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segunda-feira, 29 de junho de 2020

Cláudio Basto e Camilo
[Continuação]


03. Três cartas de Camilo

Cláudio Basto1, depois da reprodução da segunda carta de Camilo para Tomás Branco, sublinha o estado de «desesperança» do escritor, manifestado no «começo» e no «final» dessa carta, datada de 05 de dezembro de 1868. Estado esse que o médico, professor e investigador vianês volta a encontrar «fortemente» presente, na seguinte carta, ainda que «breve e intensa, de consolação a Henrique Guilherme Tomás Branco, pelo falecimento de uma filha».2


Eis, assim, a última das Três Cartas de Camilo que, no opúsculo com este título, Cláudio Basto publicou, em 1917, «por gentil assentimento» de Alfredo Ernesto Dias Branco, filho do destinatário destes autógrafos, amigo e contemporâneo do escritor.3

03.4. Carta III4


Procedendo-se a uma leitura comparativa entre o autógrafo e a sua transcrição, verifica-se que Cláudio Basto nem sempre respeitou o manuscrito. A nível da grafia, lê-se «carro», no original, e «carrro», na sua cópia. Erro tipográfico, certamente. E Camilo não deixou os espaços que se veem, no final da carta transcrita, nem escreveu «Br.co» o seu apelido Branco, mas somente «Br».
Assinalam-se estas minudências, porque o estudioso vianês, em «Notas Camilianas I», assinala – com justiça, sublinhe-se – que Silva Pinto, ao transcrever uma carta recebida de Camilo, num dos seus livros, «não respeitou a ortografia do Romancista, e em nada as suas abreviaturas.» E comenta, logo de seguida: «Quando se reproduzem cartas, ao menos pela primeira vez, convém fazê-lo escrupulosamente, copiando com toda a fidelidade.» Ora, Cláudio Basto sabia que estava a reproduzir, «pela primeira vez», estas Três Cartas de Camilo. Recorde-se que o «folheto» foi editado em outubro de 1917 e que artigo «Notas Camilianas I» tinha saído na revista Lusa, em abril do mesmo ano.5

Transcreve-se, de seguida, a carta III, com ortografia e pontuação atualizadas, e abreviaturas desenvolvidas. Uma chamada, para a nota correspondente, será colocada entre chavetas, por não constar do autógrafo nem da sua transcrição por Cláudio Basto. Dado não corresponder, assim, inteiramente à leitura que o investigador vianês reproduz em Três Cartas de Camilo, a cópia seguinte vai no tipo «palatino linotype» e em itálico, inclusive a palavra sublinhada.

Meu prezado amigo!

Este escalavrado carro da minha vida roda pela ladeira da desgraça, e não há já travão que o sustenha. Estou agora assistindo à agonia da minha neta, uma criança de 16 meses, que morre tísica como a mãe. Meu filho, que ainda não tem 20 anos, está ameaçado de igual enfermidade. Esta casa é um centro de amarguras negras onde não entra raio de luz de esperança.
Que há de esperar um velho, tendo, como consolação, um filho alienado? Compara-te, e consola-te, meu bom amigo.

Teu do coração,{6}

Camilo C. Branco


Cláudio Basto termina a sua reprodução deste documento camiliano, comentando:

Esta carta não tem data, mas, escrita durante a agonia da neta, isto é, num dos treze dias que decorreram da morte da mulher de Nuno (31 de Agôsto de 1884) à da filha, – que todo esse tempo esteve a pequenina Maria Camila a resvalar para a morte –, é de Setembro de 1884 (1). – O filho que ainda não tinha 20 anos era o Nuno; fazia-os, porém, no dia 15 dêsse mês.
Nesta carta se reflecte, em uma síntese dolorosa, a má fortuna que entrou no lar do sensível Romancista, tornando-lho em «um centro de amarguras negras onde não entra raio de luz de esperança»!{7}

_________________________

 (1) A neta foi enterrada no dia 14 de Setembro.


O investigador vianês conclui a edição do opúsculo Três Cartas de Camilo, registando, por um lado, o interesse desta sua publicação, como sério contributo para «a memória do imortal Escritor». Reafirma, por outro, o seu agradecimento ao proprietário dos manuscritos, pela autorização da «reprodução zincográfica» dos três manuscritos:

Não carecem de comentários as três cartas de Camilo que ilustram estas páginas.
Achei-as, quando as conheci, excelentes e dignas de publicidade; o Sr. Tenente-coronel Alfredo Ernesto Dias Branco teve logo a penhorante amabilidade de me permitir a sua reprodução zincográfica para que fôssem divulgadas em folheto. Essa amabilidade, agradeço-a agora mais uma vez, públicamente, - pelo que ela me cativou e por me dar aso a honrar, se bem que muito modestamente, a memória do imortal Escritor em cujo halo esplendoroso escabeceiam uns vistosos literatos de moeda fraca – e falsa…{8}

Viana-do-Castelo, Outubro de 1917.

CLÁUDIO BASTO


No próximo apontamento (03.5.), dar-se-á início à transcrição, integral e anotada, de Uma explicação (Por causa das três cartas de Camilo), texto publicado, em novembro de 1917, na revista Lusa e em separata, bem como, no jornal República, em dezembro do mesmo ano. Na origem deste artigo, está uma crítica saída neste periódico, onde o «criticador» do «folheto», segundo se infere da réplica bastiana, terá ofendido a dignidade ética e intelectual do investigador vianês. Ofensas que levaram Cláudio Basto a explicar, sem cuidar cortesias verbais, ao arroteado jornaleirista e aos seus leitores, as razões e os objetivos da edição de Três Cartas de Camilo.9 Como se lerá.


Notas e referências

Resumo biobibliográfico e outras referências a Cláudio Basto, em «0. Introdução», AQUI. Sob o título genérico de «Cláudio Basto e Camilo», foram já publicados, neste blogue, além do referido, os seguintes apontamentos:
- «01. – “Notas Camilianas – I”», AQUI.
- «02. – “Notas Camilianas – II”», AQUI.
- «03. – «Três cartas de Camilo» e «03.1. – “Três cartas de Camilo”: “notícia informativa”», AQUI.
- «03. – «Três cartas de Camilo» e 03.2. – «Carta I», AQUI.
- «03. «Três cartas de Camilo» e 03.3. «Carta II», AQUI.

2  (Re)ler BASTO, 1917a: 11 ou AQUI. Recorde-se que, em rodapé, Cláudio Basto anota: «Na gravura não foi reproduzida a tarja negra do papel.»

3  (Re)ler BASTO, 1917a: 05 e/ou AQUI.

4  Utiliza-se, na cópia integral e fiel desta parte do referido opúsculo, o tipo «arial», a fim de ser visivelmente melhor reconhecida. Cláudio Basto volta a escrever, como na transcrição das cartas I e II, o «q sem til», como advertira, «por não haver na tipografia q tilado». [(Re)ler BASTO, 1917a: 06, nota 2) e/ou AQUI] Entre chavetas, colocar-se-ão chamadas para notas consideradas pertinentes. A carta III encontra-se em BASTO, 1917a: 12 (zincogravura do autógrafo) e 13 (transcrição do manuscrito, seguida de comentário, conclusão, data e nome do autor). A reprodução do autógrafo, neste apontamento, apresenta-se, todavia, em paralelo (zincogravura vs. transcrição), a fim de se facilitar a sua leitura comparativa.

(Re)ler BASTO, 1917: 13 e/ou AQUI. Sobre a vianesa revista Lusa, (re)ler VIANA & BARROSO, 2009: 348-349.

{6}  Sobre o uso desta forma de tratamento por Camilo, na sua correspondência, (re)ler AQUI, nota 11.

{7}  Sobre tópicos biográficos de Camilo e seus descendentes, referidos por Cláudio Basto, neste parágrafo, (re)ler AQUI e, em particular, as notas 4, 11 e 12, bem como ilustrações e referências bibliográficas aí indicadas.

{8}  Alfredo Ernesto Dias Branco era, como se disse acima, filho de Henrique Guilherme Tomás Branco, amigo e contemporâneo de Camilo. Sobre as relações de amizade e convívio, desde a juventude, entre Camilo e Tomás Branco, (re)ler AQUI, nomeadamente a nota 2, e AQUI.

9  O artigo em causa «foi publicado no diário lisbonense “República”, n.º 2484, de 16 - dezembro - 1917», lê-se em BASTO (org.), 1948: 19. Apesar das diligências feitas, o autor deste apontamento ainda não teve possibilidade de consultar este exemplar do referido jornal, nem aquele onde foi publicada, muito provavelmente, a crítica do articulista. (Re)ler AQUI, nota 9.


Bibliografia [grafia atualizada]

BASTO, Cláudio, 1917: «Notas Camilianas – I», em Lusa [Ano I, n.º 2, de 01/04, Vol. I]. Viana do Castelo, p. 13.
------------, 1917a: Três Cartas de Camilo. Viana do Castelo: Lusa.
------------, 1917b: «Uma explicação (Por causa das três cartas de Camilo)»,em Lusa [Ano I, n.º 19, Vol. I]. Viana do Castelo, pp. 149-150.
------------, 1917c: Uma explicação (Por causa das três cartas de Camilo). Viana do Castelo: Lusa. (Separata de BASTO, 1917b. «O mesmo artigo foi publicado no diário lisbonense “República”, n.º 2484, de 16-Dez.-1917». BASTO, 1948: 9).
------------, 1918: «Notas Camilianas – II», em Lusa [Ano II, n.º 41 e 42, de 15/11 e 01/12), Vol. II. Viana do Castelo, pp. 137-138.
BASTO, Hermínia (org.), 1948: Miscelânea de Estudos à Memória de Cláudio Basto. Porto.
VIANA, Rui & BARROSO, António José, 2009: Publicações Periódicas Vianenses. Viana do Castelo: Câmara Municipal de Viana do Castelo.

sábado, 9 de maio de 2020

Cláudio Basto e Camilo
[Continuação]


02. «Notas Camilianas - II»


Em «Notas Camilianas – I», como se leu no apontamento anterior1, Cláudio Basto2 transcreveu e comentou, criticamente, a publicação de uma carta que Camilo havia escrito e enviado a Silva Pinto. Este polígrafo escritor, porém, ao transcrevê-la num dos seus livros, não reproduziu o documento autógrafo integralmente.


No artigo que, sob o título acima referido e que abaixo se transcreve, por inteiro, o estudioso vianês reproduz ‒ «fielmente», garante ‒ uma outra carta autógrafa de Camilo também na sua revista Lusa, em finais de 19183. Esta é uma carta que o romancista dirigiu à sua companheira Ana Augusta Plácido. O autógrafo, entretanto, havia sido transcrito, primeiro, no jornal O Leme4, em março de 1913, e, depois, no mesmo ano de 1918, em Cartas de Camilo Castelo (vol. I), coligidas, prefaciadas e anotadas por M. Cardoso Marta5.
  Conhecedor do manuscrito original, pertencente embora ao farmacêutico vianês Tomás Simões Viana6, Cláudio Basto, perante as duas edições da carta, começa por explicar e justificar, ao “milímetro”, a ausência de «epígrafe» do destinatário (tratamento fático, mais evocativo que vocativo, em contextos epistolográficos), facto que O Leme, em «Nota da Redação», regista no «fim da transcrição».
  Cláudio Basto termina as segundas notas camilianas, comentando e corrigindo o «engano» cometido por Cardoso Marta, seu «amigo e ilustre colaborador da Lusa» - assim se lhe refere - ao afirmar, em rodapé, não poder «adscrever» uma «época» à carta, porque no «jornal de Seide […] não consta a data». Por outro lado, comenta a informação que Marta retira d’O Leme, segundo a qual «a carta começa bruscamente, sem epígrafe, fazendo crer que não esteja completa.»
    O diretor da Lusa censura este «engano de cópia», uma vez que, n’O Leme, está «não só a data, como a hora – 2 horas da noute ‒, o que dá singular expressão carregada à carta, escrita num momento doloroso.» E conclui afirmando que «a carta está completa», nela não havendo «mais de o que foi publicado» por si, ainda que, cotejando-se «a transcrição fiel da carta», reproduzida na revista vianesa, «com as outras reproduções» (no jornal e por Marta), «vê-se que nestas houve algumas alterações de grafia e pontuação.»

     Sabe-se, conforme se leu em «Notas Camilianas – I», como Cláudio Basto defendia que, ao reproduzir-se estas cartas e outras de idêntico valor documental, «ao menos pela primeira vez, convém fazê-lo escrupulosamente, copiando com toda a fidelidade.»1 Tese esta que, todavia, não o impede de condenar os que têm «revolvido, de uma forma particularmente bruta», a «vida íntima» de Camilo, como se lerá em próximo apontamento.

   Duas outras edições desta carta foram recentemente publicadas. Uma delas encontra-se em Camiliana 3 – Cartas Escolhidas de Camilo Castelo Branco, obra saída em 2016, organizada por José Viale Moutinho. A outra foi reproduzida, em fac-símile e transcrita, por Porfírio Pereira da Silva, em duas publicações, nos finais de 2016 e princípios de 2017, depois de ter sido apresentada, em 2015, numa comunicação científica, por si proferida, na Universidade de Coimbra, conforme se lerá abaixo.
 A “fonte” citada por Viale Moutinho, reconhecido camilista, é também o n.º 17 d’O Leme. Este compilador, porém, não terá lido, com atenção, a transcrição do documento neste jornal. Ter-se-á servido, apenas, da cópia publicada por Marta, embora não lhe faça referência, se bem que a obra deste camilista lhe tenha sido «fonte» de outras cartas de Camilo antologiadas no volume. Por outro lado, também Moutinho, depois de transcrever a carta sem data, comenta não haver «certeza de se encontrar completa»7.
   Mas, de facto, estava. Como Cláudio Basto, cuidadosamente mostra e demonstra, de seguida8, em


«NOTAS CAMILIANAS – II


O Leme, em seu n.º 17, de 6 de Março de 1913 (1.º ano, 2.a série), publica na segunda página uma carta de Camilo, ‒ na secção Perolas escondidas e com o sub-título: “Carta de C. Castelo Branco a sua esposa D. Anna A. Placido”{9}.
Ao fim da transcrição, põe o Leme a seguinte nota:

No autographo não ha epigraphe nem na assignatura escreveu o romancista os apelidos de que usava (Castello Branco).
                                         (Nota da Redacção).

Pude ver o autógrafo por amabilidade do sr. Tomás Simões Viana, desta cidade, a quem êle hoje pertence. Reproduzirei fielmente a carta, conservando-lhe a disposição e o número de linhas:

Creio que cheguei ao termo da vida. Resigna-
te, ma querida e ate [sic] á morte adorada
Anna Augusta. Agarra-te á vida q
é a taboa salvadora deste filho que
está ao pe [sic] de mim com a morte estam
pada no rosto. Segue a tua via
de amargura com a coragem q
tens sempre revelado. Fica neste
mundo por alguns anos como
quem se sacrifica ao pai na pessoa
dos filhos. Lembra-lhes mtas
vezes o teu Camillo.

      2 horas da noute,
23 de abril de 1879.{10}

É azul o papel da carta, do tamanho aproximadamente do “de ofício” (ignorando eu se tal qualidade de papel tem nome especial). Está escrito só de uma face, linha sim linha não, com margem à direita e à esquerda.
Camilo começou a carta bastante em cima, encontrando-se o papel cortado na parte superior. O corte foi praticado, ao que parece, após o coleccionamento da carta, pois que, na margem inferior, se nota – se me não engano – o vestígio do número 40, a tinta vermelha, causado pela dobragem transversal do papel, pelo meio, quando aquela numeração ainda estava húmida.
¿Haveria, nessa parte cortada, algumas palavras?
Acima da primeira linha escrita, há uma em branco, ‒ depois, aproximadamente metade da margem. Da margem, sem dúvida nenhuma, ‒ porque o intervalo das linhas é de oito milímetros e para cima da primeira linha que no papel se vê há onze milímetros. Não tendo Camilo aproveitado a primeira linha do papel, ¿poderá alguém supor que êle iniciou a carta na margem? É claro que não; e ainda que isso fosse presumível, tinha de pôr-se de parte por outra razão: comparando o papel com outro de igual “formato” (como se costuma dizer), vê-se que lhe foram cortados uns doze milímetros, o que é confirmado pela dobragem do papel, transversalmente, aproveitando a dobra primitiva que ele tem. A margem superior foi, portanto, cortada sensivelmente pelo meio. Quem nêle escrevesse teria de o fazer dêsse meio para cima, e o bastante para que na parte da margem que ficou se não visse qualquer sinal de letra. Ora tudo isto é absurdo.
Os argumentos que exponho contrariam também a existência de vocativo, mas só por si não a rejeitam em absoluto, porquanto era possível, se bem que não provável, que essa palavra, ou frase simples, fosse escrita no alto, junto ao bôrdo do papel. O Leme, porém, afirma que não havia epígrafe na carta, e a afirmativa merece todo o crédito. Em primeiro lugar, o autógrafo, havendo sido dado, em Fevereiro de 1912, pela neta de Camilo, D. Raquel Castelo Branco{11}, ao actual possuidor, conservava-se na família, que, portanto, o conhecia perfeitamente; em segundo lugar, não se vislumbra motivo para que lhe amputasse, ao autógrafo, o vocativo que nada podia ter de ocultável.
Juntos, a estas razões, os argumentos acima expostos, ‒ póde-se concluir que não havia na carta mais de o que foi publicado.
O corte da tirazinha na cabeça do papel foi, naturalmente, para impedir que no autógrafo, oferecido, fosse a marcação (ou coisa que o valha) a que me referi, ‒ deixando nêle assim apenas o que era da mão do Romancista.

*

A carta, de que venho tratando, foi incluída pelo meu amigo, e muito ilustre colaborador da LUSA, M. Cardoso Marta no I volume das Cartas de Camilo Castelo Branco (Rio-de-Janeiro, Lisboa – 1918), página 58-59.
Aí se lhe pôs a nota:

“¿A que época poderemos adscrever esta carta? De O Leme, jornal de Seide, 2.a série, n.o 17 (6 de Março de 1913), não consta a data, e assim nas seguintes. Também ali a carta começa bruscamente, sem epígrafe, fazendo crer que não esteja completa.[”]

Houve engano de cópia. A data vem n-o Leme – não só a data, como a hora – 2 horas da noute ‒, o que dá singular expressão carregada à carta, escrita num momento doloroso.{12} A carta está completa, ‒ como, parece-me, deixei demonstrado. Cotejando a transcrição fiel da carta, que a LUSA publica hoje, com as outras reproduções, ‒ vê-se que nestas houve algumas alterações de grafia e pontuação.{13}

                                                                  CLÁUDIO BASTO.»


Estes artigos de Cláudio Basto revelam como o seu desconhecimento tem levado a que se continue a dizer/escrever, por vezes, incorreções e/ou imprecisões sobre algumas cartas de Camilo, entretanto (re)editadas. Daí se considerar necessária a republicação, anotada e comentada, destes e de outros estudos que o investigador vianês dedicou à correspondência epistolar camiliana, em particular à que teve acesso direto.

   O autor deste apontamento, não teve possibilidade (ainda) de consultar a transcrição desta carta de Camilo n’O Leme. Mas a carta original foi, entretanto, publicada, em fac-símile, pelo seu atual proprietário: Porfírio Pereira da Silva. Este estudioso vianês revelou o documento na comunicação que, sob o título “Camilo Castelo Branco (1825-1890) entre o génio-nevropata e a loucura de seu filho Jorge», nas «VI Jornadas Internacionais de História da Psiquiatria e Saúde Mental», que decorreram em Coimbra, nos dias 11 e 12/05/201514. Confessando-se «inveterado camilianista» e «camiliano, às vezes», publicou, nos dois anos seguintes, a referida comunicação-ensaio, no tomo 50 da revista Cadernos Vianenses15, e no seu blogue «Mukange Books»16.

    Apresenta-se, de seguida, cópia do fac-símile da carta autógrafa de Camilo, tal como se encontra em «Mukange Books», blogue de onde foi colhida. E, em paralelo, a sua leitura-transcrição, em grafia atualizada, desenvolvendo-se abreviaturas e atualizando-se pontuação e formato, por se considerar que a grafologia camiliana, enquanto reflexo do ser-homem no ser-escritor (e/ou vice-versa), não interessará aos seus leitores, nos dias de hoje.



    De facto, como acima referiu Cláudio Basto, esta carta é a «singular expressão» de «momento doloroso», intensamente vivido por Camilo17.

 Em próximo apontamento, dar-se-á início à transcrição, integral e fiel, de Três cartas de Camilo, «folheto» que Cláudio Basto editou e publicou em 1917.

Obs. – À exceção da cópia de «Notas Camilianas – II», o autor deste apontamento atualiza grafia, em citações e referências bibliográficas. Informa ainda que, embora a história da etimologia do topónimo seja Ceide, passa, desde ora, a escrever Seide, por esta ser a grafia reconhecida e utilizada por conceituados camilistas e autoridades locais. A propósito, quando se argumenta(va) que a forma Seide é (era) “respeitar a grafia” camiliana, por que razão não se escreve, além de outras palavras, o nome completo do escritor, tal como se encontra nos seus autógrafos - Camillo Castello Branco?


Notas e referências

(Re)ler BASTO, 1917 e/ou AQUI. 

Para um resumo biobibliográfico de Cláudio Basto, (re)ler «0. Apresentação», onde são indicadas outras referências sobre este tópico.

3  (Re)ler Lusa [Ano II, n.º 41-42, de 15/11 e 1/12/1918 (Vol. II), p. 137]. Sobre o fundador, editor, diretor(es) e colaboradores desta revista, (re)ler VIANA & BARROSO, 2009: 348-349.

4  Com o subtítulo de «Semanário Humorístico e Noticioso», O Leme foi um jornal que começou a ser publicado, no dia 18/08/1895, em Seide, Vila Nova de Famalicão. Foi seu «redator principal» Nuno Plácido Castelo Branco (Seide, 15/9/1864 – 23/1/1896), segundo filho da ligação de Camilo com Ana Plácido. A primeira série termina ao n.º 13, em 17/11/1895, um mês depois da morte da viscondessa Ana Augusta Plácido (Porto, 27/9/1831 – Seide, 20/9/1895).



O periódico reaparece, como quinzenário, em 23/01/1913, com o n.º 14, dando origem à 2.ª série. O seu novo diretor e editor é Nuno Plácido Castelo Branco (Seide, 04/03/1889 - Famalicão, 15/12/1967), neto do célebre casal oitocentista, mais romântico e romanceado. É o 4.º filho do viúvo Nuno Plácido e 3.º da sua nova companheira Ana Rosa Correia (Landim, 03/03/1862 - Seide, 28/12/1956). Nuno Plácido (pai), enamorou-se desta landinesca filha de lavradores, ainda a sua esposa – Maria Isabel Macedo (Braga, 01/05/1865 – Requião, 30/08/1884) era viva. Da união marital de Nuno Plácido (pai) com Ana Rosa nasceram 7 filhos.[(Re)ler ARAÚJO, 1925: 72. - BRANCO, 1925. - CABRAL, 20032: «CASTELO BRANCO, Nuno Plácido-II», 192; id.: «CORREIA, Ana Rosa», 250-251; id.: «(O) LEME», 431-432; id.: «NETOS DE CAMILO», 548. - MARTINS, s/d: 301 e passim. - PIMENTEL, 1901. - RIBEIRO, 1961 (III): 163 e passim.]

Cartas de Camilo Castelo Branco, compiladas por M. Cardoso Marta, é obra constituída por 02 volumes. O 1.º saiu em 1918. Dele constam cartas de Camilo escritas a 25 destinatários, em capítulos por ordem alfabética. De Ana Augusta Plácido, transcreve 03 telegramas e 10 cartas, pp. [053]055-067. {A p. [053] indica o título do capítulo – nome do destinatário. A reprodução das cartas começa na p. 055}. A carta transcrita em «Notas Camilianas – II», dirigida a Ana Plácido, encontra-se, como refere Cláudio Basto, nas pp. 058-059. No 2.º volume, saído em 1923, o compilador edita cartas dirigidas a 26 destinatários, em outros tantos capítulos, também ordenados alfabeticamente.

6  Formado em Farmácia pela Universidade do Porto, Tomás Simões Viana (Viana do Castelo, 02/03/1888 – 18/09/1946) exerceu a atividade de farmacêutico, na ainda hoje chamada Farmácia Simões, fundada por seu pai, Gaspar Simões Viana, também ele farmacêutico, de quem herdou o estabelecimento, continuando a sua direção técnica. Homem da cultura, dedicou-se à arqueologia, etnografia e ao jornalismo. Republicano, exerceu também cargos políticos, a nível local, no exercício dos quais procurou desenvolver a cultura dos vianeses, nomeadamente na defesa de instalações condignas para o Museu e Biblioteca municipais. Para uma biobibliografia desenvolvida deste «ilustre vianense», (re)ler VIANA, 1997.

7  José Viale Moutinho organiza, em quatro belos e espessos volumes, uma Camiliana. O terceiro tomo é dedicado à correspondência de Camilo. Trata-se de uma antologia de 509 cartas, de entre os milhares que o escritor escreveu a mais de uma centena de destinatários - amigos, conhecidos e familiares. A carta analisada por Cláudio Basto encontra-se em MOUTINHO (org.), 2016: 62.

8  Informa-se que, tal como se procedeu no apontamento anterior, também aqui se reproduzirá fielmente este artigo de Cláudio Basto. A penas o «q» [que] não será fielmente transcrito, com til, por não se dispor desse grafema, com o referido sinal gráfico sobreposto. Esclarece-se que informações consideradas pertinentes serão assinaladas, ao longo da transcrição, por índices entre chavetas { }. O corpo do texto de Cláudio Basto, transcrito da Lusa, vai entre aspas angulares (« »] e no tipo de letra «times new roman», para melhor se distinguir dos comentários e anotações do autor do apontamento, incluindo as remissões entre chavetas, nele inseridas.

{9}  Recorde-se que, à data da carta (23/04/1879), Ana Plácido ainda não era, oficialmente, «esposa» de Camilo. O casamento de ambos (o segundo para cada um dos amantes) realizou-se apenas em 09/03/1888. [(Re)ler CABRAL, 20032: «CASAMENTO», 177-178.]

{10}  Na Lusa, a carta de Camilo, tal como Cláudio Basto a transcreveu d’O Leme, ocupa o centro da página, enquanto o corpo do texto restante está impresso em duas colunas.

{11]  Raquel Castelo Branco (Seide, 21/02/1890 – 1952), neta de Camilo e Ana Plácido, é a 4.ª filha de Nuno Plácido e 3.ª de Ana Rosa Correia. Escreveu o livro Trinta Anos em Seide, sentidamente dedicado aos avós paternos e aos irmãos. Publicado em 1925, a autora reúne e transcreve correspondências trocadas entre Camilo e Ana Plácido, dos progenitores com os filhos Jorge e Nuno, bem com outros amigos do casal. Transcreve, também, textos literários dos parentes, sobretudo da avó. E ao capítulo III dá o título de «Recordações do meu tio Jorge», onde fala da vida, comportamentos e dotes artísticos deste seu parente. Aí reproduz «versos e artigos» de Jorge, bem como cartas que foi escrevendo ao «Papá», cujas redações revelam também as suas deficiências, incluindo as de grafia. Acerca da saúde mental - «loucura e epilepsia» - deste seu parente, Raquel reproduz trechos que Camilo deixou, na sua obra literária e em cartas a amigos. [(Re)ler BRANCO, 1925: 022 e ss., passim; Cap. III: 129-149]. Sobre os tópicos aqui aflorados, (re)ler nota 3, acima, e CABRAL, 20032: «CASTELO BRANCO, Raquel», 192-193.]

{12}  O «momento doloroso» a que se refere Cláudio Basto diz respeito aos sofrimentos que Camilo padecia, devido, por um lado, à evolução dos seus estados de saúde e, por outro, ao reconhecimento da loucura do filho Jorge, dos comportamentos extravagantes e irresponsáveis do filho Nuno, das frequentes desavenças com Ana Plácido, também ela uma mulher doente, sofrida e sofredora.


   Os biógrafos camilistas sempre se referem e interpretam, com maior ou menor fundamento e discutível objetividade, a vida de Camilo como «drama», «desgraça», «tragédia», «tortura», «penitência», «calvário», «sacrifício», «martírio». Em particular, quando passou a viver na casa "alheia" de Seide, que não teve, todavia, como "residência fixa". Eduardo Sucena, nos capítulos «17 / As Doenças de Camilo» e «18 / Aquela Casa Triste» de Calvário e Glória de Camilo (obra a ler criticamente, como sempre todo e qualquer livro), refere e cita os biógrafos que mais atenção dedica(ra)m a estas circunstâncias pessoais, familiares e sociais do biografado. (Re)ler nota anterior, com as referências aí indicadas, bem como, entre outros, BRAGA, 1916: 46-62. – CABRAL, 20032: «CASTELO BRANCO, Jorge Camilo», 186-187; id.: «São Miguel de Ceide», 723-725. – CABRAL, 1918: 197-207. – COSTA, 1959: 390-391. ‒ FARIA, 1990. –PIMENTEL, 1921: 51-59. – SILVA, 2016 ou 2017. – SUCENA, 2014: 216-235.

{13}  A propósito de certos «melindres» e «pundonores» de Cardoso Marta, a par de outros «estudiosos e possuidores de espólios epistolográficos camilianos», relativamente à sua «divulgação» ou «publicidade» integral, tendo-lhes introduzido ou defendendo, como reais «censores», cortes e/ou modificações, (re)ler CABRAL, 1984 (I): 18-22. Este reconhecido camilista, todavia, não inclui, estranhamente, Cláudio Basto, na lista destes «censores» de cartas de Camilo. Estranhamente, porque, como acima sumariamente se leu e lerá em próximo apontamento, Cláudio Basto foi radicalmente contra a divulgação de «infortúnios melindrosos», «deslizes e anormalidades» de «homens insignes», como Camilo, sobretudo quando dados a conhecer, através da sua publicação, a «um público na grande maioria alarve», que não os sabe estudar, compreender e devidamente apreciar.

14  O autor regista, em nota de rodapé: «Comunicação apresentada nas VI Jornadas Internacionais de História da Psiquiatria e Saúde Mental, realizadas em Coimbra, nos dias 11 e 12 de Maio de 2015, numa organização do Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX da Universidade de Coimbra – CEIS20 / Grupo de História e Sociologia da Ciência e da Tecnologia – GHSC/ Sociedade de História Interdisciplinar da Saúde – SHIS.» [SILVA, 2016: 167]

15  (Re)ler SILVA, 2016.

16  (Re)ler SILVA, 2017.

17  (Re)ler BASTO, 1918: 138 e, acima, notas {11} e {12}.

Obs. – As fotografias que ilustram este apontamento foram digitalmente colhidas, em obras abaixo referidas, sendo depois adaptadas a esta publicação.


Bibliografia [Grafia atualizada]

ARAÚJO, Alberto Veloso de, 1925: Camilo em S. Miguel de Seide. Braga: Livraria Cruz.
BASTO, Cláudio, 1917: «Notas Camilianas – I», em Lusa [Ano I, n.º 2, de 01/04), Vol. I]. Viana do Castelo, p. 13.
------------, 1918: «Notas Camilianas – II», em Lusa [Ano II, n.º 41 e 42, de 15/11 e 01/12), Vol. II. Viana do Castelo, pp. 137-138.
BRAGA, Teófilo, 1916: Camilo Castelo Branco (Esboço biográfico). Lisboa: Livraria Manuel dos Santos.
BRANCO, Raquel Castelo, 1925: Trinta Anos em Seide. Lisboa: Sociedade Editorial ABC, L.da.
CABRAL, Alexandre, 1984: Correspondência de Camilo Castelo Branco com os Irmãos Barbosa e Silva (vol. I). Lisboa: Livros Horizonte.
------------, 20032: Dicionário de Camilo Castelo Branco (2.ª ed. «revista e aumentada»). Lisboa: Caminho. [1.ª ed., 1989]
CABRAL, António, 1918: Camilo Desconhecido. Lisboa: Livraria Ferreira, L.da.
COSTA, Sousa, 1959: Camilo no Drama da Sua Vida. Porto: Livraria Civilização - Editora.
FARIA, Emília Sampaio Nóvoa (org.), 1990: Camilo em Landim (Cartas inéditas de Camilo e Ana Plácido para Alberto Sampaio e António Vicente de Carvalho Leal e Sousa). V. N. de Famalicão: Câmara Municipal de V. N. de Famalicão. (Col. Estudos Camilianos, n.º 2).
MARTA, M. Cardoso, 1918: Cartas de Camilo Castelo Branco (I). Rio de Janeiro / Lisboa: H. Antunes Editor.
------------, 1923: Cartas de Camilo Castelo Branco (II). Rio de Janeiro: H. Antunes & C.ª - Editores.
MARTINS, Rocha, s/d: A Paixão de Camilo (Ana Plácido). Lisboa: ed./A.
MOUTINHO, José Viale (org.) 2016: Camiliana: Cartas Escolhidas de Camilo Castelo Branco (vol. 3). S/l: Círculo de Leitores.
PIMENTEL, Alberto, 1901: Os Netos de Camilo. Lisboa: Empresa da História de Portugal.
------------, 1921: O Torturado de Seide (Camilo Castelo Branco). Lisboa: Livraria Manoel dos Santos.
RIBEIRO, Aquilino, 1961: O Romance de Camilo (Vols. I, II e III). Lisboa: Bertrand.
SILVA, Porfírio, 2016: «Camilo Castelo Branco (1825-1890) entre o génio-nevropata e a loucura de seu filho Jorge.» Em Cadernos Vianenses (Tomo 50). Viana do Castelo: Câmara Municipal de Viana do Castelo, pp. 167-177.
------------, 2017: «Camilo Castelo Branco (1825-1890) entre o génio-nevropata e a loucura de seu filho Jorge». AQUI.
SUCENA, Eduardo, 2014: Calvário e Glória de Camilo. Lisboa: Veja.
VIANA, Rui A. Faria, 1997: Tomás Simões Viana: um vianense ilustre. Viana do Castelo: Centro de Estudos Regionais. (Separata da revista Estudos Regionais, vol. 17, 1996).
VIANA, Rui A. Faria & BARROSO, António José, 2009: Publicações Periódicas Vianenses. Viana do Castelo: Câmara Municipal de Viana do Castelo.


[NB – O apontamento publicado hoje, 01/06/2020, é a versão, revista porque aumentada, de uma anterior, “postada” neste blogue, em 09-05-2020.]