns aos outros mutuamente as velhacadas que nos fizermos; reservemo-nos, porém, o caso exceptuado de quebrarmos a cabeça ao nosso similhante, se elle a não destapar diante dos nossos nichos do Padre Sancto Antonio, e S. Torquato, que nos comem o azeite de meias com as nossas bêrças.
[Id.: 134-5]

E eis que voltamos a encontrar os nossos amigos vianeses, Luís e José Barbosa e Silva. O tripeiro Evaristo Basto, esse, foi «visitar suas primas», despedindo-se «por meia hora», tempo suficiente - digo eu - para as consolar.


E, n'este discorrer, paramos na estalagem dita Estrella do Norte.
[…] L. B. perguntou ao primeiro encapotado onde era o botequim do café-forte. J. B. e eu seguimol'-o com o intuito de espertarmos com o almejado café o espirito de analyse, qual convinha a “touristes” d'um tal ou qual calibre.
Mandaram-nos debaixo d'um renque de arcos, no Campo de Sant'Anna, onde a mão civilisadora, em 1836, salvo erro, collocou o primeiro e unico botequim bracharense. Lembra-me, faz hoje cinco annos, vêr alli no batente d'aquella porta um molho de palha painça pendurado. N'este tempo, o botequim não era exclusivo do animal bipede: o viajeiro podia almoçar e mais o azemel na mesma locanda: o armario da cavaca e de pão pôdre [pão de ló] fornecia o grão e a palha para os dois freguezes economicos. Hoje, não. A botiquineira, instrumento involuntario do epygramma aos seus conterraneos, deixou de accumular os dois generos de consumo, e d’esta vez não vendia palha, pelo menos com cartaz á porta. Em compensação, as suas estantes de legitimo pinho amarello medraram em agua-ardente de medronhos, licor de canella, e laranjas azedas.
L. B. pediu café forte. O adjectivo, proferido com intimativa, deu de nós á botiquineira uma idêa alta. J. B. fallando francez, fez-nos talvez passar pelos contractadores da illuminação a gaz, ou delegados russos que vinham fomentar a revolta. […]
Eu, em quanto o café se preparava atravez dos variados philtros que lhe dão a fortaleza em Braga, fui comprar uma folha de papel para escrever para a terra.
Em cata do papel, tive occasião de entrar na tenda contigua ao botequim, e vi uma moçoila espadauda, escarlate, cachopa de encher o olho desdenhoso do mais enfastiado veterano dos salões. Estive, vai não vai, a pedir-lhe uma conta exacta das suas impressões ao vêr-me; mas abstive-me de sondar os segredos do tecido adiposo que lhe pejava os suburbios do coração. Retirei-me com a mulher entalhada na terceira potencia d'alma — porque sou extremamente espiritualista — e vim sentar-me a escrever a minha carta, em quanto L. B. lia um prospecto do Cosmorama em Braga na noite d'aquelle dia.
“Se viermos hoje ficar a Braga, de volta do Senhor do Monte — disse elle com a mais comica seriedade — temos uma noite cheia.”
— Por que ? — disse J. B.
“Vejam esse programma.”
Lêmos, e notamos, entre outros, dous quadros da exposição, que muito nos deviam deleitar, e instruir sobre dous factos importantissimos, cuja averiguação nos tinha dado muito que scismar. Era o primeiro:

O MAGNIFICO QUADRO
DA PESCA DO SALMÃO!

A pesca do salmão!
Imagina o leitor, não visto na pesca da solha e do safio, o que é a pesca do salmão?!
J. B. tinha visto o Louvre, Versailles, S. Marcos em Veneza, S. Pedro em Roma, o Tunel, o Lago di Como, e declarou com o coração a rebentar de curiosidade e riso, que não fazia ideia alguma da magnifica pesca do salmão! L. B. e eu, que a respeito da pescaria, não vamos além da pescadinha marmota e da tainha, estavamos , como o outro que diz, parvoinhos com a gloria de entrarmos nas nossas terras a contar aos ignorantões que nunca viram nada, a magnifica pesca do salmão!
Não riam um riso tôlo os tôlos que só sabem rir. Eu conheço-os, dos que foram ás duas Exposições, para se exporem aos nossos olhos, na vespera de irem, e depois de voltarem. Pois ninguem dirá que foram. Este, o que trouxe de lá, foi uma casaca comprada em Londres; aquelle veio dizer aos seus amigos que o cavallo de tal lord tinha a clina pintada, e uma malha encarnada no jarrete direito; est'outro d'uma agua-furtada de Pariz namorou uma collareja, e não ultrapassou a decencia platoniana, porque não sabia francez. Todos elles com aquella pose, que lhes vêdes, de homens que viram, se a instrucção pagasse direitos de sahida, crêde-me que passariam na alfandega inviolaveis ao fisco. São contrabando, sim, mas contrabando no senso-commum. Estão ahi postos em altura invejada do vulgo sordido, porque o tendeiro pai, ou o almocreve avô, não podem vir da campa dar-lhes na cara com os tamancos e os calções de belbutina que lhes cá deixaram para memento. É o que os mata a elles, ainda assim, a visão dos tamancos e dos calções! Sandeus, porque não hides ver, e contar á familia o magnifico quadro da pesca do salmão!
Deixal-os: elles não lêem isto, nem lêem nada. Andam ahi consubstanciados nos seus cavallos, e fazem de conta que vieram, porque eram cá precisos; e, medrados ao bafejo da estupida fortuna, fazem da sociedade, que os acata, o seu incessante espolinhadoiro. Meu querido tempo, e meu querido papel!...
Vamos ao outro quadro:

OS COLLEGIAES SAHINDO A PASSEÍO
NA RUA DA CORREDOURA,
NA CIDADE DE TUY.
    
Quanto dariam vossas excellencias, leitores, por verem os collegiaes de Tuy passearem, como qualquer de nós, na rua da Corredoura? A circumstancia de serem de Tuy, e a de passearem na rua da Corredoura, é um facto que, se não palpita, pelo menos escoucinha de interesse! Abençoadas tintas e abençoadas lentes que, por um pataco, nos raptam os olhos com maravilhas que a mais fogosa imaginação não traçaria! Que bem empregado pataco, se eu podesse vêr o expositor, d'après nature, com uma albarda no dorso, e um collegial de Tuy bifurcado nella!
“Venha o café, que tudo isto desafia o vomito” — disse J. B. em quanto eu archivava na minha carteira este documento, que espero não seja o unico das minhas explorações por estes mundos de Christo.
Veio, em fim, o café; e, diga-se a verdade, era forte. […]
[Id.: 136-141]

[Continua]

NB1 – Foi respeitada, nas citações, a grafia da edição consultada.
NB2 - Caricatura da autoria de Francisco Valença (1924). Retrato (gravura em madeira) de Pastor (1874)

[Fragmento da capa do livro, 4.ª ed., 1903]

LEITURAS
BRANCO, C. C., 18582: «Do Porto a Braga», em Duas Horas de Leitura. Porto: Cruz Coutinho.
RODRIGUES, D. F., 2014: «Camilo & e os irmãos Barbosa e Silva, em Duas Horas de Leitura (18582) [I], AQUI
-----------, 2014a: «Camilo & e os irmãos Barbosa e Silva, em Duas Horas de Leitura (18582) [II], AQUI.
-----------, 2014b: «Camilo & e os irmãos Barbosa e Silva, em Duas Horas de Leitura (18582) [III], AQUI.
-----------, 2014d: «Camilo & e os irmãos Barbosa e Silva, em Duas Horas de Leitura (18582) [V], AQUI.
-----------, 2014e: «Camilo & e os irmãos Barbosa e Silva, em Duas Horas de Leitura (18582) [VI], AQUI.
-----------, 2014f: «Camilo & e os irmãos Barbosa e Silva, em Duas Horas de Leitura (18582) [VII], AQUI.