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segunda-feira, 29 de junho de 2020

Cláudio Basto e Camilo
[Continuação]


03. Três cartas de Camilo

Cláudio Basto1, depois da reprodução da segunda carta de Camilo para Tomás Branco, sublinha o estado de «desesperança» do escritor, manifestado no «começo» e no «final» dessa carta, datada de 05 de dezembro de 1868. Estado esse que o médico, professor e investigador vianês volta a encontrar «fortemente» presente, na seguinte carta, ainda que «breve e intensa, de consolação a Henrique Guilherme Tomás Branco, pelo falecimento de uma filha».2


Eis, assim, a última das Três Cartas de Camilo que, no opúsculo com este título, Cláudio Basto publicou, em 1917, «por gentil assentimento» de Alfredo Ernesto Dias Branco, filho do destinatário destes autógrafos, amigo e contemporâneo do escritor.3

03.4. Carta III4


Procedendo-se a uma leitura comparativa entre o autógrafo e a sua transcrição, verifica-se que Cláudio Basto nem sempre respeitou o manuscrito. A nível da grafia, lê-se «carro», no original, e «carrro», na sua cópia. Erro tipográfico, certamente. E Camilo não deixou os espaços que se veem, no final da carta transcrita, nem escreveu «Br.co» o seu apelido Branco, mas somente «Br».
Assinalam-se estas minudências, porque o estudioso vianês, em «Notas Camilianas I», assinala – com justiça, sublinhe-se – que Silva Pinto, ao transcrever uma carta recebida de Camilo, num dos seus livros, «não respeitou a ortografia do Romancista, e em nada as suas abreviaturas.» E comenta, logo de seguida: «Quando se reproduzem cartas, ao menos pela primeira vez, convém fazê-lo escrupulosamente, copiando com toda a fidelidade.» Ora, Cláudio Basto sabia que estava a reproduzir, «pela primeira vez», estas Três Cartas de Camilo. Recorde-se que o «folheto» foi editado em outubro de 1917 e que artigo «Notas Camilianas I» tinha saído na revista Lusa, em abril do mesmo ano.5

Transcreve-se, de seguida, a carta III, com ortografia e pontuação atualizadas, e abreviaturas desenvolvidas. Uma chamada, para a nota correspondente, será colocada entre chavetas, por não constar do autógrafo nem da sua transcrição por Cláudio Basto. Dado não corresponder, assim, inteiramente à leitura que o investigador vianês reproduz em Três Cartas de Camilo, a cópia seguinte vai no tipo «palatino linotype» e em itálico, inclusive a palavra sublinhada.

Meu prezado amigo!

Este escalavrado carro da minha vida roda pela ladeira da desgraça, e não há já travão que o sustenha. Estou agora assistindo à agonia da minha neta, uma criança de 16 meses, que morre tísica como a mãe. Meu filho, que ainda não tem 20 anos, está ameaçado de igual enfermidade. Esta casa é um centro de amarguras negras onde não entra raio de luz de esperança.
Que há de esperar um velho, tendo, como consolação, um filho alienado? Compara-te, e consola-te, meu bom amigo.

Teu do coração,{6}

Camilo C. Branco


Cláudio Basto termina a sua reprodução deste documento camiliano, comentando:

Esta carta não tem data, mas, escrita durante a agonia da neta, isto é, num dos treze dias que decorreram da morte da mulher de Nuno (31 de Agôsto de 1884) à da filha, – que todo esse tempo esteve a pequenina Maria Camila a resvalar para a morte –, é de Setembro de 1884 (1). – O filho que ainda não tinha 20 anos era o Nuno; fazia-os, porém, no dia 15 dêsse mês.
Nesta carta se reflecte, em uma síntese dolorosa, a má fortuna que entrou no lar do sensível Romancista, tornando-lho em «um centro de amarguras negras onde não entra raio de luz de esperança»!{7}

_________________________

 (1) A neta foi enterrada no dia 14 de Setembro.


O investigador vianês conclui a edição do opúsculo Três Cartas de Camilo, registando, por um lado, o interesse desta sua publicação, como sério contributo para «a memória do imortal Escritor». Reafirma, por outro, o seu agradecimento ao proprietário dos manuscritos, pela autorização da «reprodução zincográfica» dos três manuscritos:

Não carecem de comentários as três cartas de Camilo que ilustram estas páginas.
Achei-as, quando as conheci, excelentes e dignas de publicidade; o Sr. Tenente-coronel Alfredo Ernesto Dias Branco teve logo a penhorante amabilidade de me permitir a sua reprodução zincográfica para que fôssem divulgadas em folheto. Essa amabilidade, agradeço-a agora mais uma vez, públicamente, - pelo que ela me cativou e por me dar aso a honrar, se bem que muito modestamente, a memória do imortal Escritor em cujo halo esplendoroso escabeceiam uns vistosos literatos de moeda fraca – e falsa…{8}

Viana-do-Castelo, Outubro de 1917.

CLÁUDIO BASTO


No próximo apontamento (03.5.), dar-se-á início à transcrição, integral e anotada, de Uma explicação (Por causa das três cartas de Camilo), texto publicado, em novembro de 1917, na revista Lusa e em separata, bem como, no jornal República, em dezembro do mesmo ano. Na origem deste artigo, está uma crítica saída neste periódico, onde o «criticador» do «folheto», segundo se infere da réplica bastiana, terá ofendido a dignidade ética e intelectual do investigador vianês. Ofensas que levaram Cláudio Basto a explicar, sem cuidar cortesias verbais, ao arroteado jornaleirista e aos seus leitores, as razões e os objetivos da edição de Três Cartas de Camilo.9 Como se lerá.


Notas e referências

Resumo biobibliográfico e outras referências a Cláudio Basto, em «0. Introdução», AQUI. Sob o título genérico de «Cláudio Basto e Camilo», foram já publicados, neste blogue, além do referido, os seguintes apontamentos:
- «01. – “Notas Camilianas – I”», AQUI.
- «02. – “Notas Camilianas – II”», AQUI.
- «03. – «Três cartas de Camilo» e «03.1. – “Três cartas de Camilo”: “notícia informativa”», AQUI.
- «03. – «Três cartas de Camilo» e 03.2. – «Carta I», AQUI.
- «03. «Três cartas de Camilo» e 03.3. «Carta II», AQUI.

2  (Re)ler BASTO, 1917a: 11 ou AQUI. Recorde-se que, em rodapé, Cláudio Basto anota: «Na gravura não foi reproduzida a tarja negra do papel.»

3  (Re)ler BASTO, 1917a: 05 e/ou AQUI.

4  Utiliza-se, na cópia integral e fiel desta parte do referido opúsculo, o tipo «arial», a fim de ser visivelmente melhor reconhecida. Cláudio Basto volta a escrever, como na transcrição das cartas I e II, o «q sem til», como advertira, «por não haver na tipografia q tilado». [(Re)ler BASTO, 1917a: 06, nota 2) e/ou AQUI] Entre chavetas, colocar-se-ão chamadas para notas consideradas pertinentes. A carta III encontra-se em BASTO, 1917a: 12 (zincogravura do autógrafo) e 13 (transcrição do manuscrito, seguida de comentário, conclusão, data e nome do autor). A reprodução do autógrafo, neste apontamento, apresenta-se, todavia, em paralelo (zincogravura vs. transcrição), a fim de se facilitar a sua leitura comparativa.

(Re)ler BASTO, 1917: 13 e/ou AQUI. Sobre a vianesa revista Lusa, (re)ler VIANA & BARROSO, 2009: 348-349.

{6}  Sobre o uso desta forma de tratamento por Camilo, na sua correspondência, (re)ler AQUI, nota 11.

{7}  Sobre tópicos biográficos de Camilo e seus descendentes, referidos por Cláudio Basto, neste parágrafo, (re)ler AQUI e, em particular, as notas 4, 11 e 12, bem como ilustrações e referências bibliográficas aí indicadas.

{8}  Alfredo Ernesto Dias Branco era, como se disse acima, filho de Henrique Guilherme Tomás Branco, amigo e contemporâneo de Camilo. Sobre as relações de amizade e convívio, desde a juventude, entre Camilo e Tomás Branco, (re)ler AQUI, nomeadamente a nota 2, e AQUI.

9  O artigo em causa «foi publicado no diário lisbonense “República”, n.º 2484, de 16 - dezembro - 1917», lê-se em BASTO (org.), 1948: 19. Apesar das diligências feitas, o autor deste apontamento ainda não teve possibilidade de consultar este exemplar do referido jornal, nem aquele onde foi publicada, muito provavelmente, a crítica do articulista. (Re)ler AQUI, nota 9.


Bibliografia [grafia atualizada]

BASTO, Cláudio, 1917: «Notas Camilianas – I», em Lusa [Ano I, n.º 2, de 01/04, Vol. I]. Viana do Castelo, p. 13.
------------, 1917a: Três Cartas de Camilo. Viana do Castelo: Lusa.
------------, 1917b: «Uma explicação (Por causa das três cartas de Camilo)»,em Lusa [Ano I, n.º 19, Vol. I]. Viana do Castelo, pp. 149-150.
------------, 1917c: Uma explicação (Por causa das três cartas de Camilo). Viana do Castelo: Lusa. (Separata de BASTO, 1917b. «O mesmo artigo foi publicado no diário lisbonense “República”, n.º 2484, de 16-Dez.-1917». BASTO, 1948: 9).
------------, 1918: «Notas Camilianas – II», em Lusa [Ano II, n.º 41 e 42, de 15/11 e 01/12), Vol. II. Viana do Castelo, pp. 137-138.
BASTO, Hermínia (org.), 1948: Miscelânea de Estudos à Memória de Cláudio Basto. Porto.
VIANA, Rui & BARROSO, António José, 2009: Publicações Periódicas Vianenses. Viana do Castelo: Câmara Municipal de Viana do Castelo.

quinta-feira, 18 de junho de 2020


Cláudio Basto e Camilo
[Continuação]


03. Três cartas de Camilo

Continua-se a apresentação – anotada – de artigos que Cláudio Basto, médico, professor e investigador vianês1, dedicou a Camilo.


 Neste apontamento, reproduz-se a cópia integral da transcrição que Cláudio Basto faz da segunda carta que Camilo dirigiu ao seu amigo e contemporâneo Henrique Guilherme Tomás Branco.


03.2. Carta II

A segunda carta é recomendação. Ajunta à simplicidade grata da forma – digna delicadeza. Ei-la{2}:


Transcreve-se, de seguida, esta carta, com ortografia e pontuação atualizadas, abreviaturas desenvolvidas, e chamadas para notas consideradas pertinentes, entre chavetas, por não constarem do autógrafo nem da sua transcrição feita de Cláudio Basto. Por não corresponder, assim, completamente à leitura que o investigador vianês reproduz em Três Cartas de Camilo, utiliza-se o tipo «palatino linotype», em itálico:

Meu amigo!
Este nome que te dou já vem de 1849. Dezanove anos, meu Branco! O que lá nos fica! Mocidade, alegria, ilusões, forças, crenças, tudo!
De anos a anos te vejo de relance, e apenas tenho tido tempo de ver em ti um dos raros rapazes que restam da plêiade da nossa alegre juventude.{3} Eu passo a maior parte do ano rusticando entre uns pinhais do Minho; a outra parte flanando ociosamente nas praças de Lisboa. Para lá vou no fim deste mês, onde me tens como criado e amigo.{4}
Um meu primo, Pedro Pinto Castelo Branco, empregado na tua secção, ou como se chama, carece da tua benevolência para que lhe não tirem esse pequeno provento de que depende. Rogo-te que sejas amigo dele, e lances à minha conta os obséquios que lhe fizeres. Não duvidei instar a tua benquerença a favor dele, confiado em que tu serás para ele o que eu seria, dadas iguais circunstâncias, para um teu afilhado.{5}
{6}
Sê feliz, se podes, e manda
                            o teu velho amigo,

Vila Nova de Famalicão, 05 de dezembro de 1868.

                                                         Camilo Castelo Branco.


Cláudio Basto termina esta parte do seu «folheto», tecendo um brevíssimo comentário sobre o estado psicológico de Camilo:

A desesperança, que se trai no começo desta carta e na eloquente frase do seu final «sê feliz, se podes», vinca-se fortemente nestoutra, breve e intensa, de consolação a Henrique Guilherme Tomás Branco, pelo falecimento de uma filha (1) […].
_____________________

(1) Na gravura não foi reproduzida a tarja negra do papel.


À reprodução desta carta de Camilo, segu(i)ndo a reprodução e leitura de Cláudio Basto, em Três Cartas de Camilo, será dedicado o próximo apontamento.


 Notas e referências

Resumo biobibliográfico e outras referências a Cláudio Basto, em «0. Introdução» AQUI. Sob o título genérico de «Cláudio Basto e Camilo», foram já publicados, neste blogue, além do referido, os seguintes apontamentos:
- «01. – “Notas Camilianas – I”», AQUI.
- «02. – “Notas Camilianas – II”», AQUI.
- «03. - «Três cartas de Camilo» e «03.1. – “Três cartas de Camilo”: “notícia informativa”», AQUI.
- «03.  «Três cartas de Camilo» e 03.2. – «Carta I», AQUI.

{2}  O artigo de Cláudio Basto é copiado, neste apontamento, na sua versão integral, se bem que fragmentado em trechos, a que se dará a necessária conexão. Utiliza-se, na sua transcrição, para ser visivelmente melhor reconhecido, o tipo «arial». A carta encontra-se reproduzida em BASTO, 1917a: 09-10 (fac-símile zincogravado do autógrafo) e 11 (transcrição do mesmo). Cláudio Basto volta a escrever, como na transcrição da carta I, o «q sem til» advertiu «por não haver na tipografia q tilado».
(Re)ler BASTO, 1917a: 06 e/ou AQUI.
A carta II, ocupa páginas distintas. Apresenta-se, todavia, como no apontamento anterior, em paralelo (zincogravura vs. transcrição), a fim de se facilitar a sua eventual leitura comparativa.

{3}  Sobre as relações de Camilo com o destinatário desta carta, seu amigo e contemporâneo, desde a juventude, (re)ler AQUI, nomeadamente a nota 2.

{4}  No seu excelente Dicionário, sobre a vida e a obra (ativa e passiva) de Camilo, Alexandre Cabral regista, entre os dados referentes ao ano de 1868: «[…] Deslocações a Lisboa, Porto, Coimbra e Braga, provavelmente por causa da sua atividade de bibliófilo/antiquário», para cuja entrada/verbete remete.
(Re)ler CABRAL, 20032: «CRONOLOGIA», 279.

{5}  O «primo», para quem Camilo pede a manutenção do emprego, a Tomás Branco,  na «secção» de que era «diretor de obras públicas» ‒ a exercer o cargo, então, em Vila Real, desde 1865 ‒ não se chamava «Pedro», mas sim Isidoro. Cláudio Basto não leu corretamente o nome. Analisado, com atenção, o grafema camiliano, verifica-se que o «P» maiúsculo, inicial do nome próprio «Pedro», não é igual ao «P», inicial do apelido Pinto.
Os estudos sobre os familiares de Camilo, em 1917, por outro lado, ainda não tinham alcançado o desenvolvimento e a divulgação que vieram a verificar-se depois, sobretudo com a aproximação do primeiro centenário de nascimento do escritor (1925). O investigador desconheceria, certamente, que Camilo tinha um primo chamado Isidoro.
Isidoro Pinto Castelo Branco era filho de Rita Emília da Veiga Castelo Branco (1776-1874) e da sua relação marital com João Pinto da Cunha (1795?-1850), que viria a ser o seu segundo marido. Casaram-se em 22/03/1846, dia em que Isidoro e o seu irmão, primogénito, Manuel Maria, nascido em 1826, foram «reconhecidos e legitimados», até então «registados como filhos de pais incógnitos».
(Re)ler CABRAL, 20032: «CASTELO BRANCO, Rita Emília da Veiga», 193-194; e id.: «CUNHA, João Pinto da», 282-283.
Recorde-se que em 1836, depois de ter ficado órfão também de pai em 22/12/1835 ‒ de mãe já o era desde 06/02/1827 ‒, Camilo e a sua irmã Carolina Rita, mais velha do que ele quatro anos, foram remetidos para Vila Real, sendo entregues aos cuidados desta tia, então ainda amante de João Cunha, como seus tutores e administradores dos bens (propriedades e dinheiro) herdados de Manuel Joaquim Botelho Castelo Branco.
(Re)ler, além das entradas/verbetes acima referidas/os, entre outras/os aí referenciadas/os, em id.: «BIOGRAFIA», 95; «CASTELO BRANCO, Carolina Rita Botelho», 183-185; «CASTELO BRANCO, Manuel Joaquim Botelho», 189-190; «CRONOLOGIA» [anos de 1825 a 1840], 274; «BOTELHO, Domingos José Correia», 105-106; «MÃE DE CAMILO», 468-469; «VILA REAL», 819-821.
E, além das várias biografias de Camilo, entretanto publicadas, é de (re)ler, também, CLÁUDIO, 2006. Nesta obra, Mário Cláudio romanceia a infância e os antepassados de Camilo, alcunhados de «Brocas», em Vila Real.

{6}  Na sua transcrição, Cláudio Basto não respeitou este espaço.
  

Bibliografia [grafia atualizada]

BASTO, Cláudio, 1917: «Notas Camilianas – I», em Lusa [Ano I, n.º 2, de 01/04, Vol. I]. Viana do Castelo, p. 13.
------------, 1917a: Três Cartas de Camilo. Viana do Castelo: Lusa.
------------, 1918: «Notas Camilianas – II», em Lusa [Ano II, n.º 41 e 42, de 15/11 e 01/12), Vol. II. Viana do Castelo, pp. 137-138.
CABRAL, Alexandre, 20032: Dicionário de Camilo Castelo Branco (2.ª ed. «revista e aumentada»). Lisboa: Caminho. [1.ª ed., 1989]
CLÁUDIO, Mário, 2006: Camilo Borca (romance). Lisboa: Dom Quixote.

sábado, 23 de maio de 2020

Cláudio Basto e Camilo
[Continuação]


    03. Três cartas de Camilo

Entre «Notas Camilianas – I»1 e «Notas Camilianas – II»2, Cláudio Basto3 publicou, em 1917, Três cartas de Camilo4, opúsculo de 14 páginas, com a chancela da Lusa, revista de que o médico, professor e investigador vianês era editor, diretor e, muito provavelmente, proprietário5.


O autor mostra, em zincogravura, depois de uma «notícia informativa», três cartas que Camilo havia dirigido a Henrique Guilherme Tomás Branco6. Cada autógrafo é precedido de uma apresentação sumária, seguido da sua transcrição integral, em letra de imprensa, respeitando a grafia e a disposição do texto manuscrito. Cláudio Basto faz, depois de cada um destes documentos, um breve comentário.

Neste apontamento, reproduz-se, apenas, a referida «notícia». Respeitar-se-á a grafia inscrita no «folheto» - designação dada por Cláudio Basto a esta sua publicação. Todavia, notas e referências, e bibliografia receberão grafia atualizada. E o texto bastiano segue aqui, para melhor se distinguir, em tipo de letra «segoe print».


03.1. Três cartas de Camilo: «notícia informativa»7

Cláudio Basto, nesta sequência discursivo-textual do «folheto», situa a origem e a propriedade efetiva destes documentos camilianos. A propósito, expõe e defende a opinião, de natureza ética e sociocultural, contra a publicação, sobretudo se acrítica, de cartas inteiras e/ou trechos epistolares que possam «apequenar» ou «ferir» a «grandeza» e a «memória» de Camilo, bem como de outras «personalidades ilustres» das letras portuguesas.
Assim:

A publicação das três cartas de Camilo que nêste folheto se incluem, faço-a por gentil assentimento do Sr. Tenente-coronel de artelharia Alfredo Ernesto Dias Branco, a cujo Pai – Henrique Guilherme Tomás Branco, que foi Director das Obras-públicas do Pôrto – o autor das NOVELAS DO MINHO as escreveu. Muitas outras cartas Camilo dirigiu a êste seu grande amigo, mas delas não restam, pelo menos que o Sr. Tenente-coronel Branco saiba, mais do que as três que adeante se reproduzem.
São três cartas dignas de registo. Não teem elas nada que possa ferir a memória do Romancista, nada que aos olhos de todos se não possa expor, antes documentam brilhantemente, além do cuidado investigador do «literato», facêtas delicadas do «homem».

A conhecida sanha de apequenar o que é grande não tem poupado os escritores, como julgo ser de todos os tempos e lugares, - mas Camilo tem sido revolvido de uma forma particularmente bruta, quero crer que as mais das vezes impensada.
Afigura-se-me criminosamente abusivo assoalhar por miúdo a vida íntima de quem quer que seja, guizalhando, ante a curiosidade de um público na grande maioria alarve, além de infortúnios melindrosos em que dói tocar, deslizes e anormalidades, que nos «grandes» homens são em geral «pequenezes» que os «pequenos» não sabem compreender. Há coisas, saídas a lume, que a ninguém e a nada aproveitam; há outras que teem, quando muito, valor para eruditos que pretendam traçar o perfil completo de uma individualidade: publicar aquelas, sendo amesquinhantes, é uma superfluidade estúpida, e estoutras não deveriam sair nunca para o giro deprimente de todas as mesas e balcões. Os críticos, compulsando, analisando e interpretando elementos de tal ordem, delineariam os seus estudos inteligentes, de maneira que aos olhos ignaros, ingénuos ou preguiçosos se erguessem as personalidades ilustres em linhas vigorosas, insusceptíveis de injustas deformações, filhas da preguiça, da ingenuidade ou da ignorância a mirarem pelo primeiro prisma que deante lhes seja pôsto imprudentemente.

No tocante a depoimentos epistolares, há ainda a considerar outro aspecto.
A carta, se muitas vezes é um bom testemunho do sentir e pensar de quem na escreveu, também muitas vezes não é mais do que o reflexo de «estados ocasionais», não sendo lícito deduzir daí o «mundo», para assim dizer, «normal», do autor.
Mais ainda:
Escrita sem o intuito nem a suspeita de publicidade, a carta pode revelar sem dúvida o escritor tal qual, colhido em flagrante, sem disfarces, - mas a mesma não suposição de publicidade, por outro lado, também pode levar o escritor a propositada- ou descuidosamente falsear o próprio pensamento e sentir.
Assim, a carta pode ser um documento de opiniões e sentimentos da «personalidade» que a traçou ou de «momentâneos estados» dessa personalidade; tanto num como noutro caso há se quiserem sinceridade, porque na carta fica a expressão real do que se pensou e sentiu, mas há a diferençar o que é «ocasional», «passageiro», de o que é «fixo», «assente». E pode ser ainda, a carta, um anódino produto sem qualquer intenção, sem raízes no cérebro e na alma do escritor: uma insignificante superficialidade bem ou mal humorada, equivalente a cavaqueios sem maldade, essencialmente inofensivos, de mesa de botequim aliteratado ou aliteratada porta de livraria, tantas vezes até contrários aos verdadeiros sentimentos e pareceres dos cavaqueadores…

Havendo, portanto, muitos assuntos que, à primeira vista – e vista de ordinário grossa… -, parecem uma coisa, e, quando atentamente observados e estudados, se verifica serem outra, - às claras se vê quam perigoso é deixar «meios» de observação e estudo, ao alcance de quem não sabe deduzir com justeza «conclusões», sobretudo quando estas podem ensombrar a memória reluzente de homens insignes.

Ora, pelo que respeita a Camilo, dispensa-me o Leitor considerações particulares. Das que acima ficam tracejadas, de um modo geral -, saberá o Leitor fazer as devidas aplicações. Sómente especificarei que a perseguição epistolar ao imortal polígrafo chegou ao ponto de se lhe publicarem cartas adulteradas, havendo, quanto a uma delas (pelo menos), êle próprio recomendado expressamente, num acertado pressentimento, que lha rasgassem depois de lida, para que não aparecesse após a sua morte (1).


(1) A êste propósito, vid. o que deixei escrito na LUSA, I, pág. 13 (n.º 2), primeiro artigo da série Notas camilianas. {8}


A edição de Três cartas de Camilo terá sido fortemente criticada por um jornalista, num periódico lisboeta, não identificados. É de inferir que, face à réplica publicada na Lusa e, logo depois ou em simultâneo, no jornal República9 e em separata, Cláudio Basto se tenha sentido deveras ofendido, na sua dignidade ética e intelectual. O estudioso vianês responde ao «criticador», explicando as razões e os objetivos da edição do «folheto». Rejeita, ao mesmo tempo, por injustas e levianas, as acusações do «criticador», dirigindo-lhe tratamentos fortemente acrimoniosos. Considera o visado, entre outros epítetos, um daqueles «que vivem arreatados ao jornaleirismo, saídos do vazadoiro para onde as letras nacionais exgregam a sua escória.»10 Como oportunamente se lerá, em 03.5.

Seguir-se-ão, nos três próximos apontamentos (03.2. a 03.4.), as transcrições integrais de cada uma das três cartas, na sua reprodução fac-similada (zincogravura), acompanhadas das respetivas transcrições impressas em letra de forma e dos correspondentes comentários, segu(i)ndo a leitura do estudioso vianês Cláudio Basto.


Notas e referências

1  (Re)ler BASTO, 1917 e/ou AQUI.
2  (Re)ler BASTO, 1918 e/ou AQUI.
3  Para um resumo biobibliográfico de Cláudio Basto, (re)ler «0. Apresentação» (AQUI), onde são indicadas outras referências sobre este médico, professor e investigador vianês.
4  (Re)ler BASTO, 1917a. O opúsculo foi publicitado em números da Lusa, ao preço de 1.200 réis. Os pedidos de aquisição deveriam ser «dirigidos à administração da revista», sita na «Avenida de Camões, 16, Viana do Castelo, acompanhados da respetiva importância, sem o que não serão [seriam] satisfeitos.»
5  Sobre o fundador, editor, diretor(es) e colaboradores da revista Lusa, (re)ler VIANA & BARROSO, 2009: 348-349.
6  Breve nota biográfica sobre Henrique Guilherme Tomás Branco, amigo e contemporâneo de Camilo, ler-se-á no próximo apontamento (03.2. Carta I).
7  Cláudio Basto, ao publicitar o opúsculo na Lusa, refere que a reprodução das três cartas é acompanhada por «uma notícia elucidativa», designação escolhida, por isso, para se especificar o título desta subalínea.
{8}  (Re)ler BASTO, 1917a: 05-06. Por ser da responsabilidade do autor deste apontamento, e não de Cládio Basto, o índice da nota foi inscrito entre chavetas.
9  Em BASTO (org.), 1948: 19, lê-se que o mesmo artigo «foi publicado no diário lisbonense “República”, n.º 2484, de 16 - dezembro - 1917.» Será que foi neste jornal que foi publicada a crítica a Três Cartas de Camilo Aguarda-se possibilidade de consulta.
10  (Re)ler BASTO, 1917b: 06.



Bibliografia [grafia atualizada]

BASTO, Cláudio, 1917: «Notas Camilianas – I», em Lusa [Ano I, n.º 2, de 01/04, Vol. I]. Viana do Castelo, p. 13.
------------, 1917a: Três Cartas de Camilo. Viana do Castelo: Lusa.
------------, 1917b: «Uma explicação (Por causa das três cartas de Camilo)»,em Lusa [Ano I, n.º 19, Vol. I]. Viana do Castelo, pp. 149-150.
------------, 1917c: Uma explicação (Por causa das três cartas de Camilo). Viana do Castelo: Lusa. (Separata de BASTO, 1917b. «O mesmo artigo foi publicado no diário lisbonense “República”, n.º 2484, de 16-Dez.-1917». BASTO, 1948: 9).
------------, 1918: «Notas Camilianas – II», em Lusa [Ano II, n.º 41 e 42, de 15/11 e 01/12), Vol. II. Viana do Castelo, pp. 137-138.
BASTO, Hermínia (org.), 1948: Miscelânea de Estudos à Memória de Cláudio Basto. Porto.
VIANA, Rui A. Faria & BARROSO, António José, 2009: Publicações Periódicas Vianenses. Viana do Castelo: Câmara Municipal de Viana do Castelo.