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sábado, 7 de março de 2020
terça-feira, 28 de janeiro de 2020
Obs. - Este apontamento é reprodução (digitalizada) de texto publicado em Cadernos Vianenses (Tomo 50, 2016, pp. 179-193). Outros apontamentos sobre a presença de Viana do Castelo (cidade, concelho, distrito) na obra de Camilo, também neste blogue hão de ser reproduzidos.sexta-feira, 21 de abril de 2017
CAMILO &M VIANA
[1857: “velha” como “nova” (02)]
Recordo: na tarde de 7 de abril de 1857, Camilo Castelo Branco chegava à cidade de Viana do Castelo. O jornal A Aurora do Lima dava a notícia de «tão honrosa visita», no dia seguinte. Desta “velha” como “nova” fiz, no “post” anterior, transcrição, seguida de breve comentário. Prometi, no final, complementar e esclarecer aspetos nela referidos que, já na altura, seriam, mais ou menos propositadamente, esquecidos ou deixados na sombra. [(Re)ver em RODRIGUES, 2017]
Ora, cá estou, para um primeiro suplemento, na esperança de tornar
aquela notícia, “velha” de 160 anos, um pouco mais “nova”, isto é, atualizada,
sobre as relações de Camilo com Viana.
Deixando para depois considerações
sobre aspetos puramente formais, fixemo-nos nos pontos mais relevantes da peça.
Encontram-se eles no primeiro parágrafo, a que, hoje, se poderia chamar, em
termos jornalísticos, o lide:
Chegou hontem de tarde a esta cidade, vindo do Porto,
o nosso particular amigo e collega, o Snr. Camillo Castello Branco, que conta,
por motivos de saude residir temporariamente nas amenas e risonhas margens do
Lima. Este cavalheiro distinguirá com a sua collaboração as columnas d’este
jornal.
Quem conhece as cartas que Camilo escreveu ao seu grande
e generoso amigo José Barbosa e Silva (JBS) - cofundador, coproprietário e um
dos principais impulsionadores e redatores do jornal A Aurora do Lima – saberá ou recordará que:
(i) não era a
primeira vez (nem a última), que o Escritor visitava esta cidade;
(ii) a sua vinda não
se devia, apenas ou principalmente, a «motivos de saúde»;
(iii) sua intenção
não era tão só «residir temporariamente nas amenas e risonhas margens do Lima»;
iv) não era, a partir
daquela data, que daria a sua colaboração a este jornal.
Mas saberá ainda mais, o meu leitor, que:
v) a razão principal
por que Camilo trocava, segundo a correspondência, o Porto por Viana, era, fundamentalmente,
de natureza profissional e económica (monetária), como a seu tempo se
verá/lerá.
Quanto a i), está documentado que Camilo já tinha efetuado,
antes de 1857, uma primeira visita a Viana do Castelo. Foi na Páscoa de 1853.
Abordei já esta visita em dois “posts” – RODRIGUES, 2013 e, sobretudo, RODRIGUES,
2013a – para que remeto.
Sabe-se, por outro lado, que depois de 1857, o
Escritor voltou a Viana mais duas vezes, pelo menos. Também destas há
testemunhos documentados. Dedicar-lhes-ei, oportunamente, os “posts”
necessários.
Mas entre 1853 e 1857, uma outra visita projetou
Camilo realizar a Viana. Visita cuja duração não seria de breves dias, mas de
um mês. Teve, também por isso, de ser devidamente preparada com o seu
grande e confidente amigo JBS. Sublinhei também, porque, desta vez, ao
contrário da anterior (a de 1853), Camilo viria acompanhado. Por quem? Já
verá/lerá. Começou, por isso, a prepará-la através da carta que, a seguir, transcrevo.
Nota
- As relações de Camilo com
Viana do Castelo têm sofrido alguns atentados. Além da destruição recente da
casa, situada na encosta sul do Monte de Santa Luzia, junto da Capela de S.
João d’Arga, onde o Escritor residiu, entre 7 de abril e 29 de maio de 1857, também
as cartas que JBS dirigiu ao seu particular e dileto amigo foram - informa
Alexandre Cabral - «vandalescamente» destruídas. Pois, «em Ceide não se
encontra uma única». [CABRAL, 1984 (I): 41]
Vamos à carta:
MEU BARBOSA
Será possivel o seguinte?
D. Izabel Candida (a freira) com quem me congracei por
uma celebre eventualidade, quer passar um mez nas visinhanças de Vianna, e d’ahi
fazer ao Minho algumas excursoens. Segundo os estatutos monasticos, não pode
estancear se não de passagem em estalagens, e não pode residir. Quer ella,
portanto, uma casa de quinta mobilada simples[mente] do q[ue] é propriamente
mobilia: paga tudo, acceita todas as condições monetarias. (Estas bravatas pecuniarias
estão em harmonia com o genio e as posses da dita). Uma vez me disseste tu
q[ue] era possível arranjar-se para mim uma casa como a deseja a D. Izabel. Eu
vou para a hospedaria[*]; mas bem quizera que ella por ahi
estivesse, por q[ue] verás q[ue] passaremos algumas horas de nonchalante convivencia. Tomaremos
banhos, cysnes derrabados, e depois do almoço confortavel como convem a dous
Antonuys de estomago, recordaremos, poetas poitrinaires,
as decepçoens da infancia, a pouca vergonha das illusoens mentidas como a onda (vide Shakespeare). Pelo q[ue]:
Muito importa q[ue] lances as tuas diligentes medidas,
e me digas se se pode contar com a caza nos dias 1 ou 2 de Setembro. Nota, meu
caro José, que eu não vou se ella não vai, e ella não vai se tu lhe não
preparas la (com a simplicid[ade] que ja te disse) uma aposentadoria m[ais] ou
menos romantica. A fam[ilia] d’ella são trez creados, onde domina o sexo
feminino com duas soffriveis faxadas. Tive um abraço teu transmitido p[or]
Ant[onio] Bernardo. Nas azas da briza da tarde mandei-te um beijo em retribuição.
Responde, q[uando] possas, ao teu
Recados a teus manos
17 de Agosto
de 1855.
Camillo.
[Carta reproduzida em BARBOSA, [1919]: 74-75. Respeitei
a grafia da edição consultada, exceto as formas abreviadas, tal como,
certamente, se encontra no autógrafo camiliano. Também em CABRAL, 1984 (I): 87].
* O original desta carta foi visto, lido e transcrito,
segundo a ortografia de 1984, por Alexandre Cabral. Este conceituado
camilianista observa que «L. Xavier Barbosa permitiu-se alterar o texto do
escritor, pondo a palavra hospedaria
onde estava Cara de Pau (o nome da
hospedaria).» Aqui fica, por isso, o reparo.
Referências:
BARBOSA,
L. Xavier, [1919]: Cem Cartas de Camillo. Lisboa: Portugal-Brasil Limitada, Sociedade Editora.
[À entrada do livro, ao centro de página ímpar (não numerada), encontra-se a
seguinte informação: «A propriedade d'este livro pertence ao CULTO CAMILIANO,
por generosa dadiva do autor.»]
CABRAL,
Alexandre, 1984: Correspondência de
Camilo Castelo Branco com os Irmãos Barbosa e Silva - I. (Escolha, prefácio
e comentários de). Lisboa: Horizonte.
RODRIGUES,
David F., 2017: «CAMILO &M VIANA / [1857: “VELHA” COMO “NOVA” (01)»: http://vianacamilo.blogspot.pt/2017/04/camilo-viana-1857velha-como-nova-01.html
-----------------,
2013a: «Camilo & Viana 003 / Camilo e os irmãos Barbosa e Silva [01]»: http://e-ternoretorno.blogspot.pt/2013/11/camilo-viana-003.html
-----------------,
2013: «Camilo & Viana 002 / Camilo e os irmãos Barbosa e Silva [01]: http://e-ternoretorno.blogspot.pt/2013/11/camilo-viana-002.html
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Viana do Castelo
sexta-feira, 7 de abril de 2017
CAMILO
&M VIANA
[1857:
“velha” como “nova” (01)]
Ora
façam o favor de ler:
«Chegou hontem de tarde a esta cidade, vindo
do Porto, o nosso particular amigo e collega, o Snr. Camillo Castello Branco,
que conta, por motivos de saude residir temporariamente nas amenas e risonhas
margens do Lima. Este cavalheiro distinguirá com a sua collaboração as columnas
d’este jornal.
Seria
suspeito á amisade expansiva, tributar como era devido, as boas vindas ao
abalisado e primoroso escriptor. A Vianna, á sua illustração, e ao seu nome nas
lettras portuguezas, damos nós cordialissimos emboras, pela distinção de tão
honrosa visita.
O Snr.
Camillo Castello Branco era esperado no caminho por muitos dos seus amigos.
Conjuntamente com elle, vinha também o nosso estimavel amigo o Snr. Sant’Anna e
Silva, abbade de S. Martinho da Barca, vocação muito esperançosa da eloquencia
sagrada, e um dos primeiros ornamentos do pulpito portuense.»
[Cf. Barbosa, [1919]: 78-79. Respeitada
grafia da versão consultada que, julgo, será igual à usada no Aurora de 1857.
O mesmo texto, com grafia
atualizada (anterior ao AO90), encontra-se também em Anselmo, 1989: 16 e 1993: 119.]
Com esta
“nova”, publicada a 08 de abril de 1857, informava o jornal A Aurora do Lima (n.º 195) que Camilo Castelo
Branco se encontrava, desde a tarde do dia anterior – 07 de abril de 1857 – em Viana do Castelo, onde tencionava «residir
temporariamente».
Faz
hoje 160 anos, portanto, que o Escritor começou a viver nas «margens do Lima»,
oportunidade sendo para, apesar dos pessoais «motivos de saúde», segundo conta a
“nova”, «o abalizado e primoroso escritor» distinguir
as colunas do ainda jovem periódico (o
seu 1.º n.º saiu em 15-12-1855), «com a sua colaboração».
É este
um documento relativamente importante sobre as relações estreitas que, a vários
níveis e de vária ordem, existiam entre Camilo Castelo Branco e A Aurora do Lima, que o mesmo é dizer (ou
melhor dizer), entre o Escritor e os seus grandes amigos vianeses, os irmãos Barbosa
e Silva, nomeadamente com o José, o benjamim da família.
Merece,
por isso, esta “local”, pelo que revela e – diga-se –, já então também encobria, leituras que, por um lado, melhor a contextualizem e, por outro, esclareçam alguns
aspetos nela referidos, explícita e/ou implicitamente. É o que procurarei fazer, dentro das minhas capacidades
e possibilidades, em “posts” futuros.
Referências:
ANSELMO,
A., 1989: «Camilo e “A Aurora do Lima”». Rodapé em A Aurora do Lima, n.º 19, de 03/03, p. 1. O autor fez publicar, neste jornal, numa série consecutiva de 7
rodapés, num total de 28 pp., o texto referido abaixo, em Anselmo, 1993. A
notícia da chegada de Camilo a Viana encontra-se reproduzida na p. 16 do quarto
rodapé.
-----------------,
1993: «Camilo e “A Aurora do Lima”». Camilo
Castelo Branco- Jornalismo e Literatura no Séc. XIX (Colóquio promovido
pelo Centro de Estudos Camilianos em V. N. de Famalicão, de 13 a 15 de Outubro
de 1988). Estudos Camilianos – 3. V.
N. de Famalicão: Centro de Estudos Camilianos; pp. 115-123.
BARBOSA,
L. X., [1919]: Cem Cartas de Camillo. Lisboa: Portugal-Brasil Limitada, Sociedade Editora. [À entrada do livro, ao centro de página ímpar (não numerada), encontra-se a seguinte informação, que pode ser entendida como dedicatória: «A propriedade d'este livro pertence ao CULTO CAMILIANO, por generosa dadiva do autor.»]
segunda-feira, 2 de março de 2015
025. Camilo & e os irmãos Barbosa e Silva [22]
Conforme referi, em
nota [NB2], no post anterior, em Duas Horas de Leitura
encontram-se mais dois escritos onde Camilo se refere aos irmãos vianeses
Barbosa e Silva. Todavia, porque diretamente relacionada com a crónica «Do
Porto a Braga», inicialmente intitulada «Peregrinação à Face do Globo»,
apresentarei, neste, uma carta que o Escritor escreveu a Evaristo Basto, em
1864. Nela, o romancista recorda acontecimentos vividos pelos quatro peregrinos (Camilo, Evaristo Basto, Luís
e José Barbosa e Silva), no passeio que deram até Braga / Bom Jesus do Monte. O
objeto e objetivo deste blogue são as relações de profunda amizade que Camilo manteve
com dois irmãos vianeses e como tais relações se refletem na obra do Escritor.
Também nesta carta, datada de janeiro, se encontram tais referências.
LEITURAS
BRANCO, C. C., 18582: «Do
Porto a Braga», em Duas Horas de Leitura. Porto: Cruz Coutinho.
-----------, 2014a: «Camilo & e
os irmãos Barbosa e Silva, em Duas Horas de Leitura (18582)
[I], AQUI
-----------, 2014b: «Camilo & e
os irmãos Barbosa e Silva, em Duas Horas de Leitura (18582)
[II], AQUI.
-----------, 2014c: «Camilo & e
os irmãos Barbosa e Silva, em Duas Horas de Leitura (18582)
[III], AQUI.
-----------, 2014d: «Camilo & e
os irmãos Barbosa e Silva, em Duas Horas de Leitura (18582)
[V], AQUI.
-----------, 2014e: «Camilo & e os
irmãos Barbosa e Silva, em Duas Horas de Leitura (18582)
[VI], AQUI.
-----------, 2014f: «Camilo & e os
irmãos Barbosa e Silva, em Duas Horas de Leitura (18582)
[VII], AQUI.
-----------, 2014g: «Camilo & e os
irmãos Barbosa e Silva, em Duas Horas de Leitura (18582)
[VIII], AQUI.
-----------, 2014h: «Camilo & e os
irmãos Barbosa e Silva, em Duas Horas de Leitura (18582)
[IX], AQUI.
-----------, 2014i: «Camilo & e os
irmãos Barbosa e Silva, em Duas Horas de Leitura (18582)
[X], AQUI.
-----------, 2014j: «Camilo & e os irmãos Barbosa
e Silva, em Duas Horas de Leitura (18582) [XI], AQUI.
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Irmãos Barbosa e Silva
segunda-feira, 29 de dezembro de 2014
019. Camilo & e os irmãos Barbosa e Silva [16]
em Duas Horas de Leitura (1857) [VI]
«A HISTORIA da tenia não acabou ainda, leitor
pacientissimo! Não lhe esqueça que L[uís] B[arbosa], posto que não seja poeta
visionario, tambem imaginou uma [ténia] como os poetas imaginam virgens.» [Branco, 18582: 117]
Assim
retoma Camilo, logo no início do cap. V da crónica «Do Porto a Braga»
(inicialmente intitulada, recorde-se, «Peregrinação sobre a Face do Globo»),
incluída no volume Duas de Leitura (rever
AQUI), a consulta que três dos quatro
amigos fizeram, em Famalicão, ao «doutor em medicina verminosa». Do resultado
que obtiveram José Barbosa e Silva e Camilo já se relatou nos posts anteriores [rever AQUI
e AQUI]. Chegou, como já se previu, a vez
de Luís Barbosa e Silva, que o Escritor, continuando, narra assim:
«Poucos
rostos tereis visto mais sadios, mais medrados, e menos expressivos da
existencia de um parasita que se approprie o chymo d'uma digestão empeçada. L.
B. é atascado de boas carnes, goza as apparencias d'uma enfadonha saude, e, a
não ter guapas e espessas barbas, recordaria a nediez e o chorume d'um frade
Bernardo, de gorda memoria. D'onde lhe veio a suspeita da solitaria, isso é que
eu não sei, nem o doutor em medicina verminosa soube tambem.
Eu de mim,
suspeitando-a, tinha desculpa, porque me vejo deáphano como um sylpho, leveiro
como um dos gnomos mensageiros de Oberon, e resequido como folha do outomno.
Nada mais
razoavel, nas minhas circumstancias, que imaginar-me preza de todos os vermes
de Raspail. E indispensavel a existencia de um bicho burlista que me empalma o
chylo convertendo-o em substancia sua, com grave detrimento do meu tecido
adyposo que se vai encorreando como a polpa de uma solha escallada. A não ser
isto, por mais que me digam, deram as bruxas comigo!
J[osé] B[arbosa]
tem, não digo cincoenta por cento, mas ao menos uma probabilidade de solitaria,
por isso que a tristeza, o aborrecimento, e o desconforto são symptomas moraes,
ás vezes, mais persuasivos que os physicos.
Se nem elle
nem eu, investigados pelo doutor, tivemos a felicidade de alojar o verme, com
que juz L. B. ousa nutrir a ambiciosa suspeita de ser a urna de um annellido
com oitenta braças?! Que arrojo é esse de ir sentar-se, depois de mim, em
frente do auruspice, que não acha em tres homens reunidos uma polegada de
tenia?
Perguntado
sobre os seus padecimentos, L. B., naturalmente respondeu que não padecia nada;
e o doutor, desesperado de explorar uma victima do seu cosimento, mandou-o
erguer, desejando-lhe a continuação da sua boa saude. [Id.: 117-119]
E
acabada a consulta, Evaristo Basto, «com a sua delicadeza proverbial convidou o
doutor a cear. Aceitou, o mestre, sem fazer-se rogar, porque não quis
cercear-nos a gloria de o possuirmos alguns minutos mais.» [Id.: ibid.]
Como decorreu a ceia e como o
doutor das lombrigas comia e sobretudo “vovia” e falava doutamente sobre a
ténia, terá o amigo leitor deste post
/ blogue de pegar no livro de Camilo e (re)ler o resto da crónica. Não está à espera que lhe faça a papinha toda,
pois não?...
Mas sempre lhe direi que, após
a ceia, os peregrinos de Braga ainda conversaram
alguns minutos com o «doutor», sobre a residência e rersistência do verme, cujas
afirmações eram seriamente ouvidas entre sorrisos e gargalhadas abafadas. E, a
propósito do riso, Camilo reflete:
«N’este
tempo em que os acontecimentos comicos inçam a vida de uma sociedade de
transição, a hilaridade não cede a pequenos estimulos: o barão tornou-se
indigno do riso, o jornalista que apregôa a integridade da sua consciencia para
alterar-lhe o preço, passa desapercebido; a escóla de canto da camara municipal
portuense não faz rir ninguem; um artigo de fundo, que aconselha ao ministro de
instrucção publica o alvitre de a mocidade decorar obrigatoriamente as posturas
da camara, para formar por ellas a rectidão do espirito, provoca a lastima, sem
desarticular os queixos em estrondosa risada; finalmente, ha uma só coisa que
desafia ao leitor um sorriso de piedade: é o conto, á laia d'este, presumido de
chiste, pretencioso de sal... sal tartaro, amados leitores. Eu poupo-me, e
quero poupar-vos ás grandes gargalhadas, desde que li, não me lembra aonde, que
o poeta Philémon morrêra de riso por vêr um onagro comendo figos sobre um
escriptorio. Se a gente vai a rir-se de quantos onagros comem figos,
rebentam-nos as carotidas !...»
E depois
? – perguntar-me-á já o (im)paciente leitor. Pois foi a seguir lerá:
«A noite ia
alta. Cabeceavamos todos e tinhamos de sahir pouco depois. O doutor retirou-se
a digerir.
Deram-nos
quatro camas n'um quarto. Travou-se lucta de morte, a travesseiro, entre nós,
por causa do unico leito de ferro, ingrato ao persovejo. Venceu-o de escalada E[varisto]
B[asto].
Deitados,
discutimos longo tempo a residencia da solitaria. Eu adormeci praguejando
contra a anathomia do doutor: E. B. queria provar que elle era um goraz de
casaca. J. B. teimava que o resto da nação, depois da Estremadura e do
Alemtejo, era Chaves e Almeida. L. B., com a vella em punho, rebuscava debaixo
do travesseiro um persovejo imaginario. A projecção da luz dava-lhe o sombreado
mystorioso d'uma avantesma.
Ás trevas
seguiu-se o silencio: ao silencio o resomnar profundo.
Uma hora
depois fui acordado pelos berros estridentes de E. B.
Amaldiçoei
o primeiro homem que mostrou ser possivel levantar-se a gente antes do
meio-dia! [Id.: 121-122]
E assim termina o cap. V de «Do Porto a Braga» em Duas horas de Leitura.
Leituras:
RODRIGUES, D. F., 2014: «Camilo & e os irmãos Barbosa e Silva, em Duas Horas de Leitura (18582) [I], AQUI
-----------, 2014a: «Camilo & e os irmãos Barbosa e Silva, em Duas Horas de Leitura (18582) [II], AQUI.
-----------, 2014b: «Camilo & e os irmãos Barbosa e Silva, em Duas Horas de Leitura (18582) [III], AQUI.
-----------, 2014d: «Camilo & e os irmãos Barbosa e Silva, em Duas Horas de Leitura (18582) [V], AQUI.
NB - O desenho de Camilo é de Júlio Pomar e a fotografia dos irmãos Barbosa e Silva foi colhida AQUI.
terça-feira, 9 de dezembro de 2014
018. Camilo & e os irmãos Barbosa e
Silva [15]
em Duas
Horas de Leitura (1857) [V]
[Continuação do post anterior]
Antes
de relatar a consulta que os três amigos (J. B, C. C. B. e L. B.) iriam fazer
ao célebre «doutor das lombrigas», Camilo penitencia-se, ironicamente, do facto
de não se ter informado, em tempo devido, «do nome e sobrenome de um sujeito
que vai honorificar a pagina mais imbrincada da minha peregrinação.» E
acrescenta, de imediato:
«O meu
primeiro cuidado, se eu não fosse um frivolo, logo que me approximei de um
homem ao alcance do folhetim scientifico, deveria saber-lhe o nome, a linhagem,
as suas manias em criança, e outros muitos adminiculos que vem sempre a pêlo na
boa avaliação de um typo distincto.» [Braga,
18582: 109]
Lembra, em seguida, nomes de cientistas importantes
pelas descobertas que fizeram, mas, por outro lado, que lhe «arde a cara de
vergonha» por não saber «o nome do varão prestante que mata a bicha solitária!»
Por isso,
«A coima
desta falta só póde descontar-nol-a o esmero que vamos pôr em relembrar as
impressões que sentimos — eu e os meus companheiros — nos rapidos instantes que
a sua companhia nos deliciou na estalagem
real de Villa Nova de Famalicão, onde apeamos no capitulo III.
Os grandes homens
perdem, quasi sempre na approximação. Excepções ha, porém; e uma dessas é o
illustre mésinheiro. O doutor... (não temos certeza se o é; mas o direito com
que lhe outhorgamos ao menos um bacharelato está authorisado pelo arbitrio de
similhantes mercês:) o doutor esperava-nos, visto que se lhe annunciou a
chegada de uma carroça de victimas da tenia, que vinham de longes climas a
consultar o Epydauro de Gondifélos, ou aldêa que o valha.» [Id.: 110]
É
ao retrato físico «doutor das lombrigas» que Camilo se entrega. Retrato que lhe
permitia adivinhar o do intelectual que tinha à sua frente, pois «a physionomia
do doutor era um espelho do espírito. Por ella – acrescenta – via-se quão
enrugada e arida por lucubrações antilombrigoides não devia de estar-lhe a
alma!» [Id.: 111] Enfim, a sua
aparência era de um homem inteiramente dedicado ao estudo e à ciência. Mas o
último reparo é para a roupa que o homem usava. Condiria ela com o homem de tal
espírito “científico”?...
«A casaca e o
collete eram singularidades adscriptas ao talento. O doutor envergava uma
casaca por a mesma razão que Rousseau trajava vestidos armenios, e um
socialista francez, fautor dos irmãos Moravios, se vestiu de monge cóphta. A
natureza talhára ab cetemo para elle a vestia de botões de chifre, até ao
sacro, ou o collete de affogadilho até á quarta costella. O genio, porém,
sempre innovador, em guerra aberta com a despotica natureza, encadernou-se na
casaca ignobil, vulgarisando-se até á planta do regedor de parochia rural, e
escrivão substituto do juiz-eleito. Como quer que seja, as mediocridades não
podem, sem ridiculisar-se, censurar os desvarios do genio.» [Id.: 113]
E vão começar as consultas. O primeiro a
ser examinado foi José Barbosa e Silva [«J. B.»].
«O doutor, outra
vez sentado, assumiu o seu ar de prestigio, investiu a realeza do seu
merecimento, mediu-nos d'alto a baixo, e exprimiu no sobrecenho a altivez do
orador de aldêa que vai dizer quatro prosopopeias a uma chusma de sandeus.
Eu disse a J. B. :
— “Senta-te, e consulta o doutor.” Era necessario divertir o spasmo estupido em
que todos ficamos.
J. B. sentou-se.
Não pude ouvir o relatorio dos seus padecimentos. A sua voz era cava e
mysteriosa. Havia alli entre ambos uns visos de caballa, palavras surdas de
feitiços, olhares vesgos de coisa ruim.
O doutor ouvia, e o
pouco que dizia era accentuado; bamboando solemne a cabeça pyramidal. J. B.
tirou os oculos; o doutor procurou a cabeça da tenia na retina, ao que parecia
dos seus olhares perscrutadores. N'isto, a um signal negativo do doutor,
ergue-se J. B., e diz:
“Não tenho a bicha!]”]
Não poderei
descrever-vos o rosto desconsolado do meu amigo, sem tenia!
J. B. queria ter o
verme; daria por uma tenia o mais importante dos seus intestinos. A lombriga
das cem braças era a sua ultima quimera. Mortas todas as illusões do coração,
restava-lhe aquella no abdomen.
Nem essa! nem uma
solitaria para companheira no êrmo da vida ao homem que busca dentro em si um
outro ego!
O doutor disse, e
permaneceu immovel na cadeira, esperando um enfermo mais auspicioso. Devia ser
eu!
Com quanto o
descrever-me n'esta situação original pertença aos meus galhofeiros amigos, eu
vou ter a immodestia de fallar de mim. A sciencia requer estas vaidades, assim
como a historia as absolve a Cezar contando as façanhas proprias.
O DOUTOR: Então que sente?
EU: Dyspnéas frequentes : nevroses no apparelho
respiratorio; um borborygmo escumoso a partir do esophago: pulsações
lancinantes no estomago; beliscadellas ardentes na pelle; e de noite
estremecimentos subitos que me despertam...
O DOUTOR (interrompendo-me
com um sorriso de intelligencia): isso não são symptoinas physicos; [114]
sem symptomas physicos não temos probalidades;
a solitaria tem seus symptomas.
EU (mordendo
o beiço o mais symptomatica e physicamente que podia para disfarçar uma gargalhada
physica.) Além d'isto, sinto uma profunda melancholia, um aborrecimento de
tudo, um desleixo por tudo, inactividade para tudo...
O DOUTOR: As probalidades são cincoenta por cento.
Ora diga-me: come bem?
EU: Pouco, e sem appetite.
O DOUTOR: Quando se tem a solitaria, come-se bem, e
ella ajuda a fazer a digestão. Ora como o senhor não tem symptomas physicos, as
probalidades são cincoenta por cento.
Deixe lá ver a lingua... Está bom... É preciso fazer certa experiência para
termos symptomas physicos. Isto ha-de ser mais devagar.
Disse.
Ergui-me com os
cincoenta por cento, e vi que os meus companheiros fungavam a um canto, uma
risada, encarando-me com ar de compaixão.
E o doutor,
immovel, olhava para a cadeira onde devia sentar-se L. B.
Começavamos todos a
sentir que a nossa posição era ridicula. Uma tenia moral fizera graves
desmanchos no nosso juizo. O unico dos quatro, superior á zombaria, era E. B.
que se não julgava o pabulo d'uma lombriga ideal.
Em holocausto á
verdade, declaro que fiz uma plangente figura! Andei vinte e quatro horas,
col-[115]leccionando a nomenclatura technica dos meus padecimentos, e tive o
descoco de não levar um só symptoma
physico, que désse idêa da minha tenia! E
pur si muove! A bicha existe!»
[Id.: 113-116]
Leituras:
BRANCO, C. C., 18582: «Do Porto a
Braga», em Duas Horas de Leitura. Porto: Cruz Coutinho.
RODRIGUES, D. F.,
2014: «Camilo & e os irmãos Barbosa e Silva, em Duas
Horas de Leitura (18582) [I]. AQUI
-----------, 2014a: «Camilo & e os irmãos Barbosa e
Silva, em Duas Horas de
Leitura (18582) [II]. AQUI.
-----------, 2014b: «Camilo & e os irmãos Barbosa e
Silva, em Duas Horas de
Leitura (18582) [III]. AQUI.
-----------, 2014c: «Camilo & e os irmãos Barbosa e
Silva, em Duas Horas de
Leitura (18582) [IV],. AQUI.
NB - Nas
transcrições e citações foi respeitada a grafia das edições consultadas.
[Continuará]
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