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sexta-feira, 23 de junho de 2017

CAMILO &M VIANA
[1857: “velha” como “nova” (27)]


Afinal, quem transigiu não foi ela, foi ele. [(Re)ver post anterior]
O leitor já conhece esta carta de Camilo para José Barbosa e Silva (JBS). Foi transcrita no “post” de 12/05. Aí, para (continuar) a mostrar as relações amorosas existentes entre o Escritor e a freira D. Isabel Cândida Vaz Mourão. Aqui, depois de (re)ler, hoje, esse importante documento, tecer, em “post(s) futuro(s), os comentários julgados convenientes, mais diretamente relacionados o jornal A Aurora do Lima e o seu desejado e interessado novo redator.
Neste sentido, a referida carta é, agora, a referência

11.ª)

MEU CARO BARBOSA. 

Cauza-te espanto uma carta m[inh]a depois de outra q[ue] hontem receberias? Tamb[e]m a mim me maravilha escrever-t’a. São 11 horas da noite, e chego do Porto, com estes restos de coração atravessados n’uma roda de navalhas. É o caso:
Eu nunca disse a Izabel Candida as m[inh]as intenções a resp[ei]to de ir p[ar]a Vianna, p[o]r que previa o abalo, e receava os efeitos p[o]r ella e p[o]r mim, que sou um imbecil, quando sou cauza e ao m[es]mo tempo testemunha d’uma grande dor. Era m[inh]a tenção deixal-a recolher ao convento, e depois ca de fora escrever-lhe uma carta, longam[en]te meditada, de modo que o golpe fosse dado com punhal d’um só gume: isto é – tencionava mentir-lhe, dizendo q[ue] a minha hida era simplesmente uma tentativa p[ar]a o melhoram[en]to da m[inh]a saúde.
Hoje, indo eu levar-lhe m[inh]a filha, que se achava aqui há 3 dias, recebeu-a chorando, sem querer dizer-me a razão p[o]r que. Muito instada, prorompeu n’uma acusação quase virolenta á m[inh]a ingratidão, e acabou p[o]r me dizer q[ue] sendo ella a m[inh]a amiga era a ultima q[ue] devia saber que eu sahia do Porto. Da violência passou para a mansidão das lagrimas suplicantes, e por fim acabou por ser assaltada d’um terrivel incommodo que me assustou. N’este estado, foi-me impossível dizer-lhe uma so palavra de consolação. M[inh]a filha chorava, e o medico Ferr[ei]ra que eventualmente occorreu n’este ensejo, fez-me sentir que a organização enfraquecida da pobre m[ulh]er podia facilm[en]te succumbir a semelhante choque. Eu estava parvo, e parvo sahi quando a noite já adiantada me obrigou.
Aqui tens uma situação bem especial – uma das mi[nh]as deabolicas situações, em q[ue] o coração revive em toda a compaixão q[ue] as m[inh]as proprias desgraças não tem podido desvanecer p[ar]a] com os outros. Isto é uma fatalid[ad]e de q[ue] não ha partido a tirar. É-me impossivel, já agora, ser meu. Ha de haver sempre em mim um pensam[en]to bom q[ue] me escravize ao mal. Sou como aquelle que mede a profundid[ad]e do abysmo, e não tem a resolução de recuar.
Vamos remediar d’algum modo isto meu caro Barbosa. Eu adevinho q[ue] a tua boa alma não é estranha aos sentim[en]tos da minha. D’estes sabes tu sentil-os melhor q[ue] eu. Penso até que m’os louvas, e serias o primeiro a dizer-me «não desampares essa pobre m[ulh]er, que tem contra ella a id[ad]e a dizer-lhe que os seus annos já não podem vencer os calculos d’um homem»[.] Isto é duro, e chora-me o coração figurando-me a alma de I[sabel] Candida, q[ue] não tem em si recursos p[ar]a a defeza d’uma ingratidão. Como poderemos remediar isto? Ha um modo q[ue] tu recuzarás, mas eu não deixo p[o]r isso de t’o propor. Eu serei d’aqui redactor do teu jornal. Uma simples carta tua com poucas palavras será sufficiente inspiração p[ar]a artigos especialmente consagrados ao Destricto. Mandarei regularm[en]te 3 artigos politicos-economicos p[ara] o jornal, e 3 correspondencias que devem substituir as do Novaes, que eu acho m[ui]to inferiores a uma patacoada. Alguns extractos e correspondencias bastarão p[ar]a encher dignam[en]te a folha. Se, todavia, p[o]r q[u]alq[ue]r consideração, não queres apear o Novaes, eu escreverei m[ai]s q[ue] os 3 artigos, e forjaria uma apparente correspondencia de Lx.ª [Lisboa][.] Convencido estou de q[ue] a m[inh]a assistencia ao pe do jornal não o tornaria p[o]r isso mais lido nem m[ai]s em dia, n’uma terra onde é reflexiva a politica, e donde d’um dia p[ar]a o outro tu me avisas dos pontos em q[ue] convem tocar.
Não sinto precisão de te dizer m[ai]s[.] Tu é que me deves escrever logo q[ue] resolvas, na certeza de q[ue], p[o]r um motivo m[ui]to nobre, terei grande pezar q[ue] recuzes. Devo dizer-te q[ue] me contento, em paga, com a q[ue] darias a qual[que]r redactor que p[ar]a ahi fosse. Pareceu-me dever notar isto como uma circumstancia que te faria pensar alguns instantes.

(Foz, 11 de Setembro de 1856)
                                                                       Teu Camillo
[Barbosa, [1919]: 16-19.  Respeitada grafia da edição consultada.
Também em Cabral, 1984 (I): 117-119]

        Então, até ao próximo!
         E continue a ler Camilo! Por exemplo, Carlota Ângela, romance originalmente publicado em Viana do Castelo, no Autora do Lima, em folhetins e depois em livro (1858). Nele encontrarão uma «soror Rufina», do Convento de S. Bento da Avé Maria, uma «religiosa ilustrada» e uma «senhora tolerante».

Referências:
BARBOSA, L. Xavier, [1919]: Cem Cartas de Camillo. Lisboa: Portugal-Brasil Limitada, Sociedade Editora.
CABRAL, Alexandre, 1984: Correspondência de Camilo Castelo Branco com os Irmãos Barbosa e Silva - I. (Escolha, prefácio e comentários de). Lisboa: Horizonte.

quarta-feira, 24 de maio de 2017

CAMILO &M VIANA
[1857: “velha” como “nova” (10)]


A freira que, em 1855, quis gozar, na companhia de Camilo, o mês de setembro, nas vizinhanças de Viana; a freira que, um ano depois, tentou impedir que este ainda seu amante viesse para esta cidade e aqui ocupasse o cargo, remunerado, de redator do jornal A Aurora do Lima; a freira que, via seu amigo querido, estabeleceu amizade com os dois filhos mais novos da família Barbosa e Silva, tornando-se interessada leitora de Viver para Sofrer, romance do mais jovem, o José; a freira que, durante anos, foi dedicada e generosa precetora de Bernardina Amélia, filha natural da relação adulterina entre Camilo e Patrícia Emília; a freira que, terminada a paixão amorosa e o convívio direto com o ex-amante, continuou sua amiga, apesar de ele se ir afastando cada vez mais dela; a freira de quem, no “post” anterior, fiz uma breve biografia, baseado, apenas, nas informações colhidas nas cartas que o Escritor enviou ao seu grande amigo vianês José Barbosa e Silva (JBS); a freira que...
Isabel Cândida Vaz Mourão é o seu nome completo.


Isabel Cândida era irmã professa do Convento de S. Bento da Avé Maria. O mosteiro situava-se, antes de ser demolido (finais do séc. XIX), onde se encontra a atual estação ferroviária central do Porto (S. Bento), construída nos princípios do séc. XX.
Das várias consultas bibliográficas efetuadas sobre esta monja beneditina, não consegui apurar datas de nascimento e morte, de ingresso e profissão na ordem, nem a naturalidade, nem, mesmo, os nomes dos pais. O processo sobre a sua vida religiosa desapareceu. Alguém se encarregou (ou foi encarregado) de o destruir. E com ele, ter-se-ão perdido dados sobre a sua vida. Uma coisa é evidente: foi o seu amor a Camilo e à Bernardina Amélia que salvou do anonimato esta religiosa.

Isabel Cândida não foi, como já o paciente leitor deduziu, uma soror exemplar. Respeitaria pouco as regras monásticas. Terá sido repreendida, assim, por mau comportamento. Mas dizem os biógrafos de Camilo, quando acerca dela escrevem, que era uma freira rica, em moeda e bens, culta, que gostava de fazer versos e de conversar com poetas e folhetinistas. Mas não só. Manuel Tavares Teles, ao descrever o «estatuto social» do abastado e maduro brasileiro portuense Manuel Pinheiro Alves (1807-1868), anota, em rodapé (com base no Periódico dos Pobres do Porto, de 29/09/1851) a «coincidência curiosa» de os «dois primeiros directores» da Fundição Bicalho terem sido Bento Luís Ferreira Carmo, que foi amante da freira Isabel Cândida Vaz Mourão, e Manuel Pinheiro Alves, que foi marido de Ana Plácido.» [TELES, 2008: 181. Respeitada grafia da edição consultada.]

Não encontrei fotografias de Isabel Cândida. Houve, porém, um autor que, tendo-a conhecido pessoalmente, dela nos deixou um singular retrato. Alberto Pimentel (1849-1925), «amigo devotado de Camilo (com quem privou intimamente)» e de quem foi o «primeiro biógrafo» [CABRAL, 20032: 605], revela ter-se encontrado, desde os 15 anos (1865), com a freira. Conta ele que, em consequência do casamento de Bernardina Amélia (1865), a jovem noiva abandonou o convento e a religiosa passou a ser professora de uma sua prima, Aureliana Coelho Bragante. E Alberto Pimentel acrescenta:

«Muitas vezes acompanhei minha mãe e irmãs em visita áquela nossa parenta, que nos recebia na grade com a freira e nos regalava com rebuçados e bonbons. Outras vezes eramos convidados a ir lá almoçar e então tambem ia comnosco meu pai, que salvara minha prima em doenças graves e tinha mais clientes de partido naquela comunidade. [//] Minha prima estimava ver-se rodeada de parentes, ria de vontade com os ditos de meu pai […], e a freira D. Isabel Cândida conversava com animação e espirito, contando casos do convento e casos da cidade, como se conhecesse estes tão bem como aqueles.»

E logo de seguida, dá os retoques finais no retrato da mãezinha (tratamento que as educandas davam às monjas educadoras) da prima:

«Mas a freira era velha e feia, trigueira, angulosa e alta, tinha a voz forte, um nariz respeitável, e sombras de buço.»

O devotado biógrafo do Escritor estranha, por isso, que «aquela mulher, tão balda de encantos feminis, pudesse haver inspirado atenções afectuosas […] a um homem superior […] como Camilo Castelo Branco. [PIMENTEL, 1921: 26-28. Respeitada grafia da edição consultada.)
Contudo, foi o que aconteceu. Reciprocamente, embora esteja convencido de que, na balança deste amor, o prato da freira pesasse mais que o de Camilo.

Os biógrafos situam o início das relações entre Isabel Cândida e Camilo, em outubro de 1850. Viram-se no abadessado ou outeiro dos dias 21 a 24 daquele mês. Festejava-se, no mosteiro, a reeleição da abadessa Ana Delfina de Andrade. [CABRAL, 1918: 96 e PIMENTEL, 1899: 145]. António Cabral, citando local publicada, a 26, n’O Jornal do Povo, diz que, naqueles dias de festa, com doces e vinhos servidos pelas criadas do convento, foram «notadas as bellas poesias que recitaram os srs. Correa Leal, Camillo Castello-Branco, [António Joaquim Xavier] Pacheco, [José Maria] Vieira e [António Frutuoso] Ayres de Gouvêa [Osório]». [CABRAL, 1918: 96. Não consegui precisar o poeta Correa Leal.] As freiras não se misturavam com os poetas. Assistiam das grades ao sarau, lançando motes que eles desenvolviam, improvisando.

Na coletânea de poemas Inspirações, publicada em 1851, Camilo inclui um poema dedicado «À Illm.ª e Exm.ª Snr.ª / D. ANNA DELFINA D’ANDRADE. / ABADESSA RE-ELEITA / - Improviso - / No Mosteiro de S. Bento da Ave Maria da Cidade / do Porto, em Outubro de 1850» [BRANCO, 1851: 78. Respeitada grafia da edição consultada.]


Isabel Cândida foi mais que uma segunda mãe, para a filha natural de Patrícia Emília e Camilo, então jovens amantes (pouco mais teriam que vinte anos de idade). A religiosa, terminada a relação amorosa com o Escritor, continuou, todavia, a educar e a acompanhar, de perto, tanto dentro como fora do convento, Bernardina Amélia. Até 29 de dezembro de 1865, dia em que a jovem, com apenas 17 anos, casou com o abastado capitalista, regressado do Brasil, António Francisco de Carvalho. A freira tratou de tudo. Através de carta [cf. PIMENTEL, 1890: 103], em que relevava as qualidades e o estatuto social do noivo, Isabel Cândida, em nome da Bernardina, pede à mãe natural da filha de Camilo que autorize o matrimónio. Camilo opôs-se. Em vão.
O Escritor não se encontrava ainda recuperado, física, psicológica, social e economicamente do processo de adultério e divórcio, desencadeado, em 1860, pelo marido de Ana Plácido. O escandaloso caso em que o pai da noiva se tinha envolvido terá pesado na decisão da freira, em escrever à Patrícia Emília, que entretanto passara a viver com um novo companheiro, Francisco José Claro, em Vila Real.

É sabido que Camilo não aprovou, de início e durante anos, que a filha casasse com o abastado brasileiro, devido à diferença de idades, como confessa em carta que, datável de 20 de julho de 1874, dirigiu ao Visconde de Ouguela (Carlos Ramiro Coutinho, 1830-1897):

«Amanhã vou ao Porto para acompanhar a minha filha e a minha neta à Póvoa. Não sei se sabes que tenho uma filha e uma neta. O meu genro é um argentário maior de 50 anos e de 200 contos. Impugnei este casamento, há 9 naos, receando que a diferença entre 16 e 40 anos abrisse um abismo entre os cônjuges. Felizmente que a minha filha saiu uma criatura angelical, e o marido é um excêntrico que a tem levado a viajar. Nunca falei com ele, desde que o vi em 1849, sair para o Brasil. Era filho de um desembargador. Levou 20 contos do seu património, e voltou rico. Viu a pequena na grade de um convento, e pediu-a a uma freira que ele presumia ser mãe da noiva. Como eu me opusesse ao casamento, solicitaram a licença da verdadeira mãe que existe em Vila Real, e casaram-se. Passados anos, fui, muito instado, ver a minha filha a uma quinta que habitava nos arrabaldes do Porto. Recebi-a na minha sege, e não lhe entrei em casa. Agora, creio que falarei com o marido, atendendo a que ele quis que a sua filha se chamasse Camila. É uma trigueirinha engraçada. Diz o Jorge que sendo eu avô dela, vem ele Jorge a ser o pai. Isto parece racional.»
[MATOS, 2012: 164-165. Excerto. Respeitada grafia da edição consultada.]

Creio não ser necessário comentar. Apenas recordar que Jorge é o filho, doente metal, de Camilo e Ana Plácido.
Até ao próximo!

NB – As fotografias são arranjo de outras colhidas em Google / Imagens / Convento de S. Bento da Avé Maria e Bernardina Amélia Castelo Branco.

Referências e outra bibliografia consultada:
BARBOSA, L. Xavier, [1919]: Cem Cartas de Camillo. Lisboa: Portugal-Brasil Limitada, Sociedade Editora.
BRANCO, Camillo Castello, 1851: Inspiraçoens. Porto: Typographia de J. J. Gonçalves Basto.
CABRAL, Alexandre Cabral, 1984: Correspondência de Camilo Castelo Branco com os Irmãos Barbosa e Silva – I. (Escolha, prefácio e comentários de)- Lisboa: Horizonte.
------------, 1984: Correspondência de Camilo Castelo Branco com os Irmãos Barbosa e Silva e com Sebastião de Sousa– II. (Escolha, prefácio e comentários de)- Lisboa: Horizonte.
------------, 20032: Dicionário de Camilo Castelo Branco (ed. Revista e aumentada). Lisboa: Caminho.
CABRAL, António, 1918: Camillo Desconhecido. Lisboa: Livraria Ferreira, Lda.
FIGUEIRAS, Paulo de Passos, 2010: «Camilo e Ana Plácido – Alguns factos inéditos da sua vida». Cadernos Vianenses, Tomo 44. Viana do Castelo: Câmra Municipal de Viana do Castelo; pp. 229-255.
MATOS, A. Campos, 2012: Camilo Íntimo – Cartas inéditas de Camilo Castelo Branco ao visconde de Ouguela. (Pref. de […] e posf. de João Bigotte Chorão). Lisboa. Clube do Autor.
pIMENTEL, alberto, 1890: O Romance do Romancista – Vida do Camillo Castello Branco. Lisboa: Francisco Pastor.
------------, 1899: Os Amores de Camillo (Dramas intimos colhidos na biografia de um grande escriptor). Lisboa: Libanio & Cunha
------------, 1921: O Torturado de Seide (Camilo Castelo Branco). Lisboa: Livraria de Manoel dos Santos.
RIBEIRO, Aquilino, 1961: O Romance de Camilo (3 vols.). Bertrand: Amadora.
TELES, Manuel Tavares, 2008: Camilo e Ana Plácido - Episódios ignorados da célebre paixão romântica. Porto: Caixotim.

CORRIGENDA (02-06-2017) - A "criança" Bernardina Amélia, reproduzida na fotografia acima, teria 5 e não ao anos. Peço desculpa.

sexta-feira, 21 de abril de 2017

CAMILO &M VIANA
[1857: “velha” como “nova” (02)]


          Recordo: na tarde de 7 de abril de 1857, Camilo Castelo Branco chegava à cidade de Viana do Castelo. O jornal A Aurora do Lima dava a notícia de «tão honrosa visita», no dia seguinte. Desta “velha” como “nova” fiz, no “post” anterior, transcrição, seguida de breve comentário. Prometi, no final, complementar e esclarecer aspetos nela referidos que, já na altura, seriam, mais ou menos propositadamente, esquecidos ou deixados na sombra. [(Re)ver em RODRIGUES, 2017]

        Ora, cá estou, para um primeiro suplemento, na esperança de tornar aquela notícia, “velha” de 160 anos, um pouco mais “nova”, isto é, atualizada, sobre as relações de Camilo com Viana.
     Deixando para depois considerações sobre aspetos puramente formais, fixemo-nos nos pontos mais relevantes da peça. Encontram-se eles no primeiro parágrafo, a que, hoje, se poderia chamar, em termos jornalísticos, o lide:

         Chegou hontem de tarde a esta cidade, vindo do Porto, o nosso particular amigo e collega, o Snr. Camillo Castello Branco, que conta, por motivos de saude residir temporariamente nas amenas e risonhas margens do Lima. Este cavalheiro distinguirá com a sua collaboração as columnas d’este jornal.

Quem conhece as cartas que Camilo escreveu ao seu grande e generoso amigo José Barbosa e Silva (JBS) - cofundador, coproprietário e um dos principais impulsionadores e redatores do jornal A Aurora do Lima – saberá ou recordará que:

(i) não era a primeira vez (nem a última), que o Escritor visitava esta cidade;
(ii) a sua vinda não se devia, apenas ou principalmente, a «motivos de saúde»;
(iii) sua intenção não era tão só «residir temporariamente nas amenas e risonhas margens do Lima»;
iv) não era, a partir daquela data, que daria a sua colaboração a este jornal.

Mas saberá ainda mais, o meu leitor, que:

v) a razão principal por que Camilo trocava, segundo a correspondência, o Porto por Viana, era, fundamentalmente, de natureza profissional e económica (monetária), como a seu tempo se verá/lerá.

Quanto a i), está documentado que Camilo já tinha efetuado, antes de 1857, uma primeira visita a Viana do Castelo. Foi na Páscoa de 1853. Abordei já esta visita em dois “posts” – RODRIGUES, 2013 e, sobretudo, RODRIGUES, 2013a – para que remeto.
Sabe-se, por outro lado, que depois de 1857, o Escritor voltou a Viana mais duas vezes, pelo menos. Também destas há testemunhos documentados. Dedicar-lhes-ei, oportunamente, os “posts” necessários.
Mas entre 1853 e 1857, uma outra visita projetou Camilo realizar a Viana. Visita cuja duração não seria de breves dias, mas de um mês. Teve, também por isso, de ser devidamente preparada com o seu grande e confidente amigo JBS. Sublinhei também, porque, desta vez, ao contrário da anterior (a de 1853), Camilo viria acompanhado. Por quem? Já verá/lerá. Começou, por isso, a prepará-la através da carta que, a seguir, transcrevo.
Nota - As relações de Camilo com Viana do Castelo têm sofrido alguns atentados. Além da destruição recente da casa, situada na encosta sul do Monte de Santa Luzia, junto da Capela de S. João d’Arga, onde o Escritor residiu, entre 7 de abril e 29 de maio de 1857, também as cartas que JBS dirigiu ao seu particular e dileto amigo foram - informa Alexandre Cabral - «vandalescamente» destruídas. Pois, «em Ceide não se encontra uma única». [CABRAL, 1984 (I): 41]

Vamos à carta:

MEU BARBOSA

Será possivel o seguinte?
D. Izabel Candida (a freira) com quem me congracei por uma celebre eventualidade, quer passar um mez nas visinhanças de Vianna, e d’ahi fazer ao Minho algumas excursoens. Segundo os estatutos monasticos, não pode estancear se não de passagem em estalagens, e não pode residir. Quer ella, portanto, uma casa de quinta mobilada simples[mente] do q[ue] é propriamente mobilia: paga tudo, acceita todas as condições monetarias. (Estas bravatas pecuniarias estão em harmonia com o genio e as posses da dita). Uma vez me disseste tu q[ue] era possível arranjar-se para mim uma casa como a deseja a D. Izabel. Eu vou para a hospedaria[*]; mas bem quizera que ella por ahi estivesse, por q[ue] verás q[ue] passaremos algumas horas de nonchalante convivencia. Tomaremos banhos, cysnes derrabados, e depois do almoço confortavel como convem a dous Antonuys de estomago, recordaremos, poetas poitrinaires, as decepçoens da infancia, a pouca vergonha das illusoens mentidas como a onda (vide Shakespeare). Pelo q[ue]:
Muito importa q[ue] lances as tuas diligentes medidas, e me digas se se pode contar com a caza nos dias 1 ou 2 de Setembro. Nota, meu caro José, que eu não vou se ella não vai, e ella não vai se tu lhe não preparas la (com a simplicid[ade] que ja te disse) uma aposentadoria m[ais] ou menos romantica. A fam[ilia] d’ella são trez creados, onde domina o sexo feminino com duas soffriveis faxadas. Tive um abraço teu transmitido p[or] Ant[onio] Bernardo. Nas azas da briza da tarde mandei-te um beijo em retribuição. Responde, q[uando] possas, ao teu
Recados a teus manos

17 de Agosto
   de 1855.
                                                      Camillo.
[Carta reproduzida em BARBOSA, [1919]: 74-75. Respeitei a grafia da edição consultada, exceto as formas abreviadas, tal como, certamente, se encontra no autógrafo camiliano. Também em CABRAL, 1984 (I): 87].
* O original desta carta foi visto, lido e transcrito, segundo a ortografia de 1984, por Alexandre Cabral. Este conceituado camilianista observa que «L. Xavier Barbosa permitiu-se alterar o texto do escritor, pondo a palavra hospedaria onde estava Cara de Pau (o nome da hospedaria).» Aqui fica, por isso, o reparo.

         Comentarei esta carta no próximo “post”. Até lá, vá o meu paciente leitor (re)lendo Camilo.




Referências:
BARBOSA, L. Xavier, [1919]: Cem Cartas de Camillo. Lisboa: Portugal-Brasil Limitada, Sociedade Editora. [À entrada do livro, ao centro de página ímpar (não numerada), encontra-se a seguinte informação: «A propriedade d'este livro pertence ao CULTO CAMILIANO, por generosa dadiva do autor.»]
CABRAL, Alexandre, 1984: Correspondência de Camilo Castelo Branco com os Irmãos Barbosa e Silva - I. (Escolha, prefácio e comentários de). Lisboa: Horizonte.
RODRIGUES, David F., 2017: «CAMILO &M VIANA / [1857: “VELHA” COMO “NOVA” (01)»: http://vianacamilo.blogspot.pt/2017/04/camilo-viana-1857velha-como-nova-01.html
-----------------, 2013a: «Camilo & Viana 003 / Camilo e os irmãos Barbosa e Silva [01]»: http://e-ternoretorno.blogspot.pt/2013/11/camilo-viana-003.html
-----------------, 2013: «Camilo & Viana 002 / Camilo e os irmãos Barbosa e Silva [01]: http://e-ternoretorno.blogspot.pt/2013/11/camilo-viana-002.html

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

022. Camilo & e os irmãos Barbosa e Silva [19]
          em Duas Horas de Leitura (1857) [IX]


[Continuação do post anterior]


Com se leu no post anterior, os quatro peregrinos que partiram do Porto com Braga (Bom Jesus do Monte) por destino - Camilo, Evaristo Basto e os irmãos Luís e José Barbosa e Silva - encontram-se já em Braga e romancista, a dada altura, foi «comprar uma folha de papel para escrever para a terra.» Daí que,

ANTES de entrarmos no correio, paramos, em frente do portão, enlevados n'um cartaz, lavrado em lettra cursiva de bom tamanho e aprimorada fórma. Lêmol-o, e L[uís] B[arbosa e Silva], a meu pedido, copiou-o textualmente.
O leitor erudito, d'oculos e pitada nos dedos engatilhados, queria antes que lhe déssemos a copia de alguma inscripção romana. Que me importa a mim o que os romanos escreveram?! Digam-se e escrevam-se cousas que prestem alguma utilidade á gente. O que passou passou, e nós vamos passando.
Do saber ler ha um só partido que tirar: aligeirar o tempo agradavelmente. O que por ahi se chama instrucção, erudição, sabedoria, sciencia, é a mais ôcca das vaidades humanas.
O homem que morre, dizendo: “li muito” é um suicida, um nescio que se desherda dos prazeres da vida, um celibatario de todas as patuscadas humanas, que não serviu, sequer, para entreter senhoras n'uma sala.
Eu estou curado da febre intermitente do estudo, desde que a minha boa directora domestica, economica, gastronomica, e até espiritual, me disse que eu escrevia muita onzenice que não valia nada “Que importa saber o que disseram esses homens do tempo do Bofelhas?!” pergunta ella, e tem razão. “Se a gente podesse saber — accrescenta — o que ha-de vir, então valia a pena estudar; mas saber o que passou é não ter em que empregar o tempo!”
Bem haja ella que me revirou o sestro das onzenices por melhor caminho. [Branco, 18582: 143-144]

A «boa directora domestica, economica, gastronomica, e até espiritual» era, muito provavelmente, Isabel Cândida Vaz Mourão. Também, com toda a certeza, a destinatária da carta que o Escritor tinha ido depositar nos correios. «Freira do Convento de S. Bento da Ave-Maria, do Porto, […] manteve com Camilo uma prolongada relação amorosa.» [Cabral, 1989: 427] Esta relação terá começado em 1850 e ter-se-á mantido ao longo de vários anos. «Por volta de 1854, quando o romancista mandou vir a filha de Vila Real para a sua companhia, Isabel Cândida conheceu a menina, Bernardina Amélia [filha de Patrícia Emília de Barros, uma das primeiras amantes de Camilo [cf. Cabral, 1989: 57-58], passando pouco depois a cuidar da sua educação. Educação de que continuou a cuidar e a suportar até 1865, ano em que, sob o patrocínio desta «senhora rica e culta», Bernardina Amélia casou com o capitalista António Francisco de Carvalho. Isto, mesmo depois de, sete anos antes, Camilo ter-se desligado de Isabel Cândida, para se entregar de corpo e alma a Ana Plácido. [Id.: 428]
Recorde-se que a excursão dos quatro amigos se realizou na primavera/verão de 1856 e, nessa altura, a ainda amante e protetora de Bernardina Amélia era a freira do Convento de S. Bento da Ave-Maria. Hei-de voltar a falar, em posts futuros, destas relações, a propósito de cartas de Camilo para os irmãos Barbosa e Silva, e sobretudo da morada do escritor, durante cerca de dois meses, em Viana, no ano de 1857.
Voltemos, então, ao relato/crónica do passeio «Do Porto a Braga».

[Camilo - Desenho de Júlio Pomar para 1.ª edição d’O Romance de Camilo, de Aquilino Ribeiro, editado em 1956. A imagem encontra-se no Boletim Cultural da Fundação Calouste Gulbenkian, n.º 4 (VII Série), outubro de 1991, dedicado a Camilo: o Homem e o Artista.]

O resto do cap. [VIII], Camilo dedica-o a pôr em confronto a «civilização», isto é, os comportamentos socioculturais entre os habitantes de Braga e Porto. Nem uns nem outros ficam lá muito bem no retrato que deles faz o Escritor. O leitor (re)encontrará um capítulo cheio de graça e humor, resultado do recurso à ironia e por vezes ao sarcasmo. A propósito, permito-me remeter para o post «“A excellencia de carnaval” (1856)», que publiquei no meu blogue Cortesia Linguística, com trechos retirados precisamente deste cap. de «Do Porto a Braga».

Mas qual foi, então, o cartaz que tanto enlevo causou em Camilo e que, segundo ele, «revê a actualidade, e significa alguma cousa nos tempos que correm»? Ei-lo:

“Peira, Dentista e Cirurgião.
“Põe toda a sorte de dentes artificiaes. Limpa
“os dentes. Extrae-os com a maior Destreza, e
“raizes. Firma os que estão abalados cortando-os
“arralando-os e pondo-os em boa direcção. Tira-
“Ihes a dôr, chumba-os. Tira o máo cheiro da
“bocca. Tira verrugas, cravos e calos. Tira a bicha
“solitária.
“Residente á onze annos na cidade de Braga e
“ao presente na Hospedaria do snr. Fanqueira no
“Campo de Sanct’Anna n.º....” [Id.: 144]

E o Escritor comenta, de seguida:

Eis-aqui outro Herodes da bicha solitaria! Convidei os meus amigos a procural-o em casa do senhor Fanqueira. Eu queria desmentir com este doutor em dentes o outro doutor lá de cima, e provar que M. Peira, vindo naturalmente de Paris para Braga, disputa a Gondifélos a efficacia da mézinha. Os meus amigos não annuiram. Algum dente que ainda me resta, como sentinella perdida em arraial onde se deu grande batalha, queria eu entregal-o a Mr. Peira, para que elle m'o firmasse, cortando-o; processo novo de certo, mas facil para quem extrahe um dente com a maior destreza c raizes; o que eu não sei é se elle tambem extrahe raizes com a maior destreza, e dentes. Recommendo, porém, Mr. Peira, não só a quem tiver verrugas, cravos, e callos, mas tambem á authoridade administrativa e aos vigias da camara, se lá os ha. Um cartaz destes deve considerar-se entulho, e o cirurgião que tira cravos é melhor para os trazer que para os tirar. [Id.: 145-146]

[Continuará]

NB1 – Foi respeitada, nas citações, a grafia da edição consultada.
NB2 – O retrato a meio corpo do Escritor foi colhido em Google+ / Imagens / Camilo Castelo Branco.

LEITURAS
BRANCO, C. C., 18582: «Do Porto a Braga», em Duas Horas de Leitura. Porto: Cruz Coutinho.
CABRAL, A., 1989: Dicionário de Camilo Castelo Branco. Lisboa: Caminho.
RODRIGUES, D. F., 2013: «”A excellencia de carnaval” (1856)»,em AQUI
-----------, 2014: «Camilo & e os irmãos Barbosa e Silva, em Duas Horas de Leitura (18582) [I], AQUI
-----------, 2014a: «Camilo & e os irmãos Barbosa e Silva, em Duas Horas de Leitura (18582) [II], AQUI.
-----------, 2014b: «Camilo & e os irmãos Barbosa e Silva, em Duas Horas de Leitura (18582) [III], AQUI.
-----------, 2014d: «Camilo & e os irmãos Barbosa e Silva, em Duas Horas de Leitura (18582) [V], AQUI.
-----------, 2014e: «Camilo & e os irmãos Barbosa e Silva, em Duas Horas de Leitura (18582) [VI], AQUI.
-----------, 2014f: «Camilo & e os irmãos Barbosa e Silva, em Duas Horas de Leitura (18582) [VII], AQUI.
-----------, 2014g: «Camilo & e os irmãos Barbosa e Silva, em Duas Horas de Leitura (18582) [VIII], AQUI.

domingo, 22 de junho de 2014


010. Camilo & e os irmãos Barbosa e Silva [10]
          em O Vinho do Porto (1884) [II]


Além do que disse no post anterior, procuro fornecer, neste, mais alguns dados sobre quem terá sido a Gertrudes, personagem que figura em O Vinho do Porto – Processo de uma bestialidade ingleza (1884), de Camilo, a quem o Escritor crisma de Gertrúria. [Respeitarei, nas citações e transcrições, a grafia das edições consultadas.]
Gertrudes, argumenta o autor para a mudança do nome, «não sôa lyricamente a orelhas clássicas nem românticas», custando «muito aos melindres estheticos do meu espirito caprichoso em onomastica». [Branco, 1884: 38.] Além disso, Camilo chama-lhe também «madame Brillat-Savarin» [id.: ibid.], por, recordando então afamado cozinheiro francês, ela ser também «um tesouro de joias culinárias» [id.: 35]. Ela, por isso, «não tinha mãos a medir» [id.: 39], sendo frequentemente requisitada e requerida por bispos e abastadas famílias portuenses e arredores, para lhes preparar e dirigir lautas e refinadas refeições, na receção de ministros e outras figuras importantes. Os seus ricos e substanciais manjares eram de tal ordem que foi com eles que, em vez das boticadas médicas, ela, da noite para o dia, curou e livrou o jovem Camilo das portas da morte. O facto, porém, não foi suficiente para o Escritor lhe dedicar um «artigo necrológico». E porquê? Simplesmente – confessa – «por que ella me salvou como cozinheira» [id.: 76]. Cozinheira que, apesar dos seus dotes e qualidades culinárias, disso não passou, isto é, não subiu nem decaiu socialmente.

Apreciem, agora, a breve «genealogia» que da sua devotada amiga faz Camilo:

[Id.: 81-82. (Formato adaptado)]

 Este fragmento é apenas uma pequena amostra da descrição da cozinheira Gertrudes/Gertrúria. Mas, para saborear a graça e humor com que Camilo descreve os atos e pratos que ela confecionava, não há como ler O Vinho do Porto. Depois não resmunguem que não os avisei. Adiante, pois.

Alexandre Cabral é de opinião que esta Gertrudes/Gertrúria «bem pode ser uma transfiguração» de Eufrásia Carlota de Sá, «dedicada “amiga” do escritor» [Cabral, 1989: 664]. Luís Xavier Barbosa diz que Eufrásia foi «hospedeira de Camillo no Porto» [Barbosa, 1919: «Proemio», s/p]. Aquilino, por sua vez, regista que Camilo, quando chegou ao Porto, em 1848, ao procurar hospedagem, foi recebido por uma «criada tripeira da costa, desnalgada mas de ar bondosão, Gertrudes Engrácia, que ele crismou no Vinho do Porto, de acordo com as conveniências prosódicas ofendidas, por nome tão curriqueiro, em Gertrúria». [Ribeiro, 1961 (II): 10.]

Admitindo-se que a Gertrudes/Gertrúria seja uma «transfiguração» de Eufrásia, Camilo faz-lhe referência em cinco cartas que dirigiu ao seu grande amigo vianês José Barbosa e Silva (30/X/1828 - 15/IX/1865). Barbosa e Silva, segundo se viu no post anterior, foi presidente de uma «instituição carpideira», de que faziam parte Camilo e outros escritores, e que tinha por objetivo escrever artigos necrológicos sobre ilustres figuras ou como tal consideradas. Nessas cartas, porém, o Escritor nunca nomeia Eufrásia por Gertrudes ou Gertrúria.

As notas que se seguem, sobre quem foi Eufrásia, são colhidas, por um lado, na referida correspondência e, por outro, nas informações que sobre esta(s) personagem(ns) nos dá Alexandre Cabral [cf. 1984 (I) e 1989].

A primeira carta em que o Escritor se refere (referirá) a Eufrásia é datada de 3/V/1853. Nela escreve, a dado passo:

Eu vivo triste e . O espirito enojou-se com o m[ui]to pasto que lhe dei da m[es]ma impressão, e já não digere os indigestos carinhos da E. F. Estou, p[o]r tanto, viuvo, e preciso de segundas ou vigesimas (que sei eu!...) nupcias, aliás bestialiso-me. [Barbosa, 1919: 106. Também em Cabral, 1884 (I): 62, que, todavia, omite a palavra «carinhos».]

Eufrásia aparece aqui nomeada apenas pelas iniciais, prova de que o destinatário saberia de quem se tratava. Xavier Barbosa leu «E. F.», enquanto Alexandre Cabral lê «E. T.». E, a propósito, observa este reconhecido camilianista:
«A abreviatura E. F. deve indicar – presumimos – o nome de Eufrásia Carlota de Sá que, dizem os biógrafos, fora amante de Camilo.» Mas, continuando, aceita «a sugestão» de Xavier Barbosa [F. em vez de T.], «sobretudo depois das considerações que [este autor] traça nas Minúcias Camilianas.» [Cabral, 1984 (I): 62] Nesta obra manuscrita e depositada nos Reservados da Biblioteca Nacional [cf. Cabral, 1984 (I): 42], o organizador de Cem Cartas de Camilo «associa as iniciais [E. F.] à expressão a seu respeito utilizada por Camilo – “D. Eufrázia (La Forêt em 3.ª mão)”.» Cabral remete, a propósito, para a carta n.º 54, datável de setembro de 1856, onde Camilo associa Eufrásia a «La Florêt em 3.ª mão», como a seguir se verá. [Cabral, 1984 (I): 62. «La Forêt» e «La Florêt» aparecem assim escritas nas referidas cartas. Lapso de Camilo ou de Cabral? Não consegui apurar, ainda, quem teria sido essa  La F[l]orêt.]

Eufrásia Carlota de Sá «tinha casa de hóspedes na Rua do Bonjardim, onde o escritor viveu durante largos períodos. Camilo terá travado conhecimento com Eufrásia por volta de 1850 (no regresso de Lisboa, provavelmente) e com ela terá mantido relações íntimas. O manifestado fastio [expresso na carta], contudo, não foi razão de peso para se interromper a amizade recíproca, que se manteve inalterável.» [Cabral, 1984(I): 63].
No célebre Dicionário de Camilo Castelo Branco, Cabral fornece-nos mais alguns dados sobre a vida de Eufrásia e as suas relações de intimidade:
«A dona da casa dedicou-se tão entranhadamente ao novo inquilino [Camilo] que acabou por fazer parte da sua vida. Conhecia-lhe os segredos, os amigos e os problemas, sem excluir os sentimentais. Tratava-lhe das roupas e da saúde. Revelou maternal compreensão pelas “leviandades” do seu benjamim, sobretudo os amores adulterinos com Ana Plácido, em que representou um importante papel de alcoviteira. […] A “hospedeira integral” [como lhe chamou Aquilino] fazia de “correio” entre os dois amantes. / Apesar de proprietária de uma casa de hóspedes, de ter uma filha (Carlota se chamava), Eufrásia manifestou disponibilidade para acompanhar o escritor a Viana do Castelo (1857).» [Cabral, 1989: 577]

[Desenho de Júlio Pomar]

Em carta a José Barbosa e Silva, datável, segundo Cabral, de setembro de 1856 (a tal carta n.º 54) e a respeito das diligências efetuadas e/ou a efetuar pelo amigo vianês, sobre casa, recheio e sua localização em Viana [tema a postar, oportunamente], para onde Camilo tencionava vir morar, a fim de se dedicar, por inteiro, à redação de A Aurora do Lima, escreve o romancista, a dado passo:

Enquanto a móveis, se em Viana se vendem os indispensáveis para uma mobília económica, é mau governo levá-los de cá [Porto]. Se eu quisesse uma decoração rica, então sim; mas eu suspeito muito que, retirando tu de Viana, me retire eu também com a D. Eufrázia (La Florêt em 3.ª mão) assentada na entrecarga dos livros. [Cabral, 1984 (I): 114. Carta inédita, até 1984, não se encontrando reproduzida em Barbosa, 1919.]

Camilo parece estar decidido a vir para Viana, acompanhado da sua fidelíssima Eufrásia. Só que, em carta datável de 30/I/1857, o Escritor, depois de referir que se encontra «bem doente», tendo sofrido, em apenas quatro dias, «uma bronchite, uma indigestão, uma ameaça de gonorrhea inveterada, e uma febre que vaticina sezão», informa o amigo de que:

Está decidida a m[inh]a hida para Vianna. A Eufrazia não vai. Resolvo ir p[ar]a uma hospedaria. É onde se está mais commodo, e m[ai]s livre de cuidados. No estio talvez retire para o campo. [Barbosa, 1919: 32-33. Também em Cabral, 1984 (I): 143.]

O desejo de Camilo era, de facto, vir para Viana, mas sem dispensar Eufrásia, segundo reitera em carta datável de 8/III/1857. Mas não queria ter casa dentro do burgo. Sim, no campo, «nas margens do Lima», «onde heide fundar a minha deliciosa residencia, o meu sonho bucolico.» Por isso, conclui:

Quando fôr para o campo, mando ir a Eufrazia, e então vão d’aqui [Porto] os utensilios de caza.» [Barbosa, 1919: 40. Também em Cabral, 1984 (I): 152.]

Aproxima-se o dia em que Camilo chegará a Viana. Tal aconteceu, como se sabe, em 7/IV/1857. Em carta datada do dia 1, o Escritor diz a José Barbosa e Silva: «Estou desesperado de me ver d’aqui fora.» Só que Camilo, como se sabe, tinha uma filha – Bernardina Amélia [Castelo Branco de Carvalho (1848-1931)] – fruto da sua ligação adulterina [era ainda casado com Joaquina Pereira de França (1826-1847) quando se deu a  estas relações] com Patrícia Emília do Carmo de Barros (1826-1885). Por isso, além da casa, dos móveis, dos livros, do cão, do cavalo, a quem deixaria ele entregue a pequena Bernardina, com apenas 9 anos de idade? Nesta última carta, Camilo informa o amigo a tal respeito:

A m[inh]a filha por em q[uan]to fica em casa de D. Eufrazia. Depois, veremos. [Diz a D. Eufrázia que já falou a dois escudeiros, está esperando informações das casas onde estiveram para depois te propor as condições do ajuste. Ambos eles são galegos – não sei se simpatizas com a nacionalidade dos tais… Caso não queiras, avisa.] [Barbosa, 1919: 44, amputada da parte que Cabral transcreve entre parênteses retos, 1884 (I): 156-7.]

Acerca da infância da filha de Camilo, informa Cabral: «Dadas as circunstâncias e os costumes da época, a criança foi exposta na roda de Vila Real. Depois da separação dos pais, a menina viveu com a mãe e mais tarde com Camilo, na verdade com Isabel Cândida Vaz Mourão, freira do Convento de S. Bento da Ave-Maria, do Porto, que, como se sabe, mantivera relações amorosas com o romancista.» [Cabral, 1989: 27-28]

[Bernardina Amélia à janela do convento]

Breves notas biográficas da hospedeira Eufrásia Carlota de Sá e da freira Isabel Cândida Vaz Mourão, aos cuidados de quem Camilo entregou a educação da filha Bernardina Amélia, encontram-se também em Figueiras, 2010: 245. O autor biografa, ainda, outras mulheres que, entre 1848 e 1858, «não faltaram a Camilo».

A cozinheira Gertrudes/Gertrúria de O Vinho do Porto – Processo de uma bestialidade ingleza (1884) pode ser uma «transfiguração» da hospedeira Eufrásia Carlota de Sá. Mas, na  descrição de sua vida e ações, podem e devem entrar propriedades e características, mais ou menos ficcionadas, de outras mulheres que o Escritor conheceu e com quem terá convivido. Tal Gertrudes Engrácia, assim propriamente chamada ou com outro nome, pode ter sido uma «criada» da hospedeira, como observa Aquilino.
Uma coisa é certa, porém: na vida do Escritor houve, de facto, uma mulher chamada Gertrudes, na mesma década de 1850. Chamou-se Gertrudes da Costa Lobo e foi uma jovem que se apaixonou por Camilo (bem como por outros escritores), a quem dirigiu cartas e poemas, deixando ainda um diário amoroso. Esses “cadernos” foram cuidadosamente escondidos pelo Escritor e encontrados depois da morte de Ana Plácido, «num “falso” que existia junto do leito de Camilo no seu quarto de cama, entre poeirentos objectos, mutilados e inúteis» [Sebastião de Carvalho, em Teles, 2007: II]. «Os cadernos desse diário de paixão estiveram na mão de Camilo, que os ordenou com alíneas a), b), c), etc., e onde ele deixou, firmado pelo seu próprio punho, o traço que nos revela o mistério amoroso que o envolveu de 1850 a 1857.» [Id.: ibid.] Segundo Manuel Simões (artigo «Um importante espólio camiliano»), citado por Manuel Tavares Teles, a «correspondência e o diário» desta jovem Gertrudes constituem «a fonte» do romance Memórias de Guilherme do Amaral (1863). [Cf. Teles, 2007: III]

Mas esta Gertrudes é outra história, das muitas paixões por que passou Camilo. A ela voltarei, em post(s) fururo(s), se em Os Manuscritos Gertrudes – Uma portuense apaixonada por Camilo, Manuel Tavares Teles me oferecer dados que se enquadrem nas relações de Camilo com Viana ou de Viana com Camilo. Já agora, saiba-se ou recorde-se que, no Anátema (1850, em folhetim; 1851, em volume), primeiro romance de Camilo, também há uma Gertrudes, «criada» de um fidalgo femeeiro, conde Cristóvão da Veiga, que dela também quis fazer serva de/para todos os serviços.



Leituras:
BARBOSA, L. Xavier (coord. e org.), 1919: Cem Cartas de Camillo. Lisboa / Rio de Janeiro: Portugal-Brasil Limitada.
BRANCO, Camilo Castelo, 1884: O Vinho do Porto – Processo de uma bestialidade ingleza. Porto: Livraria Civilização. (Uma edição recente foi publicada em 2005, com pref. De José Viale Moutinho, pela Colares Editora.)
CABRAL, Alexandre, 1984 (I): Correspondência de Camilo Castelo Branco com os Irmãos Barbosa e Silva (vol. I). Lisboa: Horizonte.
------------, 1989: Dicionário de Camilo Castelo Branco. Lisboa: Caminho.
FIGUEIRAS, Paulo de Passos, 2010: «Camilo e Ana Plácido – Alguns factos inéditos da sua vida», Cadernos Vianenses (Tomo 44). Viana do Castelo: Câmara Municipal de Viana do Castelo; pp. 229-255. Também disponível AQUI.
RIBEIRO, Aquilino, 1961: O Romance de Camilo (2 vols.). Lisboa: Bertrand.
TELES, Manuel Tavares, 2007: Os Manuscritos Gertrudes – Uma portuense apaixonada por Camilo. Lisboa: Guerra & Paz.