sábado, 8 de novembro de 2014

014. Camilo & e os irmãos Barbosa e Silva [11]

          em Duas Horas de Leitura (1857) [I]



Um dos textos onde Camilo mais longamente se refere aos irmãos Luís (1825-1892) e José Barbosa e Silva (1828-1865), naturais de Viana do Castelo, é em «Do Porto a Braga», publicado, juntamente com outras pequenas narrativas ou crónicas, em Duas Horas de Leitura. A primeira edição desta coletânea saiu em 1857 e nela o Escritor incluíra apenas, além da narrativa referente à viagem, também «Dous Santos não Beatificados em Roma». Na segunda edição, saída no ano seguinte, acrescenta-lhe mais duas: «Impressão Indelével (1842)» e «Sete de Junho de 1849».
As quatro narrativas foram publicadas, primeiramente, em folhetins de jornais, nomeadamente em A Aurora do Lima, jornal vianês cujo primeiro número veio a público em 15 de dezembro de 1855. Os «Dous Santos» apareceu apenas no jornal portuense O Clamor Público (em finais de outubro de 1856), mas cujo título completo era então «Dous Santos dos Que Se não Fazem em Roma». Por sua vez, «Do Porto a Braga», mas com o irónico título inicial de «Peregrinação sobre a Face do Globo», foi sendo publicado, durante o ano de 1856, no jornal portuense A Verdade, primeiro, e republicado, depois, em O Clamor Público (setembro) e n’A Aurora (outubro). Neste jornal foram publicadas, pela primeira vez, «Impressão Indelével (1842)», em finais de abril de 1857 e «Sete de Junho de 1849», em meados de junho do mesmo ano.
À exceção de «Dois Santos», Camilo refere-se aos dois irmãos Barbosa e Silva nas outras três narrativas, mas só o José aparece sempre nas três; o Luís é referido apenas em «Peregrinação sobre a Face do Globo» / «Do Porto a Braga». Os dois irmãos são referidos apenas pelas iniciais dos respetivos nome e primeiro apelido. Além destes, fazia parte também da comitiva E. B., ou seja, Evaristo Basto (1821-1865), natural do Porto, onde desenvolveu atividade política e jornalística, apesar de formado em direito. A ele também o Escritor se refere, longa e amigavelmente.

Creio não ser necessário resumir esta breve narrativa. Por duas razões. Primeira: não quero correr o risco de afastar o leitor de apreciar com prazer e humor Duas Horas de Leitura. Segunda: as passagens a transcrever e sua co(n)textualização, ainda que breve, acabará por fornecer dados que contribuirão para que o leitor faça uma ideia, ainda que incompleta, do que foi o passeio que os quatro viajeiros fizeram do Porto a Braga, cujo destina final era o Bom Jesus. Mas com uma paragem em Famalicão, para pernoita e saberem se tinham ou não a bicha solitária, através da consulta de um «doutor», especialista em ténias. 
Camilo só começa a descrever o «vulto moral» dos seus companheiros e as peripécias em que, isoladamente ou em conjunto, intervêm, a partir do cap. II. Mas logo no cap. I, fornece-nos alguns dados sobre cada um deles, bem como os preparativos e o meio de transporte utilizado. Ficar-me-ei, hoje, pelas transcrições do primeiro capítulo a esse respeito.


        […   …   …   …   …   …   …   …   …   …   …   …   …   …   …   …   …   …]

Eram 5 horas da tarde de 26 de Junho de 1856, quando nos reunimos quatro homens, que, nascidos na Gran-Bretanha, teriamos morrido onde morreu Franklin: tal é a aspiração que sentimos para o desconhecido, e a ancia que nos rala de não sermos contemporaneos do infante D. Henrique. […]
Reunidos, pois, no largo da Trindade, L[uís] B[arbosa]. — J[osé] B[arbosa] — E[varisto] B[asto] — e este vosso attento venerador e creado, estavamos alli esperando que o auriga ajaezasse as horsas, e as atrelasse á ambulancia, innominada ainda na grande variedade de locomotivas, desde o carroção-Oliveira(*) até ao gig. Na physionomia de todos quatro via-se a pallidez do receio, aquelle mêdo invencivel aos mais corajosos, se commettem uma empreza de muitos perigos, posto que de muita gloria, quer vençam, quer pereçam n'ella. […]
Estavamos, pois, em muda conversação com os nossos espiritos, quando o carrilhão da Trindade badalejou a aria do “Rigoletto”. A indignação espertou-nos do extasis doloroso. Esporeou-nos o animo abatido aquelle estranho insulto ás artes. Diz Werner que depois da palavra divina, o mais delicioso que póde ouvir-se é a musica. Seria; mas o diabo empoleirou-se, faz hoje cinco annos, nos corucheus da Trindade, e a musica tornou-se o seu palavriado satanico.
Desejamo-nos então longe do Porto. Calaram-se receios, e saudades. Cederam á zanga os sentimentos grandes. Partimos.
Principiaram os trabalhos. Nós eramos quatro, o carro tinha quatro logares, porém, faltava um para o chapeu de E. B. […] E. B., receiando eclypsarse nas cavidades insondaveis do seu chapeu, sendo internado n'elle por um dos solavancos do carro, appellou para a generosidade de J. B., e alcançou um bonet portatil, que o pôz a salvo do jogar de cabeça contra a abobada da locomotiva […] Deslocado o chapeu, era necessario acondicional-o no porta-malas, ou recebêl-o entre os braços como se faz a uma gorda criancinha de seis annos vestida de marthas. Além não podia ser, porque a nossa bagagem era volumosa como convinha a homens que iam com esperanças de passar lá fóra, longo tempo, endireitando as fracturas das pernas antes de repousar no seio das familias. Foi preciso, pois, tomal-o nos braços, ou apertal-o entre os joelhos, porque, se o pendurávamos, a avalanche deslocava-se, e, cahindo, semeava entre nós a discordia e a inquietação.
Que nos perdôem os espíritos fortes: o nosso trem era um milagre. Como um dos cavallos, se o eram, variava o chôto favorito, tremelhicando sobre o jarrete da perna direita em redopio convulsivo, isso é que eu nunca entendi, posto que me tenho esmerado em estudar a pathologia veterinaria para certos effeitos. […] 0 da direita era de uma subtileza nervosa tal que, ao estalar do chicote, respondia, abaixando a orelha. O da esquerda, sensivel ás suas reminiscencias de 1810, alongava as cordoveias do pescoço, a cada vergoada stridente; e algumas vezes, olhando para cima, franzia e enviezava o beiço superior; e, com esta careta, parecia rir de nós, ou provocar, zombando, como Hamlet, o seu triste fado.
O carro era cousa assim a modo de lagar, com bambinellas pensis de oleado, e almofadas de marroquim, estofadas de caroços duros, que contundiam acerbamente as carnes. Os recostos eram de ferro estreme inflexiveis ao choque das costellas. As portinholas, o pavimento, e o resto da madeira, bem aproveitada, construia um navio de 300 toneladas. […]
Ahi está o theatro da menor parte de nossas angustias. Pôtro movel de torturas corporaes, ainda assim, em confronto das que nos esperavam, póde dizer-se que uma sultana não se senta em mais flacidos coxins. O que fizemos, logo que entramos, e sentimos o risco da nossa situação, foi aconchegarmo-nos como os meninos no lago dos leões, de que reza a Biblia.
O Senhor Jesus do Monte, em cuja romagem vamos, nos tenha debaixo de sua mão, e ávante!

(*) Manuel José d'Oliveira é um nome respeitavel do Porto, proprietario de innumeraveis carroções, cuja alma elle é, e irá com elles, de methamorphose em methamorphose, até ao derradeiro bocejo da humanidade.
Branco, 18582: 87-92


NB – Na transcrição foi respeitada a grafia da edição consultada.

Leituras:
Branco, C. C., 18582: «Do Porto a Braga», em Duas Horas de Leitura. Porto: Cruz Coutinho.
Cabral, A., 1989: Dicionário de Camilo Castelo Branco. Lisboa: Caminho. (2.ª ed., 2003)

[Continuará]

domingo, 28 de setembro de 2014

013. Camilo & Frei Bartolomeu dos Mártires
          em O Senhor do Paço de Ninães (1867)

          Depois de ter apresentado as referências explícitas que, em Doze Casamentos Felizes (1861), Camilo faz a frei Bartolomeu dos Mártires (ver aqui e aqui), apresento neste post as que o Escritor faz ao arcebispo bracarense e ilustre figura religiosa, cultural e social de Viana do Castelo, então vila de Viana da Foz do Lima, no romance O Senhor do Paço de Ninães (1867).
             A primeira referência explícita ao célebre arcebispo, neste romance, encontra-se no seguinte fragmento:

[Branco, 19195: 26-27]

            Com a nota, Camilo cita a descrição que, do «tronco da árvore», fizera frei Luís de Sousa [1984:77]:


            O romancista já antes, no início do cap. III do romance, se referira a esta grandiosa árvore que, baseando-se de novo em Sousa, era «um façanhoso carvalho, cuja corpulencia anda celebrada nas chronicas e corografias». {O Escritor remete, em nota, para A Vida do Arcebispo, liv.º 1.º, cap. XIV, de frei Luiz de Souza e para a Corographia [Portugueza (…)] de [Antonio] Carvalho [da Costa], tomo 1.º, pag. 329.} Consultei a Corografia e, de facto, Carvalho da Costa escreve, a dado passo: «Na Aldea de Rebordello, que antigamente se chamou Reboredo, està a [casa] do Mestre de Campo Manoel Correa de Lacerda, senhor de Fralães, & dentro do pateo tem hum grande carvalho, que o cobre todo, a mais fermosa arvore para o intento de quantas tenho visto.» [Costa, 1706 (tomo I): 329. Em O Senhor da casa de Ninães, Camilo escreve «Roboredo» e «Farelães».]
A segunda referência a frei Bartolomeu dos Mártires, em O Senhor do Paço de Ninães, é, ainda hoje, polémica: abordaa   presunção de falta de patriotismo do arcebispo e senhor de Braga e primaz das Espanhas, aquando das lutas civis que então se travaram, após a morte do cardeal-rei D. Henrique. Os portugueses dividiram-se em dois grupos antagónicos. De um lado, estavam os adeptos de D. António, prior do Crato, «rei do povo» [Branco, 19195: 127]. Do outro, os que se lhe opunham (em geral a alta nobreza e alto clero), aderindo ao partido (pretensões e interesses) de Filipe II de Espanha. Interesses que, evidentemente, não seriam apenas deste monarca, mas também daqueles que o seguiam e apoiavam. Eis o fragmento:


            Não cabe, neste post, analisar a célebre polémica do patriotismo de frei Bartolomeu dos Mártires. A questão tem sido tratada, discutida e analisada, desde que surgiu, em 1866, entre, sobretudo, dois jornais de Braga: O Partido Liberal, por um lado, e O Bracarense, por outro. Camilo participou ativamente, tomando a posição do primeiro periódico. A polémica rebentou quando Joaquim Alves Mateus, «cónego da Sé de Braga», trata «frei Bartolomeu de “vil traidor da Pátria e falsificador do sufrágio do povo”», na crise nacional de 1580. [Cabral, 1989: 87-88] O povo, o baixo clero e a baixa nobreza, apoiavam e queriam, em geral, D. António, prior do Crato, como rei de Portugal. Ao ser desencadeada por clérigo, é muito provável que a referida polémica servisse também para manifestar as rivalidades e as intrigas dentro da poderosa igreja bracarense. [Sobre esta controversa e polémica questão, ver também Anselmo, 1992; Cabral, 1981: 7-61; Caldas, s/d e s/da; D’Albuquerque, 1895; Gomes, 1990:99-15; Junior, s/d; Machado, 1932:131-132; Sousa, 1984: cap. XIII e XIV, Livro IV; pp. 496-505.]

Hei de, em posts futuros, abordar, dentro das minhas possibilidades, esta questão, quando tratar das relações que Camilo travou com José Caldas, historiador vianês que também escreveu, por encomenda do então arcebispo de Braga, D. João Crisóstomo de Amorim Pessoa (franciscano), uma nova biografia de frei Bartolomeu dos Mártires, a qual viria a gerar nova polémica, em que também Camilo participou, em apoio do seu amigo vianês.


        Para ajudar a situar os fragmentos apresentados, convirá resumir O Senhor do Paço de Ninães, novela que tem o centro narrativo na região do Baixo Minho, em particular Famalicão, mas alargando-se também a outras partes do país, da Europa e mesmo do Oriente (Índia e Macau).

     «Rui Gomes de Azevedo, o senhor do Paço de Ninães, tem vinte anos em 1576 e ama uma prima da mesma idade, Leonor {Correia de Lacerda que, “além de nobilíssima, era rica, e sobre rica, formosa” [Branco, 19195: 12]}. O desgosto causado pela traição desta [aos 15 anos haviam-se comprometido a casar aí pelos 20], que vem a casar por conveniência com [outro primo] João Esteves Cogominho {“um compêndio de vícios” [id.: 22]}, leva-o a participar na jornada de Alcácer Quibir (apesar de discordar das conquistas de além-mar), com os primos António e João de Azevedo, aí sendo feito cativo. Resgatado, e recusando a submissão a Castela, Rui dá o seu apoio ao Prior do Carto, seguindo-o até à morte dele. Parte então para o Oriente, onde vive anonimamente como mercador, primeiro, e como ermitão, depois. De regresso ao Minho, em fins de 1622, como romeiro anónimo, inteira-se da infelicidade de Leonor, há anos entrevada e enlouquecida pelo remoroso de havê-lo traído; visita-a então e perdoa-lhe, revelando-lhe que nunca deixara de a amar. Morre em 1623, no Mosteiro de Landim.» {R[ocheta], 2002: 561. Adaptado]}

O enredo desta novela é muito mais complexo do que este breve resume mostra. As relações afetivas entre os amantes, fiéis e/ou infiéis, andam estreitamente ligadas aos conturbados tempos políticos em que decorrem. Não há como (re)ler a romance para se saber como Camilo romanescamente relata e entrelaça tudo isto, a nível amoroso, social, político e mesmo familiar. Aliás, vale a pena sempre (re)ler Camilo, na diversidade da sua obra, se quisermos conhecer, não só romanescamente, como a uma primeira leitura poderá parecer, a história portuguesa do século XIX, a nível antropológico, político e social.


Leituras 


AA.VV., 2014: D. Frei Bartolomeu dos Mártires (Colectânea de Textos). Viana do Castelo: Câmara Municipal de Viana do Castelo. (Org. de Rui A. Faria Viana).
ANSELMO, A., 1992: Entre Gigantes – Camilo, José Caldas e Frei Bartolomeu dos Mártires. Viana do Castelo: Centro de Estudos Regionais.
BRANCO, C. C., 1861: Doze Casamentos Felizes. Porto: Tipografia da Revista.
------------------, 1919: O Senhor da Casa de Ninães (5.ª ed.). Lisboa: Parceria A. M. Pereira.
CABRAL, A., 1981: Polémicas de Camilo Castelo Branco (Vol. V). Lisboa: Horizonte.
----------------, 1989: Dicionário de Camilo Castelo Branco. Lisboa: Caminho.
CALDAS, J., s/d: D. Frei Bartolomeu dos Mártires. Coimbra: Coimbra Editora.
----------------, s/da: Vinte Cartas de Camilo Castelo Branco (1876-1885). Porto: Companhia Portuguesa Editora.
COSTA, A. C. da, 1706: Corografia Portugueza e Descripçam Topografica do Famosos Reyno de Portugal […] (Tomo 1.º). Lisboa: Valentim da Costa Deslandes.
D’ALBUQUERQUE, M., 1895: D. FR. Bartholomeu dos Martyres e a Usurpação dos Filippes com as Cartas de Camillo Castello Branco. Braga: Livraria Central.
FERRAZ, M. de L. A. (org.), 2002: Dicionário de Personagens da Novela Camiliana. Lisboa: Caminho.
GOMES, P., 1990: «A Grande Refrega sobre o Patriotismo de D. Fr. Bartolomeu dos Mártires (Textos de Camilo e de José Caldas)». Em, 1990: IV Centenário da Morte de Dom Frei Bartolomeu dos Mártires (Actas do Colóquio Comemorativo). Lisboa: Associação dos Arqueólogos Portugueses; pp. 99-153.
JUNIOR, J. C. A. M., s/d: Cartas Notaveis de Camillo Castello Branco: O Patriotismo de Fr. Bartolomeu dos Martyres / O Castello de Lanhoso / O Mosteiro de Tibães. Prto: Livraria Universal.
MACHADO,J., 1932: «Uma carta de D. Frei Bartolomeu dos Mártires a El-Rei D. Filipe II». Anuário do Distrito de Viana-do-Castelo (vol. I). Viana-do-Castelo: Emp[resa]Gráf[ica] do «Notícias de Viana», pp. 131.132.
R[OCHETA], M. I., 2002: «(O) Senhor do Paço de Ninães». Em FERRAZ, 2002: 561-565.
SOUSA, Frei Luís de, 1984: A Vida de D. Frei Bertolameu dos Mártires (...). Lisboa: IN-CM.

NB – Respeitou-se, nas citações, a grafia das edições consultadas. Fotografias colhidas na internete.


segunda-feira, 15 de setembro de 2014


012. Camilo & Frei Bartolomeu dos Mártires

          em Doze Casamentos Felizes (1861) [II]


A segunda referência explícita de Camilo, em Doze Casamentos Felizes, a Frei Bartolomeu dos Mártires, encontra-se logo no início do sexto casamento, em dois momentos. O primeiro, mas longo, no princípio do cap. I. O segundo, mais breve, no princípio do cap. II.

Trata-se de trechos onde o Escritor mais elogiosamente se refere ao arcebispo, nomeadamente quanto aos sacrifícios que praticava e a que voluntariamente se sujeitava, ora como frade beneditino (que nunca quis deixar de ser nem sequer o hábito trocar pelo de arcebispo) ora como prelado primaz, nas inúmeras visitas pastorais que fez, mesmo a aldeias topográfica e humanamente mais difíceis, quase inacessíveis. Como o Barroso, que Camilo também custosamente subiu e desceu, e cuja descrição a seguir se lê.



[Branco, 1861: 115-117]

[Branco, 1861: 122]

NB1 - Torquemada (Tomás de) [1420-1498] foi frade dominicano. Foi nomeado inquisidor-geral dos reinos de Castela e Aragão e confessor da rainha Isabel, a Católica. Chamaram-lhe, por isso, O Grande Inquisidor. Consta que os autos-de-fé que mandou executar rondam os 2 200. [Cf. Aqui]
NB2 – Frei Luís e Sousa descreve as visitas de D. Frei Bartolomeu dos Mártires às terras de Barroso, no Livro III, caps. V e VI. [Cf. Sousa, 1984: 334-339 e 340-344]



       E agora, perguntar-me-á, naturalmente, o curioso leitor: e do feliz casamento que conta?...
       Claro que só Camilo o sabe contar, melhor que ninguém. Dir-lhes-ei, todavia, que, neste “conto”, dois jovens encontram-se fortuitamente, se enamoram e acabam por casar. Ele, Bernardo Pires, era um jovem e rico fidalgo liberal do Alto Douro, que, em 1832, andava a monte, fugido ao corregedor de Vila Real, por razões políticas. Ferido e doente, chega a Viela e quer atravessar o Tâmega. Teresa, irmã de António da Mó, barqueiro e dono de uma azenha, meteu-se no barquito, atravessou o rio e foi buscá-lo. Acolheu-o, na choupana de dois quartos onde vivia com o irmão. Cedeu-lhe o seu próprio quarto, cuidou dele e tão vigilante e carinhosamente tratou dele que…
        Isso mesmo: o riquíssimo fidalgo Bernardo casou com a pobre, rude e corajosa Teresa (que da Mó passou a Pires). Entretanto os ventos políticos mudaram de rumo. E os dois foram felizes para sempre. É só ler o “conto” (que não sendo, ainda parece de fadas), para confirmar.



Leituras
BRANCO, C. C., 1861: Doze Casamentos Felizes. Porto: Tipografia da Revista.
CABRAL, A., 1989: Dicionário de Camilo Castelo Branco. Lisboa: Caminho.
SOUSA, Frei Luís de, 1984: A Vida de D. Frei Bertolameu dos Mártires (...). Lisboa: IN-CM.

NB3 – À exceção da capa de Doze Casamentos Felizes, as restantes fotografias foram recolhidas na internete, via google/imagens.
NB4 Este post continua o anterior, cuja leitura se recomenda, em virtude de nele se apresentar uma brevíssima sínteses da vida e obra do Beato D. Frei Bartolomeu dos Mártires, cujo V centenário de nascimento se celebra neste ano.

sexta-feira, 12 de setembro de 2014


011. Camilo & Frei Bartolomeu dos Mártires

          em Doze Casamentos Felizes (1861) [I]



          Viana do Castelo está a celebrar o V centenário do nascimento de uma das figuras mais ilustres, mais queridas e mais veneradas dos vianeses: Beato Frei Bartolomeu dos Mártires.
Filho de Domingos Fernandes e de Maria Correia, Bartolomeu nasceu, em Lisboa, na freguesia dos Mártires, a 3 de Maio de 1514. Ingressou na Ordem de S. Domingos, aos 14 anos, tendo professado, em 20 de novembro de 1529, com o nome religioso de Fr. Bartolomeu dos Mártires. Estudante dedicado e aplicado, concluiu os estudos de filosofia, em 1532, e os de teologia, em 1538. Já docente no Colégio de Lisboa, em Évora e em Lisboa, obteve o grau de doutor, em Salamanca, com provas públicas, em 17 de maio de 1551. A par da docência, foi precetor de D. António Prior do Crato.
Eleito arcebispo de Braga, em 3 de setembro de 1559, logo partiu para esta cidade, onde chegou, em 22 do mesmo mês, tendo sido recebido sem as pompas habituais.
Participa na terceira fase do Concílio de Trento (1562-1563), onde intervém ativa e polemicamente. Apresentou 268 petições, relacionadas sobretudo com os graves problemas, de vária ordem e a vários níveis, por que a Igreja Católica então passava, em Portugal e na Europa, e que eram de urgente correção e reforma. Regressado a Braga, logo procurou pôr em prática as decisões conciliares tridentinas, divulgando-as, por escritos, e pregando-as, nas inúmeras visitas pastorais que fez à extensíssima arquidiocese, que ia do Alto Minho ao Nordeste transmontano. Neste vasto território existiam, então, 1260 freguesias, cujos fiéis e membros do clero nem sempre seguiriam os princípios da doutrina cristã e os preceitos do catolicismo.
Foi prelado durante mais de 22 anos. Em 22 de fevereiro de 1582, resigna ao episcopado. Passa a residir no Convento de Santa Cruz (hoje de S. Domingos) de Viana da Foz do Lima, por ele mandado construir, bem como a igreja que lhe fica anexa, iniciados, respetivamente, em 1561 e 1562. Faleceu em 16 de julho de 1590. Os seus restos mortais encontram-se depositados em túmulo situado na capela-mor (lado direito) da igreja vianesa de S. Domingos.


Tendo levado uma vida de humildade, desprendimento e simplicidade, como arcebispo e como frade, esteve sempre pronto e disponível a, generosamente, socorrer os mais necessitados, desprotegidos e aflitos, ganhando, por isso, ainda em vida, a fama de «santo». O papa Gregório XVI declarou-o Venerável, em 23 de março de 1845. Mais recentemente, a 4 de novembro de 2001, João Paulo II proclamou-o Beato.
Pelas suas qualidades religiosas, intelectuais, académicas, morais e sociais, por um lado, e pelo desenvolvimento que promoveu em Viana, o Beato D. Fr. Bartolomeu dos Mártires é justamente considerado uma das mais ilustres figuras de Viana do Castelo.


       Não se estranhará, por isso, que inclua neste blogue as referências explícitas que Camilo faz a Frei Bartolomeu dos Mártires, em dois dos seus romances: Doze Casamentos Felizes (1861) e O Senhor do Paço de Ninães (1867). Isto, não obstante, a posição moderadamente discordante que tomou sobre o «patriotismo de Frei Bartolomeu dos Mártires», na crise de 1580. A polémica começou em 1866 e terminou no início do ano seguinte. Alexandre Cabral relata que «C[amilo] C[astelo] B[ranco] interveio na contenda, apoiando as afirmações [do jornal] O Partido Liberal, que tratara frei Bartolomeu de “vil traidor da Pátria e falsificador do sufrágio do povo”», em artigo assinado por Joaquim Alves Mateus, «cónego da Sé de Braga». [Cabral, 1989: 88; ver também Cabral, 1981, vol V: 7-61]. Saiu em defesa do arcebispo o jornal O Bracarense, bom como, entre outros, os jornais A União Católica e O Bem Público.
Abordarei, esta questão (patriotismo ou não patriotismo de Frei Bartolomeu dos Mártires, surgida na segunda metade do século XIX), em posts posteriores.


 A primeira referência explícita de Camilo a Frei Bartolomeu dos Mártires, no conjunto dos Doze Casamentos Felizes (que, pessoalmente, considero tratar-se de contos) encontra-se logo primeiro e diz apenas o seguinte:

[Branco, 1861: 29]

Este primeiro casamento, feliz, como os restantes onze, apesar das contrariedades (diferenças de idades, de status social, de estado e até de religião) dá-se entre a viúva D. Cândida de Lima e Luís de Cernache. Cândida era filha de um «grande fidalgo pobre» e viúva «de um marido velho, que lhe deixou boa casa, e muitas frescuras de annos, e optima disposição para se gosar de tudo isto.» Até à morte do pai, recolheu a um convento. Mas dele logo saiu, indo «residir em uma das suas quintas», vivendo «sozinha com as suas criadas.» Um dia, porém, bate-lhe ao portão Luís, «homem de trinta annos feitos». Fora passar uns tempos a casa de uns tios a Trás-os-Montes, na esperança de uma substancial herança. Ia recomendado a Cândida, por uma carta de uma tia desta, que vivia no Porto. [Branco, 1861: 13,14 e 15]
O par encontrou-se e ficaram logo apaixonados. Mais ela por ele que ele por ela. A tal ponto que estava disposta a acompanhá-lo para Lisboa, decisão que ele recusou. Está mesmo a ver-se, quem conhece a obra de Camilo, no que isto deu. E se não se vê, façam o favor de ler este «Primeiro Casamento»: ficarão a saber que Luís, regressado da capital, procurou Cândida, indo encontra-la num convento, tal como se refere o fragmento acima apresentado, casa onde ela, desgostosa, se tinha recolhido, logo quando Luís partira para Lisboa.
Sempre lhes direi, todavia, que o casal de casados foi visto e discretamente admirado por um dos narradores (Camilo, certamente, que, porém, ouvira a história deste casamento feliz, da boca de António Joaquim, amigo do três). O narrador principal vira e admirara o ainda apaixonado casal («dos dous casados – não podiam ser outra cousa»), a passear amorosamente «naquelas frescas e saudosas carvalheiras de Santo António das Taipas.» (O narrador Camilo desculpa-se da curiosidade e do que viu, uma vez que ele «não podia ser visto, acocorado como estava entre a ramagem de uns amieiros, pescando [bogas] á cana», no rio Ave. [Branco, 1861: 10 e 12]
Será necessário identificar «o historiador de frei Bartholomeu dos Martyres», referido no fragmento?!...
Nos dois próximos posts deste blogue abordarei outras referências explícitas do Escritor ao arcebispo bracarense. Por isso,

[Continuará]

NB - Em todas as citações, respeitei a grafia das edições consultadas.

Leituras
AA.VV., 2014: D. Frei Bartolomeu dos Mártires (Colectânea de Textos). Viana do Castelo: Câmara Municipal de Viana do Castelo. (Org. de Rui A. Faria Viana).
BRANCO, C. C., 1861: Doze Casamentos Felizes. Porto: Tipografia da Revista.
CABRAL, A., 1981: Polémicas de Camilo Castelo Branco (Vol. V). Lisboa: Horizonte.
----------------, 1989: Dicionário de Camilo Castelo Branco. Lisboa: Caminho.
SOUSA, Frei Luís de, 1984: A Vida de D. Frei Bertolameu dos Mártires (...). Lisboa: IN-CM.

domingo, 22 de junho de 2014


010. Camilo & e os irmãos Barbosa e Silva [10]
          em O Vinho do Porto (1884) [II]


Além do que disse no post anterior, procuro fornecer, neste, mais alguns dados sobre quem terá sido a Gertrudes, personagem que figura em O Vinho do Porto – Processo de uma bestialidade ingleza (1884), de Camilo, a quem o Escritor crisma de Gertrúria. [Respeitarei, nas citações e transcrições, a grafia das edições consultadas.]
Gertrudes, argumenta o autor para a mudança do nome, «não sôa lyricamente a orelhas clássicas nem românticas», custando «muito aos melindres estheticos do meu espirito caprichoso em onomastica». [Branco, 1884: 38.] Além disso, Camilo chama-lhe também «madame Brillat-Savarin» [id.: ibid.], por, recordando então afamado cozinheiro francês, ela ser também «um tesouro de joias culinárias» [id.: 35]. Ela, por isso, «não tinha mãos a medir» [id.: 39], sendo frequentemente requisitada e requerida por bispos e abastadas famílias portuenses e arredores, para lhes preparar e dirigir lautas e refinadas refeições, na receção de ministros e outras figuras importantes. Os seus ricos e substanciais manjares eram de tal ordem que foi com eles que, em vez das boticadas médicas, ela, da noite para o dia, curou e livrou o jovem Camilo das portas da morte. O facto, porém, não foi suficiente para o Escritor lhe dedicar um «artigo necrológico». E porquê? Simplesmente – confessa – «por que ella me salvou como cozinheira» [id.: 76]. Cozinheira que, apesar dos seus dotes e qualidades culinárias, disso não passou, isto é, não subiu nem decaiu socialmente.

Apreciem, agora, a breve «genealogia» que da sua devotada amiga faz Camilo:

[Id.: 81-82. (Formato adaptado)]

 Este fragmento é apenas uma pequena amostra da descrição da cozinheira Gertrudes/Gertrúria. Mas, para saborear a graça e humor com que Camilo descreve os atos e pratos que ela confecionava, não há como ler O Vinho do Porto. Depois não resmunguem que não os avisei. Adiante, pois.

Alexandre Cabral é de opinião que esta Gertrudes/Gertrúria «bem pode ser uma transfiguração» de Eufrásia Carlota de Sá, «dedicada “amiga” do escritor» [Cabral, 1989: 664]. Luís Xavier Barbosa diz que Eufrásia foi «hospedeira de Camillo no Porto» [Barbosa, 1919: «Proemio», s/p]. Aquilino, por sua vez, regista que Camilo, quando chegou ao Porto, em 1848, ao procurar hospedagem, foi recebido por uma «criada tripeira da costa, desnalgada mas de ar bondosão, Gertrudes Engrácia, que ele crismou no Vinho do Porto, de acordo com as conveniências prosódicas ofendidas, por nome tão curriqueiro, em Gertrúria». [Ribeiro, 1961 (II): 10.]

Admitindo-se que a Gertrudes/Gertrúria seja uma «transfiguração» de Eufrásia, Camilo faz-lhe referência em cinco cartas que dirigiu ao seu grande amigo vianês José Barbosa e Silva (30/X/1828 - 15/IX/1865). Barbosa e Silva, segundo se viu no post anterior, foi presidente de uma «instituição carpideira», de que faziam parte Camilo e outros escritores, e que tinha por objetivo escrever artigos necrológicos sobre ilustres figuras ou como tal consideradas. Nessas cartas, porém, o Escritor nunca nomeia Eufrásia por Gertrudes ou Gertrúria.

As notas que se seguem, sobre quem foi Eufrásia, são colhidas, por um lado, na referida correspondência e, por outro, nas informações que sobre esta(s) personagem(ns) nos dá Alexandre Cabral [cf. 1984 (I) e 1989].

A primeira carta em que o Escritor se refere (referirá) a Eufrásia é datada de 3/V/1853. Nela escreve, a dado passo:

Eu vivo triste e . O espirito enojou-se com o m[ui]to pasto que lhe dei da m[es]ma impressão, e já não digere os indigestos carinhos da E. F. Estou, p[o]r tanto, viuvo, e preciso de segundas ou vigesimas (que sei eu!...) nupcias, aliás bestialiso-me. [Barbosa, 1919: 106. Também em Cabral, 1884 (I): 62, que, todavia, omite a palavra «carinhos».]

Eufrásia aparece aqui nomeada apenas pelas iniciais, prova de que o destinatário saberia de quem se tratava. Xavier Barbosa leu «E. F.», enquanto Alexandre Cabral lê «E. T.». E, a propósito, observa este reconhecido camilianista:
«A abreviatura E. F. deve indicar – presumimos – o nome de Eufrásia Carlota de Sá que, dizem os biógrafos, fora amante de Camilo.» Mas, continuando, aceita «a sugestão» de Xavier Barbosa [F. em vez de T.], «sobretudo depois das considerações que [este autor] traça nas Minúcias Camilianas.» [Cabral, 1984 (I): 62] Nesta obra manuscrita e depositada nos Reservados da Biblioteca Nacional [cf. Cabral, 1984 (I): 42], o organizador de Cem Cartas de Camilo «associa as iniciais [E. F.] à expressão a seu respeito utilizada por Camilo – “D. Eufrázia (La Forêt em 3.ª mão)”.» Cabral remete, a propósito, para a carta n.º 54, datável de setembro de 1856, onde Camilo associa Eufrásia a «La Florêt em 3.ª mão», como a seguir se verá. [Cabral, 1984 (I): 62. «La Forêt» e «La Florêt» aparecem assim escritas nas referidas cartas. Lapso de Camilo ou de Cabral? Não consegui apurar, ainda, quem teria sido essa  La F[l]orêt.]

Eufrásia Carlota de Sá «tinha casa de hóspedes na Rua do Bonjardim, onde o escritor viveu durante largos períodos. Camilo terá travado conhecimento com Eufrásia por volta de 1850 (no regresso de Lisboa, provavelmente) e com ela terá mantido relações íntimas. O manifestado fastio [expresso na carta], contudo, não foi razão de peso para se interromper a amizade recíproca, que se manteve inalterável.» [Cabral, 1984(I): 63].
No célebre Dicionário de Camilo Castelo Branco, Cabral fornece-nos mais alguns dados sobre a vida de Eufrásia e as suas relações de intimidade:
«A dona da casa dedicou-se tão entranhadamente ao novo inquilino [Camilo] que acabou por fazer parte da sua vida. Conhecia-lhe os segredos, os amigos e os problemas, sem excluir os sentimentais. Tratava-lhe das roupas e da saúde. Revelou maternal compreensão pelas “leviandades” do seu benjamim, sobretudo os amores adulterinos com Ana Plácido, em que representou um importante papel de alcoviteira. […] A “hospedeira integral” [como lhe chamou Aquilino] fazia de “correio” entre os dois amantes. / Apesar de proprietária de uma casa de hóspedes, de ter uma filha (Carlota se chamava), Eufrásia manifestou disponibilidade para acompanhar o escritor a Viana do Castelo (1857).» [Cabral, 1989: 577]

[Desenho de Júlio Pomar]

Em carta a José Barbosa e Silva, datável, segundo Cabral, de setembro de 1856 (a tal carta n.º 54) e a respeito das diligências efetuadas e/ou a efetuar pelo amigo vianês, sobre casa, recheio e sua localização em Viana [tema a postar, oportunamente], para onde Camilo tencionava vir morar, a fim de se dedicar, por inteiro, à redação de A Aurora do Lima, escreve o romancista, a dado passo:

Enquanto a móveis, se em Viana se vendem os indispensáveis para uma mobília económica, é mau governo levá-los de cá [Porto]. Se eu quisesse uma decoração rica, então sim; mas eu suspeito muito que, retirando tu de Viana, me retire eu também com a D. Eufrázia (La Florêt em 3.ª mão) assentada na entrecarga dos livros. [Cabral, 1984 (I): 114. Carta inédita, até 1984, não se encontrando reproduzida em Barbosa, 1919.]

Camilo parece estar decidido a vir para Viana, acompanhado da sua fidelíssima Eufrásia. Só que, em carta datável de 30/I/1857, o Escritor, depois de referir que se encontra «bem doente», tendo sofrido, em apenas quatro dias, «uma bronchite, uma indigestão, uma ameaça de gonorrhea inveterada, e uma febre que vaticina sezão», informa o amigo de que:

Está decidida a m[inh]a hida para Vianna. A Eufrazia não vai. Resolvo ir p[ar]a uma hospedaria. É onde se está mais commodo, e m[ai]s livre de cuidados. No estio talvez retire para o campo. [Barbosa, 1919: 32-33. Também em Cabral, 1984 (I): 143.]

O desejo de Camilo era, de facto, vir para Viana, mas sem dispensar Eufrásia, segundo reitera em carta datável de 8/III/1857. Mas não queria ter casa dentro do burgo. Sim, no campo, «nas margens do Lima», «onde heide fundar a minha deliciosa residencia, o meu sonho bucolico.» Por isso, conclui:

Quando fôr para o campo, mando ir a Eufrazia, e então vão d’aqui [Porto] os utensilios de caza.» [Barbosa, 1919: 40. Também em Cabral, 1984 (I): 152.]

Aproxima-se o dia em que Camilo chegará a Viana. Tal aconteceu, como se sabe, em 7/IV/1857. Em carta datada do dia 1, o Escritor diz a José Barbosa e Silva: «Estou desesperado de me ver d’aqui fora.» Só que Camilo, como se sabe, tinha uma filha – Bernardina Amélia [Castelo Branco de Carvalho (1848-1931)] – fruto da sua ligação adulterina [era ainda casado com Joaquina Pereira de França (1826-1847) quando se deu a  estas relações] com Patrícia Emília do Carmo de Barros (1826-1885). Por isso, além da casa, dos móveis, dos livros, do cão, do cavalo, a quem deixaria ele entregue a pequena Bernardina, com apenas 9 anos de idade? Nesta última carta, Camilo informa o amigo a tal respeito:

A m[inh]a filha por em q[uan]to fica em casa de D. Eufrazia. Depois, veremos. [Diz a D. Eufrázia que já falou a dois escudeiros, está esperando informações das casas onde estiveram para depois te propor as condições do ajuste. Ambos eles são galegos – não sei se simpatizas com a nacionalidade dos tais… Caso não queiras, avisa.] [Barbosa, 1919: 44, amputada da parte que Cabral transcreve entre parênteses retos, 1884 (I): 156-7.]

Acerca da infância da filha de Camilo, informa Cabral: «Dadas as circunstâncias e os costumes da época, a criança foi exposta na roda de Vila Real. Depois da separação dos pais, a menina viveu com a mãe e mais tarde com Camilo, na verdade com Isabel Cândida Vaz Mourão, freira do Convento de S. Bento da Ave-Maria, do Porto, que, como se sabe, mantivera relações amorosas com o romancista.» [Cabral, 1989: 27-28]

[Bernardina Amélia à janela do convento]

Breves notas biográficas da hospedeira Eufrásia Carlota de Sá e da freira Isabel Cândida Vaz Mourão, aos cuidados de quem Camilo entregou a educação da filha Bernardina Amélia, encontram-se também em Figueiras, 2010: 245. O autor biografa, ainda, outras mulheres que, entre 1848 e 1858, «não faltaram a Camilo».

A cozinheira Gertrudes/Gertrúria de O Vinho do Porto – Processo de uma bestialidade ingleza (1884) pode ser uma «transfiguração» da hospedeira Eufrásia Carlota de Sá. Mas, na  descrição de sua vida e ações, podem e devem entrar propriedades e características, mais ou menos ficcionadas, de outras mulheres que o Escritor conheceu e com quem terá convivido. Tal Gertrudes Engrácia, assim propriamente chamada ou com outro nome, pode ter sido uma «criada» da hospedeira, como observa Aquilino.
Uma coisa é certa, porém: na vida do Escritor houve, de facto, uma mulher chamada Gertrudes, na mesma década de 1850. Chamou-se Gertrudes da Costa Lobo e foi uma jovem que se apaixonou por Camilo (bem como por outros escritores), a quem dirigiu cartas e poemas, deixando ainda um diário amoroso. Esses “cadernos” foram cuidadosamente escondidos pelo Escritor e encontrados depois da morte de Ana Plácido, «num “falso” que existia junto do leito de Camilo no seu quarto de cama, entre poeirentos objectos, mutilados e inúteis» [Sebastião de Carvalho, em Teles, 2007: II]. «Os cadernos desse diário de paixão estiveram na mão de Camilo, que os ordenou com alíneas a), b), c), etc., e onde ele deixou, firmado pelo seu próprio punho, o traço que nos revela o mistério amoroso que o envolveu de 1850 a 1857.» [Id.: ibid.] Segundo Manuel Simões (artigo «Um importante espólio camiliano»), citado por Manuel Tavares Teles, a «correspondência e o diário» desta jovem Gertrudes constituem «a fonte» do romance Memórias de Guilherme do Amaral (1863). [Cf. Teles, 2007: III]

Mas esta Gertrudes é outra história, das muitas paixões por que passou Camilo. A ela voltarei, em post(s) fururo(s), se em Os Manuscritos Gertrudes – Uma portuense apaixonada por Camilo, Manuel Tavares Teles me oferecer dados que se enquadrem nas relações de Camilo com Viana ou de Viana com Camilo. Já agora, saiba-se ou recorde-se que, no Anátema (1850, em folhetim; 1851, em volume), primeiro romance de Camilo, também há uma Gertrudes, «criada» de um fidalgo femeeiro, conde Cristóvão da Veiga, que dela também quis fazer serva de/para todos os serviços.



Leituras:
BARBOSA, L. Xavier (coord. e org.), 1919: Cem Cartas de Camillo. Lisboa / Rio de Janeiro: Portugal-Brasil Limitada.
BRANCO, Camilo Castelo, 1884: O Vinho do Porto – Processo de uma bestialidade ingleza. Porto: Livraria Civilização. (Uma edição recente foi publicada em 2005, com pref. De José Viale Moutinho, pela Colares Editora.)
CABRAL, Alexandre, 1984 (I): Correspondência de Camilo Castelo Branco com os Irmãos Barbosa e Silva (vol. I). Lisboa: Horizonte.
------------, 1989: Dicionário de Camilo Castelo Branco. Lisboa: Caminho.
FIGUEIRAS, Paulo de Passos, 2010: «Camilo e Ana Plácido – Alguns factos inéditos da sua vida», Cadernos Vianenses (Tomo 44). Viana do Castelo: Câmara Municipal de Viana do Castelo; pp. 229-255. Também disponível AQUI.
RIBEIRO, Aquilino, 1961: O Romance de Camilo (2 vols.). Lisboa: Bertrand.
TELES, Manuel Tavares, 2007: Os Manuscritos Gertrudes – Uma portuense apaixonada por Camilo. Lisboa: Guerra & Paz.