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terça-feira, 1 de agosto de 2017

CAMILO &M VIANA
[1857: “velha” como “nova” (36)]


Mais uma carta de Camilo para José Barbosa e Silva (JBS). Ambos os compiladores (Luís Xavier e Barbosa e Alexandre Cabral) a datam de 14 de novembro de 1856. Trata-se, a meu ler, de mais um documento importante sobre as relações do Escritor com o jornal A Aurora do Lima. Revela, ainda, a idiossincrasia e as condições de vida do polígrafo autor, como homem e profissional das letras. Transcrevo-a, por isso, na íntegra. Acompanhá-la-ei, apenas, das notas que considero indispensáveis. Este “post”, todavia, não será leve.
Eis, pois, a referência

19.ª)
MEU CARO BARBOSA

Uma franqueza paga-se com outra.
Tens notado arrefecimento na m[inh]a collaboração para a Aurora do Lima. Não tem sido arrefecim[en]to, é necessidade, e necessidade das mais villans e prosaicas – a dos meios – a subsistencia que depende do trabalho, e nao tem outra fonte, como sabes.
Eu tenho entre mãos um romance principiado na Verdade, ainda em meio, e já vendido. Tenho uma versão dos 5 primeiros l[ivr]os do Tito Livio, incomenda de 7 meses, e apenas principiada. Tenho os folhetins do C[lamor] Público, que me escripturou 3 vezes p[o]r semana, e quase me obriga a escrever diariamente.[1]
E’ necessario renunciar a uma d’estas cousas, por que ha incompatibilid[ad]e de tempo, não posso tanto, e ainda q[ue] podesse não estou resolvido a suicidar-me d’este modo. Antes trôlha.
Renunciando, p[o]r exemplo, á versão latina para escrever com m[ui]to mais prazer na «Aurora do Lima» é vergonha confessal-o, mas eu estou como os operarios que precisam ser pagos em dia. Quando te propuz a venda do romance, estive p[ar]a pedir-te que m’o fizesses logo pagar, para eu dar ao Cruz Cout[inh]o 50$ r[éi]s q[ue] tinha recebido adiantados p[o]r conta do Tito Lívio, e dizer-lhe q[ue] me era impossível escrever a obra. Vê tu como em Portugal está illaqueado um dos escriptores que m[ai]s trabalha. [2]
Vendo que a empresa da Aurora não julgava urgente a m[inh]a paga, vi-me forçado a desviar a attenção para outras cousas, por q[ue] as minhas precisões são d’aquellas que se sentem todos os dias, e não podem espaçar-se. As m[inh]as despesas triplicaram. Alluguei caza, mobilei-a, tenho a pequena n’um collegio, etc., etc. E’ franqueza de m[ai]s, mas tu exigiste-m’a. [3]
Acceito a paga dos 20$ r[éi]s mensaes. Escreverei o m[ai]s e m[ai]s variadamente que possa. (Antes que me esqueça o A. Ferr[eir]a ficou contente com a remessa do jornal – e faz a assignatura).
Se é possivel adiantarem-me o preço do romance p[ar]a eu me desquitar com o Cout[inh]o, é um grande auxílio; se não, esperarei. [4]
Tens entendido bem esta carta? Só a tua amisade me provocaria a revellar-te cousas que vexam a m[inh]a vaidade. Quando me dizem cousas e lousas do meu talento… e me vejo obrigado a escrever cartas destas…
Ad[eu]s. Recados a teus manos e ao S[ebasti]am de S[ou]za. [5]

N. B.

Amanhan receberás originaes. [6]
(Porto, 14 de Novembro de 1856)

  Teu Camillo.

{BARBOSA. [1919]: 25-26. Também em CABRAL, 1984 (I): 131-132.
Respeitada grafia da edição consultada.
Na transcrição, desenvolvi formas abreviadas.}

[1] O romance, ainda em publicação no jornal A Verdade, e já vendido, deve ser, segundo Alexandre Cabral [1984 (I): 132], Lágrimas Abençoadas. Sobre a colaboração e as relações de Camilo com o Verdade e o Clamor, periódicos portuenses, (re)ver “post”, entre outros.
Os cinco primeiros livros do Tito Lívio (59 a.C. – 17 d.C.), em tradução, deveriam ser da obra monumental Ab Urbe Condita Libri (Livros desde a Fundação da Cidade). Geralmente designada por Ab Urbe Condita e traduzida por História de Roma, era constituída por 142 livros, repartidos por décadas ou grupos de dez livros. Dos 142, só  35 restam: 1 a 10 e 21 a 45. [Ver AQUI]

[2] António Rodrigues da Cruz Coutinho (1819-1885): «Foi porventura um dos primeiros editores que assegurou a Camilo um trabalho estável, apesar das suas relações terem sido de curta duração: de 1856 a 1859. Durante esse lapso de tempo publicou: Onde Está a Felicidade? [romance], em 1856; Espinhos e Flores [drama], em 2.ª ed., e O Purgatório e o Paraíso [drama], em 1857; A Vingança, O Que Fazem Mulheres e ainda, em 2.as edições, Anátema [romance], A Filha do Arcediago [romance] e Duas Horas de Leitura [narrativas], esta aumentada, em 1858. [CABRAL, 20032: 264.]

[3] Casa e mobília: (re)ver “post”.
Pequena em colégio: trata-se de Bernardina Amélia [1848-1931], filha natural de Patrícia Emília de Barros [1826-1885] e de Camilo [(re)ver “post”, entre outros]; quanto ao colégio, cito, para, logo depois, advertir para lapsos cometidos pelo seu autor:

«Por carta dirigida a José da Silva Barbosa, de Viana, em finais de Janeiro de 1857 sabemos que Bernardina Amélia estudava no Colégio das Taipas; em outra carta de 1 de Abril do mesmo ano, Camilo diz que ela está em casa de D. Eufrásia. / Finalmente, deu entrada no Convento de S. Bento da Avé Maria, como educanda de madre Isabel Cândida Vaz Mourão, com quem Camilo mantinha idílio amoroso.» [FIGUEIRAS, 2002: 18/19]

Lapsos: (i) o destinatário vianês destas cartas chamava-se José Barbosa e Silva e não José da Silva Barbosa; (ii) «em finais de Janeiro de 1857», Camilo, nas cartas enviadas a JBS, não se refere à pequena nem ao colégio onde ela estudava. Fá-lo, sim, em duas cartas de finais de 1856: uma, datável de 14 de novembro – transcrita acima, neste “post” – e outra, datável de 15 de dezembro – a transcrever em próximo.  Em nenhuma delas, porém, menciona o nome do colégio, como se leu e lerá; (iii) a freira Isabel Cândida não seria madre, mas simplesmente soror/irmã; (iv) os biógrafos camilianos indicam que o colégio, onde Camilo tinha a filha, era o convento da Avé Maria, sob a educação e proteção de Isabel Cândida. [(Re)ver, entre outros, “post” 08.]

[4] Camilo aceita a contraproposta que, em nome do Aurora do Lima, JBS lhe terá enviado, sobre a edição, em livro, do romance, isto é, de Cenas da Foz e, ao mesmo tempo, o pagamento da mensalidade pelas colaborações (incluindo os folhetins destas Cenas). [(Re)ver “post”]
A. Ferreira é «seguramente […] Augusto Ferreira», informa Alexandre Cabral, acrescentando que este novo assinante do jornal vianês fora «referenciado por Camilo, sob o pseudónimo de João Júnior, no n.º 149 d’A Aurora do Lima (de 13/XII/1856).» E fornece mais informações sobre este portuense, amigo dos dois amigos. [CABRAL, 1984 (I): 132]

[5] Sobre Sebastião de Sousa, (re)ver “post”.
A propósito dos recados aos manos, cabe referir que, em carta datada de 9 de novembro, Camilo enviara condolências a JBS pela morte, ocorrida no dia 3, de José Duarte Xavier Torres e Silva. Este era cunhado dos Barbosa e Silva, marido de Maria Cândida Barbosa e Silva [1822-1908]. Luís Xavier Barbosa [1849-1925], o compilador das Cem Cartas de Camilo, era seu filho, que não transcreveu a carta camiliana de condolências pela morte do progenitor. [Cf. CABRAL, 1984 (I): 129-130 e VASCONCELOS, 1999]

[6] Que originais? Certamente folhetins da continuação de Cenas da Foz, no Aurora do Lima. Mas também outros textos: artigos, correspondência (cartas) e poemas. Tudo isto até 15 de dezembro de 56, data em que, segundo a transcrição de Alexandre Cabral, Camilo volta a corresponder-se com JBS. [Cf. CABRAL, [1984 (I): 134]
Às colaborações de Camilo, neste periódico vianês, hei de dedicar, oportunamente, artigo(s) e/ou “post(s)”.

Entretanto, até ao próximo! Com a transcrição integral de mais uma carta de Camilo para José Barbosa e Silva.
E continue a (re)ler Camilo!

Referências:
BARBOSA, Luís Xavier, [1919]: Cem Cartas de Camillo. Lisboa: Portugal-Brasil Limitada, Sociedade Editora.
CABRAL, Alexandre Cabral, 1984: Correspondência de Camilo Castelo Branco com os Irmãos Barbosa e Silva – I. (Escolha, prefácio e comentários de). Lisboa: Horizonte.
------------, 20032: Dicionário de Camilo Castelo Branco. Lisboa: Caminho.
FIGUEIRAS, Paulo de Passos, 2002: Cartas Inéditas de Camilo Castelo Branco à Filha Bernardina Amélia, ao Genro e à Neta. Porto: Universidade Fernando Pessoa.
VASCONCELOS, Maria Emília Sena de, 1999: «Velhos vultos de Viana». Cadernos Vianenses, Tomo XXV. Viana do Castelo: Câmara Municipal de Viana do Castelo; pp. 45-54.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

CAMILO &M VIANA
[1857: “velha” como “nova” (27)]


Afinal, quem transigiu não foi ela, foi ele. [(Re)ver post anterior]
O leitor já conhece esta carta de Camilo para José Barbosa e Silva (JBS). Foi transcrita no “post” de 12/05. Aí, para (continuar) a mostrar as relações amorosas existentes entre o Escritor e a freira D. Isabel Cândida Vaz Mourão. Aqui, depois de (re)ler, hoje, esse importante documento, tecer, em “post(s) futuro(s), os comentários julgados convenientes, mais diretamente relacionados o jornal A Aurora do Lima e o seu desejado e interessado novo redator.
Neste sentido, a referida carta é, agora, a referência

11.ª)

MEU CARO BARBOSA. 

Cauza-te espanto uma carta m[inh]a depois de outra q[ue] hontem receberias? Tamb[e]m a mim me maravilha escrever-t’a. São 11 horas da noite, e chego do Porto, com estes restos de coração atravessados n’uma roda de navalhas. É o caso:
Eu nunca disse a Izabel Candida as m[inh]as intenções a resp[ei]to de ir p[ar]a Vianna, p[o]r que previa o abalo, e receava os efeitos p[o]r ella e p[o]r mim, que sou um imbecil, quando sou cauza e ao m[es]mo tempo testemunha d’uma grande dor. Era m[inh]a tenção deixal-a recolher ao convento, e depois ca de fora escrever-lhe uma carta, longam[en]te meditada, de modo que o golpe fosse dado com punhal d’um só gume: isto é – tencionava mentir-lhe, dizendo q[ue] a minha hida era simplesmente uma tentativa p[ar]a o melhoram[en]to da m[inh]a saúde.
Hoje, indo eu levar-lhe m[inh]a filha, que se achava aqui há 3 dias, recebeu-a chorando, sem querer dizer-me a razão p[o]r que. Muito instada, prorompeu n’uma acusação quase virolenta á m[inh]a ingratidão, e acabou p[o]r me dizer q[ue] sendo ella a m[inh]a amiga era a ultima q[ue] devia saber que eu sahia do Porto. Da violência passou para a mansidão das lagrimas suplicantes, e por fim acabou por ser assaltada d’um terrivel incommodo que me assustou. N’este estado, foi-me impossível dizer-lhe uma so palavra de consolação. M[inh]a filha chorava, e o medico Ferr[ei]ra que eventualmente occorreu n’este ensejo, fez-me sentir que a organização enfraquecida da pobre m[ulh]er podia facilm[en]te succumbir a semelhante choque. Eu estava parvo, e parvo sahi quando a noite já adiantada me obrigou.
Aqui tens uma situação bem especial – uma das mi[nh]as deabolicas situações, em q[ue] o coração revive em toda a compaixão q[ue] as m[inh]as proprias desgraças não tem podido desvanecer p[ar]a] com os outros. Isto é uma fatalid[ad]e de q[ue] não ha partido a tirar. É-me impossivel, já agora, ser meu. Ha de haver sempre em mim um pensam[en]to bom q[ue] me escravize ao mal. Sou como aquelle que mede a profundid[ad]e do abysmo, e não tem a resolução de recuar.
Vamos remediar d’algum modo isto meu caro Barbosa. Eu adevinho q[ue] a tua boa alma não é estranha aos sentim[en]tos da minha. D’estes sabes tu sentil-os melhor q[ue] eu. Penso até que m’os louvas, e serias o primeiro a dizer-me «não desampares essa pobre m[ulh]er, que tem contra ella a id[ad]e a dizer-lhe que os seus annos já não podem vencer os calculos d’um homem»[.] Isto é duro, e chora-me o coração figurando-me a alma de I[sabel] Candida, q[ue] não tem em si recursos p[ar]a a defeza d’uma ingratidão. Como poderemos remediar isto? Ha um modo q[ue] tu recuzarás, mas eu não deixo p[o]r isso de t’o propor. Eu serei d’aqui redactor do teu jornal. Uma simples carta tua com poucas palavras será sufficiente inspiração p[ar]a artigos especialmente consagrados ao Destricto. Mandarei regularm[en]te 3 artigos politicos-economicos p[ara] o jornal, e 3 correspondencias que devem substituir as do Novaes, que eu acho m[ui]to inferiores a uma patacoada. Alguns extractos e correspondencias bastarão p[ar]a encher dignam[en]te a folha. Se, todavia, p[o]r q[u]alq[ue]r consideração, não queres apear o Novaes, eu escreverei m[ai]s q[ue] os 3 artigos, e forjaria uma apparente correspondencia de Lx.ª [Lisboa][.] Convencido estou de q[ue] a m[inh]a assistencia ao pe do jornal não o tornaria p[o]r isso mais lido nem m[ai]s em dia, n’uma terra onde é reflexiva a politica, e donde d’um dia p[ar]a o outro tu me avisas dos pontos em q[ue] convem tocar.
Não sinto precisão de te dizer m[ai]s[.] Tu é que me deves escrever logo q[ue] resolvas, na certeza de q[ue], p[o]r um motivo m[ui]to nobre, terei grande pezar q[ue] recuzes. Devo dizer-te q[ue] me contento, em paga, com a q[ue] darias a qual[que]r redactor que p[ar]a ahi fosse. Pareceu-me dever notar isto como uma circumstancia que te faria pensar alguns instantes.

(Foz, 11 de Setembro de 1856)
                                                                       Teu Camillo
[Barbosa, [1919]: 16-19.  Respeitada grafia da edição consultada.
Também em Cabral, 1984 (I): 117-119]

        Então, até ao próximo!
         E continue a ler Camilo! Por exemplo, Carlota Ângela, romance originalmente publicado em Viana do Castelo, no Autora do Lima, em folhetins e depois em livro (1858). Nele encontrarão uma «soror Rufina», do Convento de S. Bento da Avé Maria, uma «religiosa ilustrada» e uma «senhora tolerante».

Referências:
BARBOSA, L. Xavier, [1919]: Cem Cartas de Camillo. Lisboa: Portugal-Brasil Limitada, Sociedade Editora.
CABRAL, Alexandre, 1984: Correspondência de Camilo Castelo Branco com os Irmãos Barbosa e Silva - I. (Escolha, prefácio e comentários de). Lisboa: Horizonte.

quarta-feira, 24 de maio de 2017

CAMILO &M VIANA
[1857: “velha” como “nova” (10)]


A freira que, em 1855, quis gozar, na companhia de Camilo, o mês de setembro, nas vizinhanças de Viana; a freira que, um ano depois, tentou impedir que este ainda seu amante viesse para esta cidade e aqui ocupasse o cargo, remunerado, de redator do jornal A Aurora do Lima; a freira que, via seu amigo querido, estabeleceu amizade com os dois filhos mais novos da família Barbosa e Silva, tornando-se interessada leitora de Viver para Sofrer, romance do mais jovem, o José; a freira que, durante anos, foi dedicada e generosa precetora de Bernardina Amélia, filha natural da relação adulterina entre Camilo e Patrícia Emília; a freira que, terminada a paixão amorosa e o convívio direto com o ex-amante, continuou sua amiga, apesar de ele se ir afastando cada vez mais dela; a freira de quem, no “post” anterior, fiz uma breve biografia, baseado, apenas, nas informações colhidas nas cartas que o Escritor enviou ao seu grande amigo vianês José Barbosa e Silva (JBS); a freira que...
Isabel Cândida Vaz Mourão é o seu nome completo.


Isabel Cândida era irmã professa do Convento de S. Bento da Avé Maria. O mosteiro situava-se, antes de ser demolido (finais do séc. XIX), onde se encontra a atual estação ferroviária central do Porto (S. Bento), construída nos princípios do séc. XX.
Das várias consultas bibliográficas efetuadas sobre esta monja beneditina, não consegui apurar datas de nascimento e morte, de ingresso e profissão na ordem, nem a naturalidade, nem, mesmo, os nomes dos pais. O processo sobre a sua vida religiosa desapareceu. Alguém se encarregou (ou foi encarregado) de o destruir. E com ele, ter-se-ão perdido dados sobre a sua vida. Uma coisa é evidente: foi o seu amor a Camilo e à Bernardina Amélia que salvou do anonimato esta religiosa.

Isabel Cândida não foi, como já o paciente leitor deduziu, uma soror exemplar. Respeitaria pouco as regras monásticas. Terá sido repreendida, assim, por mau comportamento. Mas dizem os biógrafos de Camilo, quando acerca dela escrevem, que era uma freira rica, em moeda e bens, culta, que gostava de fazer versos e de conversar com poetas e folhetinistas. Mas não só. Manuel Tavares Teles, ao descrever o «estatuto social» do abastado e maduro brasileiro portuense Manuel Pinheiro Alves (1807-1868), anota, em rodapé (com base no Periódico dos Pobres do Porto, de 29/09/1851) a «coincidência curiosa» de os «dois primeiros directores» da Fundição Bicalho terem sido Bento Luís Ferreira Carmo, que foi amante da freira Isabel Cândida Vaz Mourão, e Manuel Pinheiro Alves, que foi marido de Ana Plácido.» [TELES, 2008: 181. Respeitada grafia da edição consultada.]

Não encontrei fotografias de Isabel Cândida. Houve, porém, um autor que, tendo-a conhecido pessoalmente, dela nos deixou um singular retrato. Alberto Pimentel (1849-1925), «amigo devotado de Camilo (com quem privou intimamente)» e de quem foi o «primeiro biógrafo» [CABRAL, 20032: 605], revela ter-se encontrado, desde os 15 anos (1865), com a freira. Conta ele que, em consequência do casamento de Bernardina Amélia (1865), a jovem noiva abandonou o convento e a religiosa passou a ser professora de uma sua prima, Aureliana Coelho Bragante. E Alberto Pimentel acrescenta:

«Muitas vezes acompanhei minha mãe e irmãs em visita áquela nossa parenta, que nos recebia na grade com a freira e nos regalava com rebuçados e bonbons. Outras vezes eramos convidados a ir lá almoçar e então tambem ia comnosco meu pai, que salvara minha prima em doenças graves e tinha mais clientes de partido naquela comunidade. [//] Minha prima estimava ver-se rodeada de parentes, ria de vontade com os ditos de meu pai […], e a freira D. Isabel Cândida conversava com animação e espirito, contando casos do convento e casos da cidade, como se conhecesse estes tão bem como aqueles.»

E logo de seguida, dá os retoques finais no retrato da mãezinha (tratamento que as educandas davam às monjas educadoras) da prima:

«Mas a freira era velha e feia, trigueira, angulosa e alta, tinha a voz forte, um nariz respeitável, e sombras de buço.»

O devotado biógrafo do Escritor estranha, por isso, que «aquela mulher, tão balda de encantos feminis, pudesse haver inspirado atenções afectuosas […] a um homem superior […] como Camilo Castelo Branco. [PIMENTEL, 1921: 26-28. Respeitada grafia da edição consultada.)
Contudo, foi o que aconteceu. Reciprocamente, embora esteja convencido de que, na balança deste amor, o prato da freira pesasse mais que o de Camilo.

Os biógrafos situam o início das relações entre Isabel Cândida e Camilo, em outubro de 1850. Viram-se no abadessado ou outeiro dos dias 21 a 24 daquele mês. Festejava-se, no mosteiro, a reeleição da abadessa Ana Delfina de Andrade. [CABRAL, 1918: 96 e PIMENTEL, 1899: 145]. António Cabral, citando local publicada, a 26, n’O Jornal do Povo, diz que, naqueles dias de festa, com doces e vinhos servidos pelas criadas do convento, foram «notadas as bellas poesias que recitaram os srs. Correa Leal, Camillo Castello-Branco, [António Joaquim Xavier] Pacheco, [José Maria] Vieira e [António Frutuoso] Ayres de Gouvêa [Osório]». [CABRAL, 1918: 96. Não consegui precisar o poeta Correa Leal.] As freiras não se misturavam com os poetas. Assistiam das grades ao sarau, lançando motes que eles desenvolviam, improvisando.

Na coletânea de poemas Inspirações, publicada em 1851, Camilo inclui um poema dedicado «À Illm.ª e Exm.ª Snr.ª / D. ANNA DELFINA D’ANDRADE. / ABADESSA RE-ELEITA / - Improviso - / No Mosteiro de S. Bento da Ave Maria da Cidade / do Porto, em Outubro de 1850» [BRANCO, 1851: 78. Respeitada grafia da edição consultada.]


Isabel Cândida foi mais que uma segunda mãe, para a filha natural de Patrícia Emília e Camilo, então jovens amantes (pouco mais teriam que vinte anos de idade). A religiosa, terminada a relação amorosa com o Escritor, continuou, todavia, a educar e a acompanhar, de perto, tanto dentro como fora do convento, Bernardina Amélia. Até 29 de dezembro de 1865, dia em que a jovem, com apenas 17 anos, casou com o abastado capitalista, regressado do Brasil, António Francisco de Carvalho. A freira tratou de tudo. Através de carta [cf. PIMENTEL, 1890: 103], em que relevava as qualidades e o estatuto social do noivo, Isabel Cândida, em nome da Bernardina, pede à mãe natural da filha de Camilo que autorize o matrimónio. Camilo opôs-se. Em vão.
O Escritor não se encontrava ainda recuperado, física, psicológica, social e economicamente do processo de adultério e divórcio, desencadeado, em 1860, pelo marido de Ana Plácido. O escandaloso caso em que o pai da noiva se tinha envolvido terá pesado na decisão da freira, em escrever à Patrícia Emília, que entretanto passara a viver com um novo companheiro, Francisco José Claro, em Vila Real.

É sabido que Camilo não aprovou, de início e durante anos, que a filha casasse com o abastado brasileiro, devido à diferença de idades, como confessa em carta que, datável de 20 de julho de 1874, dirigiu ao Visconde de Ouguela (Carlos Ramiro Coutinho, 1830-1897):

«Amanhã vou ao Porto para acompanhar a minha filha e a minha neta à Póvoa. Não sei se sabes que tenho uma filha e uma neta. O meu genro é um argentário maior de 50 anos e de 200 contos. Impugnei este casamento, há 9 naos, receando que a diferença entre 16 e 40 anos abrisse um abismo entre os cônjuges. Felizmente que a minha filha saiu uma criatura angelical, e o marido é um excêntrico que a tem levado a viajar. Nunca falei com ele, desde que o vi em 1849, sair para o Brasil. Era filho de um desembargador. Levou 20 contos do seu património, e voltou rico. Viu a pequena na grade de um convento, e pediu-a a uma freira que ele presumia ser mãe da noiva. Como eu me opusesse ao casamento, solicitaram a licença da verdadeira mãe que existe em Vila Real, e casaram-se. Passados anos, fui, muito instado, ver a minha filha a uma quinta que habitava nos arrabaldes do Porto. Recebi-a na minha sege, e não lhe entrei em casa. Agora, creio que falarei com o marido, atendendo a que ele quis que a sua filha se chamasse Camila. É uma trigueirinha engraçada. Diz o Jorge que sendo eu avô dela, vem ele Jorge a ser o pai. Isto parece racional.»
[MATOS, 2012: 164-165. Excerto. Respeitada grafia da edição consultada.]

Creio não ser necessário comentar. Apenas recordar que Jorge é o filho, doente metal, de Camilo e Ana Plácido.
Até ao próximo!

NB – As fotografias são arranjo de outras colhidas em Google / Imagens / Convento de S. Bento da Avé Maria e Bernardina Amélia Castelo Branco.

Referências e outra bibliografia consultada:
BARBOSA, L. Xavier, [1919]: Cem Cartas de Camillo. Lisboa: Portugal-Brasil Limitada, Sociedade Editora.
BRANCO, Camillo Castello, 1851: Inspiraçoens. Porto: Typographia de J. J. Gonçalves Basto.
CABRAL, Alexandre Cabral, 1984: Correspondência de Camilo Castelo Branco com os Irmãos Barbosa e Silva – I. (Escolha, prefácio e comentários de)- Lisboa: Horizonte.
------------, 1984: Correspondência de Camilo Castelo Branco com os Irmãos Barbosa e Silva e com Sebastião de Sousa– II. (Escolha, prefácio e comentários de)- Lisboa: Horizonte.
------------, 20032: Dicionário de Camilo Castelo Branco (ed. Revista e aumentada). Lisboa: Caminho.
CABRAL, António, 1918: Camillo Desconhecido. Lisboa: Livraria Ferreira, Lda.
FIGUEIRAS, Paulo de Passos, 2010: «Camilo e Ana Plácido – Alguns factos inéditos da sua vida». Cadernos Vianenses, Tomo 44. Viana do Castelo: Câmra Municipal de Viana do Castelo; pp. 229-255.
MATOS, A. Campos, 2012: Camilo Íntimo – Cartas inéditas de Camilo Castelo Branco ao visconde de Ouguela. (Pref. de […] e posf. de João Bigotte Chorão). Lisboa. Clube do Autor.
pIMENTEL, alberto, 1890: O Romance do Romancista – Vida do Camillo Castello Branco. Lisboa: Francisco Pastor.
------------, 1899: Os Amores de Camillo (Dramas intimos colhidos na biografia de um grande escriptor). Lisboa: Libanio & Cunha
------------, 1921: O Torturado de Seide (Camilo Castelo Branco). Lisboa: Livraria de Manoel dos Santos.
RIBEIRO, Aquilino, 1961: O Romance de Camilo (3 vols.). Bertrand: Amadora.
TELES, Manuel Tavares, 2008: Camilo e Ana Plácido - Episódios ignorados da célebre paixão romântica. Porto: Caixotim.

CORRIGENDA (02-06-2017) - A "criança" Bernardina Amélia, reproduzida na fotografia acima, teria 5 e não ao anos. Peço desculpa.

segunda-feira, 22 de maio de 2017

CAMILO &M VIANA
[1857: “velha” como “nova” (09)]


O paciente leitor deste blogue já construiu, estou certo, um retrato de «D. Isabel Cândida (a freira)». Fê-lo, segundo desejei, a partir da leitura das cartas que, longa ou ocasionalmente, à religiosa se referindo, Camilo enviou a José Barbosa e Silva (JBS). Mas se, além disso, a sua natural sede sobre a vida desta conventual e suas relações com o Escritor foi saciar também a outras fontes, permita-me que o felicite por isso.

Ressalta da leitura das 14 referências epistolares transcritas (sobretudo das três cartas integrais, sem, contudo, menosprezar os 11 fragmentos), que Isabel Cândida era uma freira, economicamente abastada. Pertencia a uma determinada ordem religiosa, cujo convento se situava na cidade do Porto. Passaria, porém, dias mais ou menos prolongados fora do convento, em propriedade(s) que possuiria na cidade e/ou arredores. Segundo os estatutos da ordem monástica a que pertencia, não podia demorar-se em estalagens. Mas ela era rica, gostava de passear e conviver. Estanciava, por isso, em casas que arrendaria noutras localidades, acompanhada dos seus criados, onde confraternizaria com os amigos que a visitavam.

 Um desses amigos foi, como lemos, Camilo. Os contactos entre ambos estabelecidos aprofundou a amizade entre ambos: enamoraram-se e tonaram-se amantes. Fruto das conversas que foram tendo sobre as vidas passadas de cada um e eventuais projetos de vida futura, Camilo há de ter revelado à apaixonada freira que era pai natural de uma menina. Esta revelação terá despertado os sentimentos de maternidade na amante e, ao mesmo tempo, fortalecido o amor que dedicava ao Escritor. Isabel Cândida ter-se-á oferecido, então, para educar a filha do amante –  Bernardina Amélia – acolhendo-a no convento e nas suas propriedades seculares.

A paixão entre a freira e o Escritor terá atingido um dos seus pontos altos em 1855, ano em que ambos estiveram para vir gozar o mês de setembro em Viana do Castelo, com passeios pelo Minho e animadas conversas literárias, juntamente com JBS, na hospedaria vianesa Cara de Pau, onde Camilo ficaria instalado. Ela, com seus criados, iria para uma quinta simplesmente mobilada, nos vizinhanças da cidade. As custas da quinta e da hospedagem - tudo - seriam pagas pela abastada monja. Receando, porém, que a epidemia de cólera, que então atravessava a Europa, invadisse também a virgem do Lima, o plano de aqui gozar um aprazível mês de setembro foi pela água abaixo. Mas, por intermédio e com o beneplácito do Escritor, Isabel Cândida estabeleceu laços de amizade com dois irmãos Barbosa e Silva, o Luís e o José. Sobretudo com este último, que lhe havia oferecido o romance, de que era autor, Viver para Sofrer (1855). A freira deveria sentir, como outras mulheres suas contemporâneas, uma atração especial por poetas e folhetinistas.

Entretanto, sem nada revelar à amante, Camilo negociava, com JBS, uma vinda para Viana, a fim de ocupar o cargo, remunerado, de redator do jornal A Aurora do Lima. A freira, porém, ia profetizando que o amante iria abandonar o Porto. Até que, um dia, certa das secretas intenções do amante, acusa-o virulentamente de ingratidão, passando, de seguida, à mansidão das lágrimas suplicantes. A dramática cena deu-se, no convento, em 11 de setembro de 1856, na presença da Bernardina Amélia, também ela banhada em lágrimas. O Escritor comoveu-se. Regressa à Foz, onde ainda se encontrava a banhos, com os restos do seu coração atravessados numa roda de navalhas. Cedeu. Propõe-se, então, dirigir a A Aurora a partir do Porto, contentando-se em receber, como paga, o que receberia qualquer redator que para Viana viesse.

A partir daquele dia, a paixão amorosa entre os amantes entra em acelerado declínio. A 7 de abril de 1857, Camilo chega, enfim, a Viana, para se dedicar, a tempo inteiro, à redação d’A Aurora, ainda que a notícia publicada no jornal, no dia seguinte, não seja clara a tal respeito. Propositadamente, como se lerá.
Não obstante, a freira Isabel Cândida e o novelista Camilo continuaram amigos, embora afetivamente cada vez mais distantes. Bernardina Amélia continuou, efetivamente, a ser educada e protegida, a frequentar o convento e a(s) casa(s) secular(es) da amiga religiosa.

Esta é a biografia de «D. Isabel Cândida (a freira)» que, com base, apenas, na leitura e interpretação das referências epistolares enviadas a JBS, aqui deixo à consideração do paciente leitor. No próximo “post”, acrescentarei outros dados biográficos sobre esta religiosa, mulher com quem Camilo manteve uma das mais longas relações de amizade e amor. Ou vice-versa.

Entretanto, continue a ler Camilo. Por exemplo: Vingança, romance publicado em 1858. Aquele onde o escritor mais se expõe biograficamente. Transfigurado, evidentemente. Até aquela data.
Até ao próximo.

Referências:
RODRIGUES, David F., 2017: «CAMILO &M VIANA / [1857: “velha” como “nova” (01)»: http://vianacamilo.blogspot.pt/2017/04/camilo-viana-1857velha-como-nova-01.html
-----------------, 2017a: «CAMILO &M VIANA / [1857: “velha” como “nova” (02)»: http://vianacamilo.blogspot.pt/2017/04/camilo-viana-1857-velha-como-nova-02.html
-----------------, 2017b: «CAMILO &M VIANA / [1857: “velha” como “nova” (03)»: http://vianacamilo.blogspot.pt/2017/04/camilo-viana-1857-velha-como-nova-03.html
-----------------, 2017c: «CAMILO &M VIANA / [1857: “velha” como “nova” (04)»: http://vianacamilo.blogspot.pt/2017/04/camilo-viana-1857-velha-como-nova-04.html
-----------------, 2017d: «CAMILO &M VIANA / [1857: “velha” como “nova” (05): http://vianacamilo.blogspot.pt/2017/05/camilo-viana-1857velha-como-nova-05.html
-----------------, 2017e: «CAMILO &M VIANA / [1857: “velha” como “nova” (06): http://vianacamilo.blogspot.pt/2017/05/camilo-viana-1857-velha-como-nova-06.html
-----------------, 2017g: «CAMILO &M VIANA / [1857: “velha” como “nova” (08): http://vianacamilo.blogspot.pt/2017/05/camilo-viana-1857-velha-como-nova-08.html