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terça-feira, 25 de julho de 2017

CAMILO &M VIANA
[1857: “velha” como “nova” (35)]


Camilo deve ter estado alguns dias sem escrever a José Barbosa e Silva (JBS). Este, por sua vez, deve-lhe ter feito reparo. Tudo parece ter ficado depressa resolvido, entre os dois grandes amigos. O Escritor envia a JBS, no dia 6 de novembro de 1856, carta onde colhi e de que transcrevo a referência

18.ª)
Remetto o art[ig]o bombástico p[ar]a sabbado – Irá p[ar]a o dia 15 o funebre. Irei remettendo folhetins p[ar]a todos os n[umer]os[.] Não posso, porem, escrever sem ver o q[ue] escrevi já publicado. Não me lembra o q[ue] disse. Com o S[ebasti]am fallamos e concordamos a resp[ei]to do frontispicio. Podes contar com a m[inh]a assiduidade, posto que estou cançado de escrever, vendo de m[ai]s a m[ai]s adeante de mim uma velhice pêca de meios e de imaginação. Prevejo um triste futuro, se não morrer a tempo de bater á porta do coração e achal-o convertido inteiramente a cabeça. Com cabeça som[en]te não se escreve.
{BARBOSA. [1919]: 24. Também em CABRAL, 1984 (I): 128.
Respeitada grafia da edição consultada.
Na transcrição, desenvolvi formas abreviadas.}

Que artigo bombástico e que artigo fúnebre?
Foram ambos publicados, sem assinatura, pelo Aurora do Lima, nos dias/n.os, respetivamente, 08/134 e 15/137, em novembro de 1856. O bombástico é um apelo à participação dos votantes nas eleições legislativas, que se realizavam no dia seguinte, domingo, 9 de novembro de 1856. Pelo meio, é visado o governador civil do distrito, principal alvo dos ataques políticos do Aurora do Lima, porta-voz de JBS, que lutava por o ver substituído. [Sobre este visconde, (re)ver “post”]
Apenas um parágrafo:

Onde vinha o sr. visconde de S. Payo dos Arcos angariar suffragios para os nomes indicados pelo governo? A um districto que o deseja longe dos seus negocios. A um povo que considera S. Ex.ª um estorvo inabalavel ao seu progresso. A um districto, finalmente, que a authoridade superior conseguiu revoltar contra todas as suas maleficas medidas.
[Cf. COSTA, 1928 (IV): 384. Respeitada grafia da edição consultada.]

O artigo fúnebre celebrava, convocando às lágrimas, o terceiro aniversário do falecimento de D. Maria II (1819-1853), «primeira rainha constitucional», «de saudosíssima memória». [Cf. COSTA, 1928 (IV): 385]
Recorde-se que foi D. Maria II quem, há oito anos, em 20 de janeiro de 1848, elevara a então Vila de Viana da Foz do Lima à categoria de cidade, dando-lhe o nome de Viana do Castelo.

 O Sebastiam é Sebastião [Maria de Andrade e] Sousa, redator e colaborador do Aurora. [(Re)ver “post”]. E o frontispício é o que Camilo tinha enviado para a edição, em livro, de Cenas da Foz, pela empresa do mesmo jornal. [(Re)ver “post”]
A primeira destas Cenas saiu em folhetim – recorde-se – no n.º 132 do ainda incipiente periódico vianês, a 4 de novembro de 1856. Dois dias antes, portanto, da data da carta de que acima transcrevi excerto (18.ª referência).

Camilo promete ser mais assíduo na sua colaboração, embora se diga desanimado da escrita. JBS é capaz de ter chamado a atenção do Escritor para o irregular envio de textos, a que se teria comprometido.

Até 7 de abril de 1857, dia em que chegou a Viana para, aqui residindo, redigir o A Aurora do Lima, Camilo escreveu, ainda, mais de uma vintena de cartas. Sobre elas, por isso, hei de fazer outros tantos ”posts”. Pelo menos!

Assim, até ao próximo!
E continue a (re)ler Camilo! Por exemplo: Coisas Espantosas (1862). Recordo ao paciente leitor deste blogue que os primeiros capítulos deste romance foram publicados, em folhetins, no Aurora do Lima, em 1859, com o título de A Natureza das Coisas.

Referências:
BARBOSA, Luís Xavier, [1919]: Cem Cartas de Camillo. Lisboa: Portugal-Brasil Limitada, Sociedade Editora.
CABRAL, Alexandre Cabral, 1984: Correspondência de Camilo Castelo Branco com os Irmãos Barbosa e Silva – I. (Escolha, prefácio e comentários de). Lisboa: Horizonte.
COSTA, Júlio Dias da, 1928: Dispersos de Camilo, Vol. IV – Artigos (1846-1889). Coimbra: Imprensa da Universidade

segunda-feira, 3 de julho de 2017

CAMILO &M VIANA
[1857: “velha” como “nova” (31)]


Relacionada, agora, sobretudo com a sua colaboração publicada e/ou a publicar pelo Aurora do Lima, a correspondência de Camilo para José Barbosa e Silva (JBS), continua.
Em carta datada de 10/10/56, ainda a banhos na Foz, escreve o que a seguir se transcreve. É a referência

14.ª)
[…] Estou ancioso p[o]r deixar a Foz; mas não tenho podido entrar na casa q[ue] aluguei no Porto sem q[ue] se façam obras. Até ao dia 15 retiro.[*]
Mando-te hoje um art[ig]o em estilo comezinho, p[o]r q[ue] desejo fazer, n’esta conjunctura, linguagem popular. Com q[uan]to eu conheça a esterilid[ad]e da semente, acho q[ue] é preciso habituar o torrão a produzir.[**]
{BARBOSA. [1919]: 19-20 Respeitada grafia da edição consultada.
Transcrita em CABRAL, 1984 (I): 122-123.}

[*] Após ter desistido de vir para Viana e, nesta cidade passando a residir, ser o redator principal do Aurora [(Re)ver], Camilo vê-se na necessidade de alugar casa no Porto. Para si e para a filha Bernardina Amélia, que nesta data tinha já oito de idade. Ainda se encontra na Foz, para onde foi em princípios de julho.
É de crer, porém, que a hospedeira D. Eufrásia, por um lado, e a freira D. Isabel Cândida, por outro, continuassem a ajudá-lo no acompanhamento e educação da criança. Nesta carta, volta a dizer que a menina está em Leça a banhos. Certamente na companhia da abastada religiosa, que também aqui se encontrava a banhos [(Re)ver]. Curiosamente, desta vez, Camilo envia a JBS recados da D. Eufrásia, mas nenhuma referência faz à/da conventual.

[**] Nem Xavier Barbosa nem Alexandre Cabral identificam o artigo em estilo comezinho e se foi publicado ou não n’A Aurora do Lima. Trata-se, muito possivelmente, do artigo «Colónias Agrícolas», publicado neste jornal, nos dias 14 e 16/10/1856. É artigo não assinado e, talvez, por isso, Artur Anselmo não o tenha identificado. [Cf. ANSELMO, 1989 e 1993] Júlio Dias da Costa, porém, compilou-o no vol. IV dos Dispersos de Camilo, baseado, na carta que o Escritor escreveu, no dia 20 do mesmo mês e ano, a JBS. [Cf. COSTA, 1928 (IV): 372-380] Carta essa a que dedicarei, em breve, um “post”. Evidentemente.

Então, até ao próximo! Que, todavia, será dedicado a uma carta datada de 10/10/56, a mesma da carta cujo excerto, neste, acima transcrevi.
Mas, não esqueça, continue a (re)ler Camilo!

Referências:
ANSELMO, Artur, 1989: «Camilo e “A Aurora do Lima”». Rodapé em A Aurora do Lima, n.º 9, de 22/02, p. 2. 
---------------, 1993: «Camilo e “A Aurora do Lima”». Camilo Castelo Branco- Jornalismo e Literatura no Séc. XIX (Colóquio promovido pelo Centro de Estudos Camilianos em V. N. de Famalicão, de 13 a 15 de Outubro de 1988). Estudos Camilianos – 3. V. N. de Famalicão: Centro de Estudos Camilianos; pp. 115-123.
BARBOSA, Luís Xavier, [1919]: Cem Cartas de Camillo. Lisboa: Portugal-Brasil Limitada, Sociedade Editora.
CABRAL, Alexandre Cabral, 1984: Correspondência de Camilo Castelo Branco com os Irmãos Barbosa e Silva – I.(Escolha, prefácio e comentários de). Lisboa: Horizonte.
COSTA, Júlio Dias da, 1928: Dispersos de Camilo, Vol. IV – Artigos (1846-1889). Coimbra: Imprensa da Universidade.

quinta-feira, 15 de junho de 2017

CAMILO &M VIANA
[1857: “velha” como “nova” (21)]


Ora, por que razão, os artigos de Camilo, sobre economia política, não foram transcritos no Aurora do Lima?
No excerto seguinte, encontra-se a resposta, retirado de uma carta para José Barbosa e Sila (JBS), onde, a propósito, se lê mais uma referência ao tema que me vem ocupando, a

6.ª)
[…] Nada tenho gosado com o estudo de ferro que faço em coisas novas, e indispensaveis n’esta materialissima época. A proposito de art[ig]os industriaes, sou de opinião que os não transcrevas, por que me despedi da Verdade, e tenciono não escrever senão mais quatro. Os folhetins vão ser completados no Clamor Público, jornal que principia a sua ephemera carreira no mez proximo, e p[ar]a o qual fui escripturado, até fim de 7[sete]mbro. A rasão da mi[nh]a sahida da Verd[ad]e foi quererem-me mutilar o romance «Lágrimas…» em coisas ortodoxas p[o]r que estes corruptos entendem que Deus e progresso são entid[ad]es incompativeis. Tem-me feito cabellos brancos estes alarves[*]!
[…   …   …   …   …   …   …   …   …   …   …   …   …   …   …   …   …   …] 
[Esqueci-me dizer-te que o desenho rápido da casa é excelente.] [**] [Em carta datada de 24/07/1856]
{BARBOSA, [1919]: 11-12. Também em CABRAL, 1984 (I): 106-107.
Respeitada grafia das edições consultadas.}
[*] Alexandre Cabral transcreve «alvares».
[**] Este fragmento, que se encontra no final da carta, foi ignorado por Xavier Barbosa. Já na carta anterior, havia ignorado uma alusão à casa. [(Re)ver “post” anterior.]

Os artigos sobre economia política, designados industriais nesta carta, não foram transcritos no Aurora, porque Camilo deixou de escrever n’A Verdade. E despediu-se deste jornal, porque os corruptos (tenham sido eles, por hipértese ou não, alarves ou alvares), que mandavam no periódico, lhe mutilavam o Lágrimas Abençoadas, romance que, em folhetins, o Escritor vinha também publicando, no mesmo jornal. Tal como os da «Peregrinação sobre a Face do Globo», recorde-se.
De (re)ler é, também, para uma explicação mais desenvolvida e exemplificada dessas razões, segundo a perspetiva do Escritor, a interessantíssima «Carta ao Proprietario do “Clamor Publico”», Faria das Regras. Júlio Dias da Costa compilou-a em Dispersos de Camillo (Vol. II), que, na nota final, informa: «Esta carta foi publicada no Clamor Público, de 15 de Setembro de 1856». E mais: «Nesse número, o primeiro do jornal, e só nêle, figura como redactor principal A. B. S. Faria J. das Regras». E, além de outros mais, ainda este mais, a propósito do Clamor Público: «Nos primeiros números aparece Camilo na lista dos redactores, com Evaristo Basto, Alexandre Braga e Coelho Lousada.» [COSTA, 1925: 501-507 (carta) e 507 (nota). Também em MOUTINHO, 2016: 241-245]

Regresso ao Lágrimas. Camilo começou a escrever, a publicar e a ver interrompida a primeira versão deste romance, então com o título «Temor de Deus» / «Contos Morais», em 1852. A versão definitiva era a que estava a ser publicada no Verdade. Apesar das vicissitudes por que passou, este romance, «religioso na essência» - avisa o romancista, dirigindo-se «A quem o ler», em 1853 [BRANCO, 19064: 5 e 10] - acabou por sair em livro, em 1857. [Cf. CABRAL, 20032: 424-425]
Na verdade, o Verdade, e não só o Clamor, como na carta previa Camilo, tiveram uma existência efémera. O primeiro viu a luz em 17/09/55 e apagou-se em 27/12/56. [Cf. CABRAL, 20032: 804]. O segundo durou apenas um ano: 15/09/56 a 30/09/57. [Cf. COSTA, 1925: 528]
Na carta-folhetim ao proprietário do Clamor, o Escritor promete ao seu «caro amigo Faria Regras» a seguinte colaboração:

Começarei publicando a Peregrinação sobre a face do globo, já principiada noutro jornal. / A sensação que ella fez no paiz, e a ancia com que pelo mesmo é esperada a conclusão do meu utilíssimo trabalho, garante ao teu jornal um bôa colheita de assignaturas. [Cf. COSTA, 1925: 505. Respeitada a grafia da edição consultada.]

 O outro jornal, já sabemos, é A Verdade, que Camilo, satírico, classifica como «sotão, humido e mal-cheiroso», de onde diz ter saído, «há pouco», «com rheumatismo moral, e estonteamentos de cabeça.» [Cf. COSTA, 1925: 501].
E mais abaixo, acrescenta:

Depois da Peregrinação, dou-te um romance, intitulado: UM HOMEM DE BRIOS: está ligado a outro romance que podes comprar em casa de Cruz Coutinho; chama-se: ONDE ESTÁ FELICIDADE. / Verás que a felicidade está no dinheiro, ainda que seja falso. [Id.: 505-506]

E remata, assim, o seu compromisso de colaboração com o Clamor:

De mistura com estas coisas, irão alguns folhetins, se m’os inspirar a praia da Foz do Douro, onde vou todas s manhãs estudar os segredos do caranguejo, curar uma paralysia d’alma, e quebrar as pernas nas pedras escorregadias. [Id.: 506-507]

Repare-se no estudo de ferro que Camilo faz das coisas novas e indispensáveis [à profissão de jornalista e escritor, está implícito] nesta materialíssima época
De volta à casa, que bom seria rever o desenho de que fala na carta. Seria aquela em que o Escritor morou, há 160 anos (07/04 a 29/05/57), ali junto da capela de S. João d’Arga, na encosta do Monte de S.ta Luzia, e que foi, há uma dezena de anos [?], destruída?!... Uma vergonha cultural! Mais uma!

Entretanto, vamos continuando a ler e a entender.

Até ao próximo!
E continue a (re)ler Camilo.

Referências:
BARBOSA, Luís Xavier, [1919]: Cem Cartas de Camillo. Lisboa: Portugal-Brasil Limitada, Sociedade Editora.
BRANCO, Camillo Castello, 19064: Lagrimas Abençoadas. Lisboa: Parceria Antonio Maria Pereira.
CABRAL, Alexandre Cabral, 1984: Correspondência de Camilo Castelo Branco com os Irmãos Barbosa e Silva – I. (Escolha, prefácio e comentários de). Lisboa: Horizonte.
-------------, 20032: Dicionário de Camilo Castelo Branco. Lisboa: Caminho.
COSTA, Júlio Dias da, 1928: Dispersos de Camillo (Vol. II). Coimbra: Imprensa da Universidade.
MOUTINHO, José Viale, 2016: Camiliana 3 – Cartas Escolhidas de Camilo Castelo Branco. S/l: Círculo de Leitores.

terça-feira, 13 de junho de 2017

CAMILO &M VIANA
[1857: “velha” como “nova” (20)]


E, das 39 referências ao A Aurora do Lima e conexos, feitas por Camilo, em cartas remetidas a José Barbosa e Silva (JBS), cá vai a

5.ª)
Olha que os folhetins tem vindo m[ui]to errados; e algumas asneiras, sahidas na 1.ª edicção, bem puderas tu emendal-as. Tem m[ai]s cuidado, ou manda ter com os futuros.
Estou escrevendo na «Verd[ad]e» uns art[ig]os intitulados Economia politica. Se o teu jornal os comportasse (o q[ue] duvido) bom é que se fosse dessiminando o gosto por estas leituras, visto que o nosso forte na Aurora devem ser questões d’esta ordem q[ue] prendem sempre com especialid[ad]es locaes – Caso os transcrevesses, não se me dá que os declares meus, posto que p[ar]a cá se persuadam que anda ahi uma notabilid[ad]e economica. Parvos! Eu sou capaz de lhes escrever até sobre folhamentos e irrigações, sobre reguengos e fateuzins !
[…   …   …   …   …   …   …   …   …   …   …   …   …   …   …   …   …   …]
[P. S.
Como vamos de casa?] [*] [Em carta datável de 19/07/1856]
{BARBOSA, [1919]: 9-10. Respeitada grafia da edição consultada.
Também em CABRAL, 1984 (I): 105-106}
[*] Este P. S. encontra-se apenas em CABRAL; 1984 (I): 106.

Os folhetins que, no Aurora do Lima, saíram muito errados e com algumas asneiras, são os primeiros da «Peregrinação sobre a Face do Globo», transcritos do jornal portuense A Verdade. Camilo, profissional cioso que era dos seus trabalhos, não gostou. Censura, por isso, o destinatário, com certa pragmática diretividade. Aliás, ele já tinha advertido JBS, em carta anterior, para que a transcrição fosse feita com cuidado. Conhecedor das incorreções encontradas na 1.ª edição dos folhetins, no jornal portuense, esperaria que o amigo de Viana, por um lado, as emendasse e, por outro, acompanhasse de perto a sua reprodução no Aurora. [(Re)ver três últimos “posts”] Parece que não foi o que aconteceu.
Compararei as versões dos folhetins, saídas no Aurora, e as publicadas em Duas Horas de Leitura (18582: 85-174), quando analisar os textos que o Escritor publicou neste jornal. Ver-se-ão, então, as diferenças.

Não obstante, dada a reprimenda pelo descuido, Camilo está disposto a conceder ao Aurora a transcrição dos artigos que, sobre economia política, começara a publicar no Verdade. Mesmo sem assinatura, mas certamente pagos. Na verdade, sob o título «Economia Politica» e o subtítulo «Systema Protector, e Commercio Livre», os tais artigos foram publicados no Verdade. Num total de oito, estão apenas numerados e encimados pelo vocativo «Meu Amigo», como se de correspondência se tratasse. E, de facto, abaixo do subtítulo, encontra-se «(Correspondencia)», indicativo do género. E rubricados tão só – informa Xavier Barbosa – por três asteriscos [ * * * ]. E o sobrinho de JBS precisa os n.os e as datas em que vieram a lume, no jornal do Porto: «247, 249, 251, 253, 256, 258, 260 e 262 respectivamente de 15, 17, 19, 22, 25, 28 e 30 de Julho e 1 d'Agosto de 1856.» {BARBOSA, [1919]: 10]}. Acontece, porém, que os ditos artigos não chegaram a ser transcritos no Aurora, apesar do articulista desejar ver disseminado, também por Viana, o gosto por estas leituras, dado o seu interesse formativo. Saber-se-á, porquê, no próximo “post”. Júlio Dias da Costa, por seu lado, identificou e recolheu, em Dispersos de Camillo IV, esses folhetins.  [Cf. COSTA, 1928: 319-371]

Agora, a casa do P. S., fragmento que Xavier Barbosa ignorou. Alexandre Cabral comenta, a propósito (a despropósito, direi eu), não perceber, à primeira vista, o corte. «A menos que» - acrescenta, suspeitando da censura do compilador das Cem Cartas - «a casa… tivesse outra utilização e implicação.» [CABRAL, 1984 (I): 106]
Alexandre Cabral é um dos camilianistas que defendem que a vinda de Camilo para Viana, em 7 de abril de 57, era para estar junto de Ana Plácido. A jovem esposa do velho Manuel Pinheiro Alves viria, naquela altura, para esta cidade, acompanhando Maria José, sua irmã mais nova, a fim de, com os ares de Viana, a menina curar-se da tuberculose pulmonar que, pouco depois, a vitimaria.
Veremos, como já vamos vendo, que essa não foi a razão. Nem da vinda, nem do regresso. Lá chegaremos.

Repare-se, para terminar, como Camilo, ainda no Porto, melhor, na Foz a banhos, e antes de tomar posse, procura já dirigir e redigir editorialmente o jornal. Não é pura cortesia quando diz que «o nosso forte na Aurora devem ser questões desta ordem, que prendem sempre com especialidades locais». E depois, aquela vontade, com uma vaidadezinha pessoal à mistura, de querer persuadir os parvos lá da invicta urbe, mesmo anonimamente, de que, cá por Viana, também havia uma notabilidade económica que escreve artigos tanto sobre temas sérios e complexos, como mais simples e triviais.

Entretanto, vamos lendo e entendendo.

Assim, até ao próximo, sim?!
E continue a (re)ler Camilo. Onde Está a Felicidade?, por exemplo.

Referências:
BARBOSA, Luís Xavier, [1919]: Cem Cartas de Camillo. Lisboa: Portugal-Brasil Limitada, Sociedade Editora.
CABRAL, Alexandre Cabral, 1984: Correspondência de Camilo Castelo Branco com os Irmãos Barbosa e Silva – I. (Escolha, prefácio e comentários de). Lisboa: Horizonte.
COSTA, Júlio Dias da, 1928: Dispersos de Camillo (Vol. IV). Coimbra: Imprensa da Universidade.

segunda-feira, 5 de junho de 2017

CAMILO &M VIANA
[1857: “velha” como “nova” (16)]


De graça deveriam ter sido as primeiras colaborações de Camilo no início d’A Aurora do Lima (1855). De graça e para agradecer. São conhecidos os muitos favores, com realce para os frequentes pedidos de dinheiro emprestado, que o filho da mãe incógnita Jacinta Rosa Almeida Espírito Santo (1799-1827) devia ao abastado amigo de Viana.
[Obs.- Abordei já o estado de «penúria» financeira de Camilo, entre 1850 e 1854, em RODRIGUES, 2013.]
Além de textos em prosa que, sob pseudónimos, saíram no jornal, a 29 de dezembro de 55, no seu n.º 6, o Escritor publica um poema, sem título, dedicado a José Barbosa e Silva (JBS). Poema que depois incluiu no volume de versos Ao Anoitecer da Vida. [BRANCO, 1874: 30-34. Encontra-se também em Folhetins de Camillo Castello Branco (2.ª Série), 1911: 56-59]

Não obstante, a 11 de janeiro de 1856, Camilo escreve ao solícito amigo uma carta. Dela transcrevo mais uma referência ao Aurora. É a

2.ª)
Tenho recebido 2 n[umer]os da Aurora do Lima – os últimos.
Lembrava-me dizer-te que, se me pagassem, escreveria para esse jornal 4 correspondencias-folhetins por mez, sobre cousas do Porto, tudo o q[ue] pode e deve ser folhetinisado. Gratuitam[en]te não posso; bem sabes que não escrevo por prazer nem p[or] gloria. As correspond[enc]ias podem interessar ca e la, e o jornal, se me não engana a vaid[ad]e, lucrará algumas assignaturas. Não sei. O caso é que as 4 correspond[enc]ias escrevo-as por 14:400 r[ei]s mensaes – enchendo os 3 lados. Como o jornal recebe de ti, se não collaboração, influencia de qualquer modo, propõe, e dá p[ar]te do resultado. Ca vou indo (isto é – heide ir indo q[uan]do poder) com as memorias do juiz eleito. A Aurora não publicou o prospecto?
{BARBOSA, [1919]: 5-6. Respeitada grafia da edição consultada,
com inclusão, porém, dos grafemas omissos. Também em CABRAL, 1984 (I): 97-98]}

É suficientemente claro e objetivo o contrato de colaboração jornalística que, através de JBS, Camilo propõe aos proprietários do Aurora. O Escritor trabalha, isto é, escreve, sabe do seu ofício e quer ser pago pelos serviços que prestará. Creio não serem necessários, por isso, outros comentários.
Farei, todavia, duas breves observações.
Primeira - Os três lados, que o jornalista se compromete a preencher, eram as três colunas de uma página, mancha de texto que o periódico tinha na altura.
Segunda – No final do excerto, o Escritor informa JBS que continua a escrever - quando pode ou puder - as memórias do juiz eleito. E, na sequência, pergunta (e queixa-se, indiretamente): «A Aurora não publicou o prospecto?» Camilo refere-se a Memórias d’Além da Campa dum Juiz Eleito, de que, abaixo, falarei um pouco. Em carta, de finais de dezembro de 55, para JBS, previa ser a sua grande obra. E pede, na mesma:

«Lê esse propescto, mostra-o aos rapazes, e, se os vires dispostos a rirem-se, inscreve-os: mas não peças favores.» {Em CABRAL, 1984 (I): 97. Respeitada a grafia da edição consultada. Não consta em BARBOSA [1919]}

O prospeto, segundo comenta Alexandre Cabral [ibid.], destinava-se à angariação de assinantes interessados na aquisição da projetada obra, ainda em curso de escrita. Obra que, todavia, começou a ser publicada, em folhetins, nos jornais portuenses A Verdade (entre 16 e 26/05/1856), com transcrição, n’O Nacional, logo no dia 17, informa Júlio Dias da Costa. Este douto camilianista compila e anota, nos Dispersos de Camillo, os folhetins que, sob o título «OBRA MONUMENTAL / MEMORIAS D’ALEM DA CAMPA D’UM JUIZ ELEITO», foram publicados n’O Nacional. Em 1864, o Jornal do Comercio, de Lisboa, inicia a publicação destas «Memórias». Saíram apenas três folhetins, em 30/01, 06 e 26/02.

O juiz eleito é José Liberato Freire de Carvalho (1772-1855), jornalista, escritor e político destacado. Deixou publicado, além de outros, o livro Memórias da Vida de José Liberato Freire de Carvalho (1854). [(Re)ver biografia] É baseado neste livro, «quatrocentas páginas insossas, que desservem a nomeada do seu author» - anota Camilo na pele de editor - que, em finais de 55 e princípios de 56, vai escrevendo as Memórias d’além da campa d’um juiz eleito. O projeto, todavia, não passou da meia dúzia de folhetins. Parece ter havido fortes pressões sobre os diretores dos três jornais para que não continuassem a sua publicação. [Cf. COSTA, 1925 (II): 460-500]

Como se sabe, Camilo, profissional orgulhoso que era das suas artes e ofícios, não escrevia para a gaveta. Sem outras fontes de rendimento e sustento, a escrita (jornalística, histórica e literária) era o seu único modo de vida. E de estar. E de ser.

Ao Aurora estas Memórias não dizem diretamente respeito. Por isso…

Até ao próximo!
E continue a (re)ler Camilo.

Referências
BARBOSA, Luís Xavier, [1919]: Cem Cartas de Camillo. Lisboa: Portugal-Brasil Limitada, Sociedade Editora.
BRANCO, Camillo Castello, 1874: A Anoitecer da Vida (Ultimos Versos). Lisboa: P[aulo] P[lantier].
CABRAL, Alexandre Cabral, 1984: Correspondência de Camilo Castelo Branco com os Irmãos Barbosa e Silva – I. (Escolha, prefácio e comentários de). Lisboa: Horizonte.
COSTA, Júlio Dias da, 1925: Dispersos de Camillo (Vol. II). Coimbra: Imprensa da Universidade.
FOLHETINS de Camillo Castello Branco (2.ª Série), 1911. Viana do Castelo: Archivo d’A Aurora do Lima.
RODRIGUES, David F., 2013: «Camilo e os irmãos Barbosa e Silva [04] / (A penúria do escritor, em cartas de cinco anos)»: http://e-ternoretorno.blogspot.pt/2013/12/camilo-viana-005.html

segunda-feira, 15 de maio de 2017

CAMILO &M VIANA
[1857: “velha” como “nova” (07)]


       Interrompo, hoje, as transcrições que, em cartas dirigidas a José Barbosa e Silva, Camilo faz referências a «D. Isabel Cândida (a freira)» [(re)ver RODRIGUES, 2017b - 2017e], para apresentar um «folhetim» que João Junior (pseudónimo do Escritor) publicou, há 160 anos, precisamente no dia 15 de maio de 1857, no jornal A Aurora do Lima (n.º 201).
           Recorde-se que Camilo se encontrava a residir em Viana do Castelo, onde tinha chegado na tarde de 7 de abril daquele ano, para - segundo a notícia da sua chegada, publicada no dia 8 de abril do Aurora- tratar da saúde e dar a sua colaboração às páginas deste periódico. [(Re)ver RODRIGUES, 2017] A seu tempo,  porém, dedicarei os "posts" possíveis e necessários às relações do romancista com o mais antigo jornal português em circulação.
           
          O «folhetim» camiliano que vai ler, paciente leitor, é uma deliciosa crónica, irónica e picaresca. O seu suposto autor tártaro - Jules Janin de Kaschgar [leia em voz alta este nome], mas que acaba por assinar Cong-futzeu-Ram-Mokun - faz a descrição de um tipo de mulher - «a chata» - embora identifique quatro, como verá, mas que não chega a descrever. Infelizmente, comento eu!

           Ora cá vai o

FOLHETIM(*)
(Traduzido d’um jornal da Tartaria.)
O QUE É A MULHER?

       Authores, embalados no berço da humanidade, fallam da mulher, e provam que o amor, se não é mais velho, é pelo menos contemporaneo dos narizes.
       Herodoto, cognominado «o pai da historia» no seu Livro 1.º, intitulado Clio, diz que os persas roubaram uma leôa grega, chamada Europa; os gregos, em despique, roubaram Medéa; e o filho de Priamo desforrou os seus roubando a janota Helena.
       D’onde eu, folhetinista tártaro, mais ou menos emético, concluo, por concluir alguma cousa, que o amor é mais velho que Herodoto; e as tolices, por cauza do dito, são tão velhas que já não póde fazer-se uma com originalidade.
       Ácerca da muita sommas de bordoada, que a antiguidade deu e levou por causa do femeaço implamado, diz o citado Herodoto com grande tino:
       «Tolos são os que se occupam de vingar os raptos do mulherio; é de ajuizados não ir em cata d’ellas, porque claro é: se ellas não quizessem ir, não iam.» Tambem me parece.
       Dês que li isto no velho patarata de Halicarnasso, fiquei entendendo que o homem era cá dos meus, e poderia, com a leitura d’alguns romances, ser um soffrivel folhetinista.
       O cazo é que o amor é coevo do primeiro cazal de bichos, cujo oriundos somos.
       As mulheres são a ôlha deste grande pote em que ferve a humanidade. O pensamento é meu. A expressão será broeira, mas a idéa é fina. Vai vestida com a simpleza attica, rude e francamente grega, como Homero veste as suas.
       Sacrifico as conveniencias á meia-nudez do pensamento. Abomino a frandulage de louçainhas d’adêlo, e pinchebeques com que se descaracteriza o espirito, ao mesmo tempo que a materia, damninha e tentadora, anda por ahi tão nua e a geito de ruins pensamentos, que não há furtar-se a gente ás aboizes do demonio.
       Vinha eu definindo a mulher, e queria dizer que… (vá á moderna…) que a mulher é o sublimado… corrosivo da materia organica.
       Parece-me sandia a methaphora, assim Deus me salve; mas á moderna é aquillo, ou senão isto: «A mulher é o creme do leite ordinhado nos seios uberrimos da idéa-mãi.» E para não sahir dos lacticinios, a definição sahiu-me a nata do purismo romantico, ou eu sou um parvoinho superior ao meu alcance.
       Provado que a mulher está para o homem na relação do homem para o urso, convém saber quantas variedades há de mulheres.
            1.ª A mulher chata.
            2.ª A mulher redonda.
            3.ª A mulher bicuda.
       Regeito a 4.ª variedade – mulher quadrada, porque até hoje não a descobri na natureza.
       Nesta classificação não sei se entra a plastica, ou a asneira. O que sei é que o meu espirito concebe a figura geometrica da idéa que me foge, como lampreia, d’entre as unhas da expressão esthetica.
       A mulher chata é a que não tem mais alma que uma abobora-porqueira, e aloja quatro estomagos como o camelus dromedarius de Linneu.
       A mulher chata ama, em tempo competente, dos quinze até aos vinte e cinco annos; depois fecham-se as valvulas. Até então, o sangue ferve-lhe irrequieto nas arterias, e ella acceita um qualquer marido como uma garrafada de sulfato de quinino com que a febre se lhe acalma.
       Esta sazão crytica manifesta-se com movimentos peristalticos, saltos, e cabriolas como as da tartaruga sedenta d’amor. A tartaruga, porém, é superior á mulher chata, porque faz um caldo saboroso: diga-se de passagem.
       A mulher chata, considerada no sei intellecto, não sabe lêr lettra de mão, e soletra de cócoras ás criadas as chulices metricas do Reportorio do preto, com que chora a rir, e dá palmadas de jubilo nos jarretes das suas pernas, e nos das moças. 
       O marido – regra sem excepção – é um palerma inoffensivo, que desperta ao estridor da gargalhada, e entra logo a rir-se, pondo-se á fisga d’uma pulga que o morde de embuscada no joanête n.º 4 do pé direito. A pulga escôa-se por entre os dedos esponjosos do caçador, e pincha para o embrulho das moçoilas, que pegam a gritar, sacudindo-se, e o amo a sacudir tambem a piuga, e a ama a rir, a rir, de modo que a mulher chata, nesse momento, é a creatura mais afortunada do mundo. 
       Este quadro repete-se um inverno successivo, e dá sempre enchentes de rizos e guinchos.
       A mulher chata tem quasi sempre as costas abauladas, e a barriga sae-lhe do seio flacido como um promontorio, ao sopé do qual ruge sempre a tormenta dos intestinos.
       O seu coração, humanamente fallando, é um bocado de furçura, e mais nada.
       A mulher chata, ordinariamente, morre de setenta a setenta e sete annos, voltando das caldas, onde teve de infusão uma perna coixa que um ar ruim lhe tolhêra.
       O que depois lhe acontece não sei ao certo; porém como philosopho sectario da eternidade da materia, e por isso mesmo convicto de que as methamorphoses se operam, subindo um elo na escala da perfectibilidade organica – creio que a mulher chata passa a mulher redonda.
       E da que hade tractar-se.

Cong-futzeu-Ram-Mokun.

       (*) Traduzimos para que se veja o atrazo da litteratura tártara. Uma colonia de litteratos portuguezes, estabelecidos em Macau, poderiam haurir grandes proveitos do folhetim, que hoje começa a ser moda na Tartaria. O author do que vai lêr-se (que desgraça!) é o Jules Janin de Kaschgar, cidade concideravel dos tartaros Kalmouks.


Nota de João Juniro - traductor.

[Reproduzido em COSTA, 1926: 43-46. Respeitada a grafia da edição consultada, que reproduz a grafia do Aurora. Também em MOUTINHO, 2017: 271-273.]


Referências:
COSTA, Júlio Dias da, 1926: Dispersos de Camilo. Vol. III - Crónicas (1857-1885). Coimbra: Imprensa da Universidade.
MOUTINHO, José Viale (org.): Camiliana 4 - Crónicas, textos polémicos e artigos escolhidos. S/l: Círculo de Leitores.
RODRIGUES, David F., 2017: «CAMILO &M VIANA / [1857: “velha” como “nova” (01)»:http://vianacamilo.blogspot.pt/2017/04/camilo-viana-1857velha-como-nova-01.html
----------------, 2017a): «CAMILO &M VIANA / [1857: “velha” como “nova” (02)»:http://vianacamilo.blogspot.pt/2017/04/camilo-viana-1857-velha-como-nova-02.html
-----------------, 2017b): «CAMILO &M VIANA / [1857: “velha” como “nova” (03)»:http://vianacamilo.blogspot.pt/2017/04/camilo-viana-1857-velha-como-nova-03.html
-----------------, 2017c): «CAMILO &M VIANA / [1857: “velha” como “nova” (04)»:http://vianacamilo.blogspot.pt/2017/04/camilo-viana-1857-velha-como-nova-04.html
-----------------, 2017d): «CAMILO &M VIANA / [1857: “velha” como “nova” (05)]:  http://vianacamilo.blogspot.pt/2017/05/camilo-viana-1857velha-como-nova-05.html
-----------------, 2017e): «CAMILO &M VIANA / [1857: “velha” como “nova” (06)]: http://vianacamilo.blogspot.pt/2017/05/camilo-viana-1857-velha-como-nova-06.html