domingo, 14 de junho de 2020


Cláudio Basto e Camilo
[Continuação]


    03. Três cartas de Camilo

Continua-se, neste apontamento, a apresentação – anotada – de artigos que Cláudio Basto, médico, professor e investigador vianês, dedicou a Camilo1.


Neste apontamento, em 03.2., copia-se, integralmente, a transcrição que Cláudio Basto faz da primeira carta que Camilo dirigiu ao seu amigo e contemporâneo Henrique Guilherme Tomás Branco2, com o objetivo de confirmar e/ou obter informações sobre José Maria Dias Guimarães3, amigo e contemporâneo de ambos.
Tomás Branco e Dias Guimarães, jovens estudantes na Academia Politécnica do Porto4, nos anos finais de quarenta de oitocentos, foram condiscípulos e parceiros de Camilo, também das noites da boémia portuense, e atores na representação das suas peças Agostinho de Ceuta e Marquês de Torres Novas.5
À biografia de Dias Guimarães, sempre dramática, tanto nos seus aspetos positivos como sobretudo negativos, desde a juventude, de galã sedutor, a nível pessoal e artístico, no convívio social e em palcos do Porto, até à velhice e morte, mendigo e alcoólico, no Brasil, dedica Camilo a «crónica mensal de literatura amena» que, com o subtítulo de «Ruínas / O Dias da Feira», publicou no fascículo V de Serões de S. Miguel de Seide. «Crónica» onde, depois de referir «os que já estão mortos», nomeia, entre os seus atores ainda vivos, «o Henrique Guilherme Tomás Branco que dirige as obras públicas do Porto».6

Regressando-se ao principal objeto (e objetivo) deste apontamento, é de referir que, depois da «notícia informativa»7, Cláudio Basto introduz, sumariamente, cada uma das três cartas. Reprodu-las, em seguida, em fac-símile (zincogravura), fazendo, logo depois, a sua transcrição em letra tipográfica, respeitando, todavia (na medida das condições técnicas então existentes), grafia e linhas manuscritas do autógrafo. Termina com um breve comentário, sobre cada uma das cartas.
Começa, logicamente, pela apresentação da

03.2. Carta I8

As três cartas que se vão ler nada teem, como disse, que embace o brilho do glorioso nome de Camilo{9}.
A primeira, a pedir esclarecimentos para um trabalho literário, é como se segue (2):
______________________________
   (2)  Vai q sem til, na transcrição, por não haver na tipografia q tilado.



Transcreve-se, de seguida, a carta, com ortografia e pontuação atualizadas, e abreviaturas desenvolvidas. Por não corresponder, assim, completamente à leitura que o investigador vianês reproduz no seu «folheto», transcreve-se em tipo «palatino linotype» e itálico, incluindo o sublinhado:

Meu prezado amigo!

Estou coligindo reminiscências de coisas e pessoas da nossa mocidade. Tens de repetir uns esclarecimentos que me deste, há 3 anos. Disseste-me que encontraras, em Trás-os-Montes, numa feira, o Dias Guimarães (o Dias da Feira), teu condiscípulo ou contemporâneo, na Politécnica. Este desgraçado morreu, no Rio de Janeiro, em dezembro de 1884, mendigo e escalavrado pela doença e pela embriaguez.
Dize-me tu, em que ano o viste? Em que feira? Em que negociava? Como trajava ele, e que depreendeste do seu estado intelectual? Recordas algumas das suas expressões?
               
Se não te custar, responde ao teu velho amigo,

Camilo Castelo Branco

Teu do coração, 22/01/188611


Feita a reprodução desta primeira carta que Camilo escreveu a Tomás Branco, Cláudio Basto comenta:

Os esclarecimentos, porventura fornecidos, foram, naturalmente, aproveitados no V volume dos SEROENS DE S. MIGUEL DE SEIDE, nas páginas consagradas a o Dias da Feira (Capítulo CCCXCIX das «minhas memorias d’alem túmulos» - Ruinas) (1), as quais teem a data de Janeiro de 1886, mês em que também a carta foi escrita. Aí, nesse capítulo, se encontra, a pág. 12, citado «o Henrique Guilherme Thomaz Branco que dirige as obras publicas do Porto» como um de «os que vivem dos executores de alta justiça n’esses meus patíbulos» (pág. 11), como Camilo diz recordando a representação de peças teatrais suas.
_________________________
(1) Pôrto 1886, págg. 7-22. {12}


O próximo apontamento será dedicado à transcrição, anotada, da carta II por Cláudio Basto, cópia do autógrafo que Camilo dirigiu, em 5 de dezembro de 1868, também a Henrique Guilherme Tomás Branco.


Notas e referências

Resumo biobibliográfico e outras referências a Cláudio Basto, em «0. Introdução», AQUI.
Sob o título genérico «Cláudio Basto e Camilo», foram já publicados, neste blogue, além do referido, os seguintes apontamentos:
- «0.1. – “Notas Camilianas – I”», AQUI.
- «0.2. – “Notas Camilianas – II”», AQUI.
- «0.3. - «Três cartas de Camilo» e «0.3.1. – “Três cartas de Camilo”: “notícia informativa”», AQUI.

2  Alexandre Cabral traça, no seu Dicionário, a biografia deste «engenheiro civil» que participou «nas lutas da Patuleia», alcançando «o posto de alferes», e foi «diretor de obras públicas». Cabral destaca, em particular, as relações de camaradagem e amizade que Camilo manteve com Tomás Branco (1827-1887). No final da respetiva entrada/verbete, encontra-se a única referência que, em toda a sua vastíssima camiliana (ativa e passiva), o reconhecido camilista faz ao investigador vianês: «As cartas do escritor [Camilo para Tomás Branco] foram publicadas por Cláudio Basto, num opúsculo intitulado Três Cartas de Camilo». Regista, ao mesmo tempo, que «o espólio epistolar», trocado entre os dois amigos, «é reduzidíssimo», sendo «conhecidas apenas 5 espécies (3 de Camilo e 2 de Tomás Branco)». E que estas últimas «encontram-se na Casa-Museu de Camilo, em S. Miguel de Ceide», com os n.os 945 e 975», mas que «só a primeira vem registada no Camilo Homenageado», livro para cuja entrada/verbete remete.
Recorde-se, a propósito, que Cláudio Basto, na introdução ao seu opúsculo, regista: «Muitas outras cartas Camilo dirigiu a este seu grande amigo, mas delas não restam, pelo menos que o Sr. Tenente-Coronel Branco saiba, mais do que as três que adiante se reproduzem.» O «grande amigo» de Camilo é, como já se leu no apontamento anterior, Henrique Guilherme Tomás Branco, pai de Alfredo Ernesto Dias Branco (1862-1930?), proprietário dos três autógrafos epistolares camilianos que, «por gentil assentimento» deste tenente-coronel de artilharia, o estudioso vianês publica no seu «folheto».
BASTO, 1917a: 05 e/ou AQUI; CABRAL, 20032: «BRANCO, Guilherme Henrique Tomás», 116-117 e id.: «CAMILO HOMENAGEADO», 151-152]

3  Além do que, sobre este seu amigo, é referido por Camilo, nesta carta e na «crónica» que publicou, no fascículo V de Serões de S. Miguel de Seide, Alexandre Cabral, com base, sobretudo, nesta fonte, resume a «vida atribulada» de Dias Guimarães.
BRANCO, 1886 (V): 07-22]; CABRAL, 20032: «GUIMARÃES, José Maria Dias», 377-378 e id.: «ACADEMIA POLITÉCNICA DO PORTO», 020.

4  Sobre a fundação desta escola superior e sua frequência por Camilo, (re)ler CABRAL, 20032: «ACADEMIA POLITÉCNICA DO PORTO», 020-021 e id.: «ESCOLA MÉDICO-CIRÚRGICA DO PORTO», 310-311.
Julga-se caber, nesta nota, o seguinte reparo: a Academia Politécnica do Porto aparece incorretamente designada, por Emília Nóvoa Faria, como «Politécnico do Porto», em livro recentemente publicado. A imprecisão é tanto mais grave quanto se trata de citação do início da «crónica» que, com o título, aqui abreviado de «O Dias da Feira», Camilo dedica a José Maria Dias Guimarães, no fascículo referido na nota anterior. Compare-se e avalie-se o rigor da leitura e transcrição que, para este efeito, se sublinha:


Cabe referir que a citação e a nota de Faria dizem respeito a carta que António Cabral escreveu, em 1921, a José de Azevedo e Menezes. Este Cabral agradece a oferta do volume Camilo Homenageado, que Menezes havia organizado e editado, aproveitando a ocasião para «esclarecer algumas passagens do livro», entre elas a que diz respeito ao «resumo» da carta n.º 945. Carta esta que Tomás Branco dirigiu ao romancista, em resposta à primeira carta que Cláudio Basto reproduz e comenta, no seu «folheto» Três Cartas de Camilo, e neste apontamento se transcreve e anota.
BRANCO, 1886 (V): 07; FARIA, 2018: 255 e 258, com a nota 294. O «resumo» da carta foi inicialmente publicado em MENEZES et al., 1921: 208, encontrando-se ora reproduzido em FARIA, 2018: 258, nota 293. Sobre o devotado e dedicado amigo de Camilo, o «famalicense ilustre» Azevedo e Menezes, (re)ler CABRAL, 20032: «MENEZES, José de Azevedo e», 506, e FARIA, 2018: «José de Azevedo e Menezes, Guardião de Camilo», VII-XXIII.

5  Sobre a edição e representação destas peças, (re)ler CABRAL, 20032: «AGOSTINHO DE CEUTA (T)», 023-024, e id.: «(O) MARQUÊS DE TORRES NOVAS (T)», 481-482. Leia-se também a nota seguinte (6).

BRANCO, 1886 (V): 11 e 12. Nesta «crónica» dos Serões, Camilo recorda e elogia, com graça, o amigo ator, no seguinte trecho:

«O Dias representava em teatros particulares, umas sociedades de amadores que alugavam o teatro de Liceiras e o de Santa Catarina e o de S. João para as peças espaventosas. Os camarotes regurgitavam de mulheres bonitas, frescas e coloridas quais enormes cabazes de camélias e jasmins, suspensos do teto do teatro como os jardins de Semíramis, ou, melhor comparado, como o jardim das Hespérides, por causa de algum dragão escondido no fundo dos camarotes.
E todas amavam o Dias da Feira, o galã de todas as peças, que faiscava dos seus rutilantes olhos faúlas para todos os corações. Que gentil cabeça! Que valente peito! Que pisar rítmico! A trágica solenidade daqueles passos, o pé direito à frente, o esquerdo arrastando-se nas pontas dos dedos! Os braços cruzados no tórax, as espáduas encolhidas, a dentadura ferina a trincar um ah trépido, prolongado, rouco, numa ondulação de trovoada remota! Que bom! Que pavores nas respirações suspensas do auditório! Que bravos a rebentarem dos peitos em gritos clamorosos, ao passo que as damas, num histerismo de lágrimas, escondiam a sua dor por detrás das barrigas dos maridos, não menos emocionados!
Eu tive um quinhão enorme das ovações do Dias. Ele executou no meu drama Agostinho Ceuta, o protagonista, e n’O Marquês de Torres Novas, a vítima da descaroada Guiomar Coutinho (1849). Fomos ambos sublimes! Eu espatifava a gramática, a história e o bom-senso. Ele espatifava os corações das plateias, remoendo nos dentes as minhas frases até as fazer espirrar grumos de sangue às caras mais insensíveis da Rua das Flores e travessas circunjacentes.» [BRANCO, 1886 (V): 09-11]

7  BASTO, 1917a: 05-06 e/ou AQUI.

8  O artigo de Cláudio Basto é copiado, neste apontamento, na sua versão integral, se bem que fragmentado em trechos, a que se dará, todavia, a devida conexão. Utiliza-se, na sua transcrição, para ser visivelmente melhor reconhecido, o tipo «arial». A carta encontra-se reproduzida em BASTO, 1917a: 07 (fac-símile zincogravado do autógrafo) e 08 (transcrição do mesmo), ocupando, assim, páginas distintas. É, porém, apresentada, neste apontamento, em paralelo (zincogravura vs. transcrição), a fim de se facilitar a sua eventual leitura comparativa.

{9}  Cláudio Basto era contra a publicação de cartas e/ou trechos epistolares camilianos, através dos quais se pudesse «embace[r] o brilho do glorioso nome Camilo». Retoma, aqui, o tópico da sua tese, já exposta e desenvolvida na introdução das Três Cartas, segundo a qual «nada [se deve publicar] que possa ferir a memória do Romancista». BASTO, 1917a: 05 e/ou AQUI.

{10}  Na sua transcrição, Cláudio Basto não respeita este espaço.

11  Traduz-se «T/C» por «Teu do coração». Trata-se de forma de despedida epistolar, frequentemente utilizada por Camilo, em cartas dirigidas a familiares e a amigos mais próximos e estimados. Além disso, a sigla encontra-se também, na epistolografia camiliana, com redação por extenso. Desde logo, como se lerá, na despedida da carta III, dirigida ao mesmo destinatário. Além disso, encontra-se também, por exemplo, na correspondência trocada com os seus generosos e cordiais amigos de Viana, os irmãos Barbosa e Silva, José (1828-1865) e Luís (1825-1892).
BARBOSA, 1919: 6 e passim, 47 e passim; CABRAL, 1984 (I): 44 e passim; id.: (II): 130 e passim; id.: 20032: 66-68; id.:, 20032: «BARBOSA E SILVA, José», 66-67, e id.: «BARBOSA E SILVA, Luís», 67-68; VASCONCELOS, 1991 e 1999.

{12} Este breve comentário de Cláudio Basto a esta carta de Camilo deve ser complementado com outras leituras. A começar, desde já, pela narrativa referida e citada pelo investigador vianês, cujo título original completo é «Capítulo CCCXCIX das “Minhas Memórias de Além-Túmulo” // Ruínas – O Dias da Feira». É a primeira narrativa do fascículo V de Serões de S. Miguel de Seide, a cujos restantes outros seis fascículos (como à própria coletânea), Camilo deu, em acordo, certamente, com o editor – Eduardo da Costa Santos (1840 – 1912) – o subtítulo Crónica mensal de literatura amena – Novelas, polémica mansa, crítica suave de maus livros e maus costumes, gráfica e ilustradamente rodeando o n.º de cada fascículo.


Aconselha- se, a propósito da edição de Serões e das relações que Camilo manteve com Costa Santos, (re)ler as cartas que o escritor lhe dirigiu, correspondência de que José Viale Moutinho publicou uma seleção, em Camiliana (vol. 3), com «fonte» em CABRAL, 1988 (VI). A referida seleção pode ler-se em MOUTINHO (org.) 2016 (vol. 3): 187-219, mas, quanto às que dizem respeito à edição de Serões, (re)ler as cópias n.º 172 (pp. 208-209), 174 e 175 (pp. 210-211), 177 (pp. 212-213) e 183 (pp. 215-216).

Por ser considerada a resposta de Tomás Branco à carta de Camilo, objeto deste apontamento, é de (re)ler, não havendo possibilidade de se consultar o respetivo autógrafo, a sua sinopse, publicada por José de Azevedo e Menezes, no volume Camilo Homenageado, com o n.º 945. Datada de 14 de fevereiro de 1886, o «resumo» é apresentado sob a epígrafe «T / Tomás Branco (Henrique Guilherme)», de que se apresenta a respetiva cópia:

«Carta em que [Tomás Branco] responde a Camilo, dando-lhe informações de José Maria Dias Guimarães, negociante na cidade deste nome, e o qual o signatário encontrou no ano de 1857, em Fermil, no concelho de Celorico de Basto, onde viu o antigo contemporâneo de estudos a vender na feira fazendas brancas e quinquilharias. Mais tarde o homem faliu, e lamentou-se àquele amigo de que foram os desvarios de rapaz que lhe cortaram a carreira de engenheiro. Tem notas a lápis de Camilo.» [MENEZES et al. (org.), 1921: 208. Grafia atualizada. Este «resumo» foi recentemente transcrito em FARIA, 2018: 258, nota 294]

Obs. – É provável que, perante estes frontispícios da obra, Azevedo e Menezes, perante o espólio camiliano recuperado e/ou adquirido, tenha decidido incluí-lo na edição de Camilo Homenageado já impressa de 1920, publicando a sua edição definitiva em 1921, com os respetivos «suplementos».

A corresponder ao conteúdo da carta, verifica-se haver dados sobre a biografia de Dias Guimarães que não coincidem, entre o narrado por Camilo e o informado por Tomás Branco, nomeadamente quanto à naturalidade, apelidos e alcunha de «o Dias da Feira». Tendo-se, não obstante, em consideração a data da carta do escritor – «22/1/86» – e a da redação desta sua da «crónica mensal» – «Janeiro de 1886» –, por um lado, e a data da carta-resposta do amigo Tomás Branco – «1886 - Fevereiro, 14» –, por outro, será de inferir que Camilo não terá recebido, a tempo, os «esclarecimentos, porventura fornecidos» pelo remetente, como sugere, com relativa prudência, Cláudio Basto, no seu breve comentário. Cabe, ainda observar que Alexandre Cabral regista, no seu Dicionário, que a Dias Guimarães, «Em 1885, Camilo traça-lhe a biografia – muito acidentada […].» [CABRAL, 20032: «GUIMARÃES, José Maria Dias», 377]

É muito provável que o escritor, para a composição literária de «O Dias da Feira» se tenha servido, por um lado, das recordações do intenso convívio (de boémia e artístico), durante uma década (cerca de 1845 a 1855) e, por outro, de relatos de (in)certos pormenores vividos, convividos e testemunhados por outros amigos e conhecidos, contemporâneos de ambos. Como anota Camilo e esclarece, na cena que a seguir se transcreve:

«Uma tarde [o Dias da Feira] entrou na loja do livreiro-editor Cruz Coutinho. Vestia o seu casaco muito puído; mas limpo, violentado a luzir sob a fricção da escova. Na lapela do casaco levava o hábito de Cristo. Dizia ele a um seu patrício: Sinto pejo de usar este hábito, quando tenho de dirigir-me a alguém a pedir socorro.(*) O livreiro, que lhe tinha editado o Poder do Ouro, cuidou que o dramaturgo ia fazer alguma proposta gananciosa. O Dias Guimarães descobriu-se e disse: “Ainda hoje não comi: venho pedir-lhe uma esmola.” O editor deu-lhe uma nota de 20$ réis.»

E o asterisco (*) chama o seguinte rodapé: «Informações do meu amigo António Moutinho de Sousa que o conheceu na suprema indigência.» [BRANCO, 1886 (V): 19-20]

Ora, perante o sumariamente exposto neste apontamento, retire o paciente leitor as conclusões que, segundo os seus critérios éticos e sobretudo estético-literários, julgar mais adequados e pertinentes.


Bibliografia [grafia atualizada]

BARBOSA, L[uís] Xavier, 1919: Cem Cartas de Camilo. Lisboa: Portugal-Brasil Limitada.
BASTO, Cláudio, 1917: «Notas Camilianas – I», em Lusa [Ano I, n.º 2, de 01/04, Vol. I]. Viana do Castelo, p. 13.
------------, 1917a: Três Cartas de Camilo. Viana do Castelo: Lusa.
------------, 1918: «Notas Camilianas – II», em Lusa [Ano II, n.º 41 e 42, de 15/11 e 01/12), Vol. II. Viana do Castelo, pp. 137-138.
BRANCO, Camilo Castelo, 1886 (V): Serões de S. Miguel de Seide – Crónica mensal de literatura amena: novelas, polémica mansa, crítica suave dos maus livros e dos maus costumes. Porto: Livraria Civilização de Eduardo da Costa Santos – Editor.
CABRAL, Alexandre, 1984 (I): Correspondência de Camilo Castelo Branco com os Irmãos Barbosa e Silva. Lisboa: Livros Horizonte.
------------, 1984 (II): Correspondência de Camilo Castelo Branco com os Irmãos Barbosa e Silva e com Sebastião de Sousa. Lisboa: Livros Horizonte.
------------, 1988 (VI): Correspondência de Camilo Castelo Branco com Eduardo da Costa Santos. Lisboa: Livros Horizonte.
------------, 20032: Dicionário de Camilo Castelo Branco (2.ª ed. «revista e aumentada»). Lisboa: Caminho. [1.ª ed., 1989]
FARIA, Emília Nóvoa, 2018: Correspondência de José de Azevedo e Menezes (1878-1933) – Volume I: Camilo Homenageado. Vila Nova de Famalicão: Húmus.
MENEZES, José de Azevedo et al., 1921: Camilo Homenageado: o Escritor da Graça e da Beleza. Famalicão: Tipografia «Minerva» de Cruz, Sousa & Barbosa, L.da.
MOUTINHO, José Viale (org.) 2016: Camiliana: Cartas Escolhidas de Camilo Castelo Branco (vol. 3). S/l: Círculo de Leitores.

sábado, 23 de maio de 2020

Cláudio Basto e Camilo
[Continuação]


    03. Três cartas de Camilo

Entre «Notas Camilianas – I»1 e «Notas Camilianas – II»2, Cláudio Basto3 publicou, em 1917, Três cartas de Camilo4, opúsculo de 14 páginas, com a chancela da Lusa, revista de que o médico, professor e investigador vianês era editor, diretor e, muito provavelmente, proprietário5.


O autor mostra, em zincogravura, depois de uma «notícia informativa», três cartas que Camilo havia dirigido a Henrique Guilherme Tomás Branco6. Cada autógrafo é precedido de uma apresentação sumária, seguido da sua transcrição integral, em letra de imprensa, respeitando a grafia e a disposição do texto manuscrito. Cláudio Basto faz, depois de cada um destes documentos, um breve comentário.

Neste apontamento, reproduz-se, apenas, a referida «notícia». Respeitar-se-á a grafia inscrita no «folheto» - designação dada por Cláudio Basto a esta sua publicação. Todavia, notas e referências, e bibliografia receberão grafia atualizada. E o texto bastiano segue aqui, para melhor se distinguir, em tipo de letra «segoe print».


03.1. Três cartas de Camilo: «notícia informativa»7

Cláudio Basto, nesta sequência discursivo-textual do «folheto», situa a origem e a propriedade efetiva destes documentos camilianos. A propósito, expõe e defende a opinião, de natureza ética e sociocultural, contra a publicação, sobretudo se acrítica, de cartas inteiras e/ou trechos epistolares que possam «apequenar» ou «ferir» a «grandeza» e a «memória» de Camilo, bem como de outras «personalidades ilustres» das letras portuguesas.
Assim:

A publicação das três cartas de Camilo que nêste folheto se incluem, faço-a por gentil assentimento do Sr. Tenente-coronel de artelharia Alfredo Ernesto Dias Branco, a cujo Pai – Henrique Guilherme Tomás Branco, que foi Director das Obras-públicas do Pôrto – o autor das NOVELAS DO MINHO as escreveu. Muitas outras cartas Camilo dirigiu a êste seu grande amigo, mas delas não restam, pelo menos que o Sr. Tenente-coronel Branco saiba, mais do que as três que adeante se reproduzem.
São três cartas dignas de registo. Não teem elas nada que possa ferir a memória do Romancista, nada que aos olhos de todos se não possa expor, antes documentam brilhantemente, além do cuidado investigador do «literato», facêtas delicadas do «homem».

A conhecida sanha de apequenar o que é grande não tem poupado os escritores, como julgo ser de todos os tempos e lugares, - mas Camilo tem sido revolvido de uma forma particularmente bruta, quero crer que as mais das vezes impensada.
Afigura-se-me criminosamente abusivo assoalhar por miúdo a vida íntima de quem quer que seja, guizalhando, ante a curiosidade de um público na grande maioria alarve, além de infortúnios melindrosos em que dói tocar, deslizes e anormalidades, que nos «grandes» homens são em geral «pequenezes» que os «pequenos» não sabem compreender. Há coisas, saídas a lume, que a ninguém e a nada aproveitam; há outras que teem, quando muito, valor para eruditos que pretendam traçar o perfil completo de uma individualidade: publicar aquelas, sendo amesquinhantes, é uma superfluidade estúpida, e estoutras não deveriam sair nunca para o giro deprimente de todas as mesas e balcões. Os críticos, compulsando, analisando e interpretando elementos de tal ordem, delineariam os seus estudos inteligentes, de maneira que aos olhos ignaros, ingénuos ou preguiçosos se erguessem as personalidades ilustres em linhas vigorosas, insusceptíveis de injustas deformações, filhas da preguiça, da ingenuidade ou da ignorância a mirarem pelo primeiro prisma que deante lhes seja pôsto imprudentemente.

No tocante a depoimentos epistolares, há ainda a considerar outro aspecto.
A carta, se muitas vezes é um bom testemunho do sentir e pensar de quem na escreveu, também muitas vezes não é mais do que o reflexo de «estados ocasionais», não sendo lícito deduzir daí o «mundo», para assim dizer, «normal», do autor.
Mais ainda:
Escrita sem o intuito nem a suspeita de publicidade, a carta pode revelar sem dúvida o escritor tal qual, colhido em flagrante, sem disfarces, - mas a mesma não suposição de publicidade, por outro lado, também pode levar o escritor a propositada- ou descuidosamente falsear o próprio pensamento e sentir.
Assim, a carta pode ser um documento de opiniões e sentimentos da «personalidade» que a traçou ou de «momentâneos estados» dessa personalidade; tanto num como noutro caso há se quiserem sinceridade, porque na carta fica a expressão real do que se pensou e sentiu, mas há a diferençar o que é «ocasional», «passageiro», de o que é «fixo», «assente». E pode ser ainda, a carta, um anódino produto sem qualquer intenção, sem raízes no cérebro e na alma do escritor: uma insignificante superficialidade bem ou mal humorada, equivalente a cavaqueios sem maldade, essencialmente inofensivos, de mesa de botequim aliteratado ou aliteratada porta de livraria, tantas vezes até contrários aos verdadeiros sentimentos e pareceres dos cavaqueadores…

Havendo, portanto, muitos assuntos que, à primeira vista – e vista de ordinário grossa… -, parecem uma coisa, e, quando atentamente observados e estudados, se verifica serem outra, - às claras se vê quam perigoso é deixar «meios» de observação e estudo, ao alcance de quem não sabe deduzir com justeza «conclusões», sobretudo quando estas podem ensombrar a memória reluzente de homens insignes.

Ora, pelo que respeita a Camilo, dispensa-me o Leitor considerações particulares. Das que acima ficam tracejadas, de um modo geral -, saberá o Leitor fazer as devidas aplicações. Sómente especificarei que a perseguição epistolar ao imortal polígrafo chegou ao ponto de se lhe publicarem cartas adulteradas, havendo, quanto a uma delas (pelo menos), êle próprio recomendado expressamente, num acertado pressentimento, que lha rasgassem depois de lida, para que não aparecesse após a sua morte (1).


(1) A êste propósito, vid. o que deixei escrito na LUSA, I, pág. 13 (n.º 2), primeiro artigo da série Notas camilianas. {8}


A edição de Três cartas de Camilo terá sido fortemente criticada por um jornalista, num periódico lisboeta, não identificados. É de inferir que, face à réplica publicada na Lusa e, logo depois ou em simultâneo, no jornal República9 e em separata, Cláudio Basto se tenha sentido deveras ofendido, na sua dignidade ética e intelectual. O estudioso vianês responde ao «criticador», explicando as razões e os objetivos da edição do «folheto». Rejeita, ao mesmo tempo, por injustas e levianas, as acusações do «criticador», dirigindo-lhe tratamentos fortemente acrimoniosos. Considera o visado, entre outros epítetos, um daqueles «que vivem arreatados ao jornaleirismo, saídos do vazadoiro para onde as letras nacionais exgregam a sua escória.»10 Como oportunamente se lerá, em 03.5.

Seguir-se-ão, nos três próximos apontamentos (03.2. a 03.4.), as transcrições integrais de cada uma das três cartas, na sua reprodução fac-similada (zincogravura), acompanhadas das respetivas transcrições impressas em letra de forma e dos correspondentes comentários, segu(i)ndo a leitura do estudioso vianês Cláudio Basto.


Notas e referências

1  (Re)ler BASTO, 1917 e/ou AQUI.
2  (Re)ler BASTO, 1918 e/ou AQUI.
3  Para um resumo biobibliográfico de Cláudio Basto, (re)ler «0. Apresentação» (AQUI), onde são indicadas outras referências sobre este médico, professor e investigador vianês.
4  (Re)ler BASTO, 1917a. O opúsculo foi publicitado em números da Lusa, ao preço de 1.200 réis. Os pedidos de aquisição deveriam ser «dirigidos à administração da revista», sita na «Avenida de Camões, 16, Viana do Castelo, acompanhados da respetiva importância, sem o que não serão [seriam] satisfeitos.»
5  Sobre o fundador, editor, diretor(es) e colaboradores da revista Lusa, (re)ler VIANA & BARROSO, 2009: 348-349.
6  Breve nota biográfica sobre Henrique Guilherme Tomás Branco, amigo e contemporâneo de Camilo, ler-se-á no próximo apontamento (03.2. Carta I).
7  Cláudio Basto, ao publicitar o opúsculo na Lusa, refere que a reprodução das três cartas é acompanhada por «uma notícia elucidativa», designação escolhida, por isso, para se especificar o título desta subalínea.
{8}  (Re)ler BASTO, 1917a: 05-06. Por ser da responsabilidade do autor deste apontamento, e não de Cládio Basto, o índice da nota foi inscrito entre chavetas.
9  Em BASTO (org.), 1948: 19, lê-se que o mesmo artigo «foi publicado no diário lisbonense “República”, n.º 2484, de 16 - dezembro - 1917.» Será que foi neste jornal que foi publicada a crítica a Três Cartas de Camilo Aguarda-se possibilidade de consulta.
10  (Re)ler BASTO, 1917b: 06.



Bibliografia [grafia atualizada]

BASTO, Cláudio, 1917: «Notas Camilianas – I», em Lusa [Ano I, n.º 2, de 01/04, Vol. I]. Viana do Castelo, p. 13.
------------, 1917a: Três Cartas de Camilo. Viana do Castelo: Lusa.
------------, 1917b: «Uma explicação (Por causa das três cartas de Camilo)»,em Lusa [Ano I, n.º 19, Vol. I]. Viana do Castelo, pp. 149-150.
------------, 1917c: Uma explicação (Por causa das três cartas de Camilo). Viana do Castelo: Lusa. (Separata de BASTO, 1917b. «O mesmo artigo foi publicado no diário lisbonense “República”, n.º 2484, de 16-Dez.-1917». BASTO, 1948: 9).
------------, 1918: «Notas Camilianas – II», em Lusa [Ano II, n.º 41 e 42, de 15/11 e 01/12), Vol. II. Viana do Castelo, pp. 137-138.
BASTO, Hermínia (org.), 1948: Miscelânea de Estudos à Memória de Cláudio Basto. Porto.
VIANA, Rui A. Faria & BARROSO, António José, 2009: Publicações Periódicas Vianenses. Viana do Castelo: Câmara Municipal de Viana do Castelo.

sábado, 9 de maio de 2020

Cláudio Basto e Camilo
[Continuação]


02. «Notas Camilianas - II»


Em «Notas Camilianas – I», como se leu no apontamento anterior1, Cláudio Basto2 transcreveu e comentou, criticamente, a publicação de uma carta que Camilo havia escrito e enviado a Silva Pinto. Este polígrafo escritor, porém, ao transcrevê-la num dos seus livros, não reproduziu o documento autógrafo integralmente.


No artigo que, sob o título acima referido e que abaixo se transcreve, por inteiro, o estudioso vianês reproduz ‒ «fielmente», garante ‒ uma outra carta autógrafa de Camilo também na sua revista Lusa, em finais de 19183. Esta é uma carta que o romancista dirigiu à sua companheira Ana Augusta Plácido. O autógrafo, entretanto, havia sido transcrito, primeiro, no jornal O Leme4, em março de 1913, e, depois, no mesmo ano de 1918, em Cartas de Camilo Castelo (vol. I), coligidas, prefaciadas e anotadas por M. Cardoso Marta5.
  Conhecedor do manuscrito original, pertencente embora ao farmacêutico vianês Tomás Simões Viana6, Cláudio Basto, perante as duas edições da carta, começa por explicar e justificar, ao “milímetro”, a ausência de «epígrafe» do destinatário (tratamento fático, mais evocativo que vocativo, em contextos epistolográficos), facto que O Leme, em «Nota da Redação», regista no «fim da transcrição».
  Cláudio Basto termina as segundas notas camilianas, comentando e corrigindo o «engano» cometido por Cardoso Marta, seu «amigo e ilustre colaborador da Lusa» - assim se lhe refere - ao afirmar, em rodapé, não poder «adscrever» uma «época» à carta, porque no «jornal de Seide […] não consta a data». Por outro lado, comenta a informação que Marta retira d’O Leme, segundo a qual «a carta começa bruscamente, sem epígrafe, fazendo crer que não esteja completa.»
    O diretor da Lusa censura este «engano de cópia», uma vez que, n’O Leme, está «não só a data, como a hora – 2 horas da noute ‒, o que dá singular expressão carregada à carta, escrita num momento doloroso.» E conclui afirmando que «a carta está completa», nela não havendo «mais de o que foi publicado» por si, ainda que, cotejando-se «a transcrição fiel da carta», reproduzida na revista vianesa, «com as outras reproduções» (no jornal e por Marta), «vê-se que nestas houve algumas alterações de grafia e pontuação.»

     Sabe-se, conforme se leu em «Notas Camilianas – I», como Cláudio Basto defendia que, ao reproduzir-se estas cartas e outras de idêntico valor documental, «ao menos pela primeira vez, convém fazê-lo escrupulosamente, copiando com toda a fidelidade.»1 Tese esta que, todavia, não o impede de condenar os que têm «revolvido, de uma forma particularmente bruta», a «vida íntima» de Camilo, como se lerá em próximo apontamento.

   Duas outras edições desta carta foram recentemente publicadas. Uma delas encontra-se em Camiliana 3 – Cartas Escolhidas de Camilo Castelo Branco, obra saída em 2016, organizada por José Viale Moutinho. A outra foi reproduzida, em fac-símile e transcrita, por Porfírio Pereira da Silva, em duas publicações, nos finais de 2016 e princípios de 2017, depois de ter sido apresentada, em 2015, numa comunicação científica, por si proferida, na Universidade de Coimbra, conforme se lerá abaixo.
 A “fonte” citada por Viale Moutinho, reconhecido camilista, é também o n.º 17 d’O Leme. Este compilador, porém, não terá lido, com atenção, a transcrição do documento neste jornal. Ter-se-á servido, apenas, da cópia publicada por Marta, embora não lhe faça referência, se bem que a obra deste camilista lhe tenha sido «fonte» de outras cartas de Camilo antologiadas no volume. Por outro lado, também Moutinho, depois de transcrever a carta sem data, comenta não haver «certeza de se encontrar completa»7.
   Mas, de facto, estava. Como Cláudio Basto, cuidadosamente mostra e demonstra, de seguida8, em


«NOTAS CAMILIANAS – II


O Leme, em seu n.º 17, de 6 de Março de 1913 (1.º ano, 2.a série), publica na segunda página uma carta de Camilo, ‒ na secção Perolas escondidas e com o sub-título: “Carta de C. Castelo Branco a sua esposa D. Anna A. Placido”{9}.
Ao fim da transcrição, põe o Leme a seguinte nota:

No autographo não ha epigraphe nem na assignatura escreveu o romancista os apelidos de que usava (Castello Branco).
                                         (Nota da Redacção).

Pude ver o autógrafo por amabilidade do sr. Tomás Simões Viana, desta cidade, a quem êle hoje pertence. Reproduzirei fielmente a carta, conservando-lhe a disposição e o número de linhas:

Creio que cheguei ao termo da vida. Resigna-
te, ma querida e ate [sic] á morte adorada
Anna Augusta. Agarra-te á vida q
é a taboa salvadora deste filho que
está ao pe [sic] de mim com a morte estam
pada no rosto. Segue a tua via
de amargura com a coragem q
tens sempre revelado. Fica neste
mundo por alguns anos como
quem se sacrifica ao pai na pessoa
dos filhos. Lembra-lhes mtas
vezes o teu Camillo.

      2 horas da noute,
23 de abril de 1879.{10}

É azul o papel da carta, do tamanho aproximadamente do “de ofício” (ignorando eu se tal qualidade de papel tem nome especial). Está escrito só de uma face, linha sim linha não, com margem à direita e à esquerda.
Camilo começou a carta bastante em cima, encontrando-se o papel cortado na parte superior. O corte foi praticado, ao que parece, após o coleccionamento da carta, pois que, na margem inferior, se nota – se me não engano – o vestígio do número 40, a tinta vermelha, causado pela dobragem transversal do papel, pelo meio, quando aquela numeração ainda estava húmida.
¿Haveria, nessa parte cortada, algumas palavras?
Acima da primeira linha escrita, há uma em branco, ‒ depois, aproximadamente metade da margem. Da margem, sem dúvida nenhuma, ‒ porque o intervalo das linhas é de oito milímetros e para cima da primeira linha que no papel se vê há onze milímetros. Não tendo Camilo aproveitado a primeira linha do papel, ¿poderá alguém supor que êle iniciou a carta na margem? É claro que não; e ainda que isso fosse presumível, tinha de pôr-se de parte por outra razão: comparando o papel com outro de igual “formato” (como se costuma dizer), vê-se que lhe foram cortados uns doze milímetros, o que é confirmado pela dobragem do papel, transversalmente, aproveitando a dobra primitiva que ele tem. A margem superior foi, portanto, cortada sensivelmente pelo meio. Quem nêle escrevesse teria de o fazer dêsse meio para cima, e o bastante para que na parte da margem que ficou se não visse qualquer sinal de letra. Ora tudo isto é absurdo.
Os argumentos que exponho contrariam também a existência de vocativo, mas só por si não a rejeitam em absoluto, porquanto era possível, se bem que não provável, que essa palavra, ou frase simples, fosse escrita no alto, junto ao bôrdo do papel. O Leme, porém, afirma que não havia epígrafe na carta, e a afirmativa merece todo o crédito. Em primeiro lugar, o autógrafo, havendo sido dado, em Fevereiro de 1912, pela neta de Camilo, D. Raquel Castelo Branco{11}, ao actual possuidor, conservava-se na família, que, portanto, o conhecia perfeitamente; em segundo lugar, não se vislumbra motivo para que lhe amputasse, ao autógrafo, o vocativo que nada podia ter de ocultável.
Juntos, a estas razões, os argumentos acima expostos, ‒ póde-se concluir que não havia na carta mais de o que foi publicado.
O corte da tirazinha na cabeça do papel foi, naturalmente, para impedir que no autógrafo, oferecido, fosse a marcação (ou coisa que o valha) a que me referi, ‒ deixando nêle assim apenas o que era da mão do Romancista.

*

A carta, de que venho tratando, foi incluída pelo meu amigo, e muito ilustre colaborador da LUSA, M. Cardoso Marta no I volume das Cartas de Camilo Castelo Branco (Rio-de-Janeiro, Lisboa – 1918), página 58-59.
Aí se lhe pôs a nota:

“¿A que época poderemos adscrever esta carta? De O Leme, jornal de Seide, 2.a série, n.o 17 (6 de Março de 1913), não consta a data, e assim nas seguintes. Também ali a carta começa bruscamente, sem epígrafe, fazendo crer que não esteja completa.[”]

Houve engano de cópia. A data vem n-o Leme – não só a data, como a hora – 2 horas da noute ‒, o que dá singular expressão carregada à carta, escrita num momento doloroso.{12} A carta está completa, ‒ como, parece-me, deixei demonstrado. Cotejando a transcrição fiel da carta, que a LUSA publica hoje, com as outras reproduções, ‒ vê-se que nestas houve algumas alterações de grafia e pontuação.{13}

                                                                  CLÁUDIO BASTO.»


Estes artigos de Cláudio Basto revelam como o seu desconhecimento tem levado a que se continue a dizer/escrever, por vezes, incorreções e/ou imprecisões sobre algumas cartas de Camilo, entretanto (re)editadas. Daí se considerar necessária a republicação, anotada e comentada, destes e de outros estudos que o investigador vianês dedicou à correspondência epistolar camiliana, em particular à que teve acesso direto.

   O autor deste apontamento, não teve possibilidade (ainda) de consultar a transcrição desta carta de Camilo n’O Leme. Mas a carta original foi, entretanto, publicada, em fac-símile, pelo seu atual proprietário: Porfírio Pereira da Silva. Este estudioso vianês revelou o documento na comunicação que, sob o título “Camilo Castelo Branco (1825-1890) entre o génio-nevropata e a loucura de seu filho Jorge», nas «VI Jornadas Internacionais de História da Psiquiatria e Saúde Mental», que decorreram em Coimbra, nos dias 11 e 12/05/201514. Confessando-se «inveterado camilianista» e «camiliano, às vezes», publicou, nos dois anos seguintes, a referida comunicação-ensaio, no tomo 50 da revista Cadernos Vianenses15, e no seu blogue «Mukange Books»16.

    Apresenta-se, de seguida, cópia do fac-símile da carta autógrafa de Camilo, tal como se encontra em «Mukange Books», blogue de onde foi colhida. E, em paralelo, a sua leitura-transcrição, em grafia atualizada, desenvolvendo-se abreviaturas e atualizando-se pontuação e formato, por se considerar que a grafologia camiliana, enquanto reflexo do ser-homem no ser-escritor (e/ou vice-versa), não interessará aos seus leitores, nos dias de hoje.



    De facto, como acima referiu Cláudio Basto, esta carta é a «singular expressão» de «momento doloroso», intensamente vivido por Camilo17.

 Em próximo apontamento, dar-se-á início à transcrição, integral e fiel, de Três cartas de Camilo, «folheto» que Cláudio Basto editou e publicou em 1917.

Obs. – À exceção da cópia de «Notas Camilianas – II», o autor deste apontamento atualiza grafia, em citações e referências bibliográficas. Informa ainda que, embora a história da etimologia do topónimo seja Ceide, passa, desde ora, a escrever Seide, por esta ser a grafia reconhecida e utilizada por conceituados camilistas e autoridades locais. A propósito, quando se argumenta(va) que a forma Seide é (era) “respeitar a grafia” camiliana, por que razão não se escreve, além de outras palavras, o nome completo do escritor, tal como se encontra nos seus autógrafos - Camillo Castello Branco?


Notas e referências

(Re)ler BASTO, 1917 e/ou AQUI. 

Para um resumo biobibliográfico de Cláudio Basto, (re)ler «0. Apresentação», onde são indicadas outras referências sobre este tópico.

3  (Re)ler Lusa [Ano II, n.º 41-42, de 15/11 e 1/12/1918 (Vol. II), p. 137]. Sobre o fundador, editor, diretor(es) e colaboradores desta revista, (re)ler VIANA & BARROSO, 2009: 348-349.

4  Com o subtítulo de «Semanário Humorístico e Noticioso», O Leme foi um jornal que começou a ser publicado, no dia 18/08/1895, em Seide, Vila Nova de Famalicão. Foi seu «redator principal» Nuno Plácido Castelo Branco (Seide, 15/9/1864 – 23/1/1896), segundo filho da ligação de Camilo com Ana Plácido. A primeira série termina ao n.º 13, em 17/11/1895, um mês depois da morte da viscondessa Ana Augusta Plácido (Porto, 27/9/1831 – Seide, 20/9/1895).



O periódico reaparece, como quinzenário, em 23/01/1913, com o n.º 14, dando origem à 2.ª série. O seu novo diretor e editor é Nuno Plácido Castelo Branco (Seide, 04/03/1889 - Famalicão, 15/12/1967), neto do célebre casal oitocentista, mais romântico e romanceado. É o 4.º filho do viúvo Nuno Plácido e 3.º da sua nova companheira Ana Rosa Correia (Landim, 03/03/1862 - Seide, 28/12/1956). Nuno Plácido (pai), enamorou-se desta landinesca filha de lavradores, ainda a sua esposa – Maria Isabel Macedo (Braga, 01/05/1865 – Requião, 30/08/1884) era viva. Da união marital de Nuno Plácido (pai) com Ana Rosa nasceram 7 filhos.[(Re)ler ARAÚJO, 1925: 72. - BRANCO, 1925. - CABRAL, 20032: «CASTELO BRANCO, Nuno Plácido-II», 192; id.: «CORREIA, Ana Rosa», 250-251; id.: «(O) LEME», 431-432; id.: «NETOS DE CAMILO», 548. - MARTINS, s/d: 301 e passim. - PIMENTEL, 1901. - RIBEIRO, 1961 (III): 163 e passim.]

Cartas de Camilo Castelo Branco, compiladas por M. Cardoso Marta, é obra constituída por 02 volumes. O 1.º saiu em 1918. Dele constam cartas de Camilo escritas a 25 destinatários, em capítulos por ordem alfabética. De Ana Augusta Plácido, transcreve 03 telegramas e 10 cartas, pp. [053]055-067. {A p. [053] indica o título do capítulo – nome do destinatário. A reprodução das cartas começa na p. 055}. A carta transcrita em «Notas Camilianas – II», dirigida a Ana Plácido, encontra-se, como refere Cláudio Basto, nas pp. 058-059. No 2.º volume, saído em 1923, o compilador edita cartas dirigidas a 26 destinatários, em outros tantos capítulos, também ordenados alfabeticamente.

6  Formado em Farmácia pela Universidade do Porto, Tomás Simões Viana (Viana do Castelo, 02/03/1888 – 18/09/1946) exerceu a atividade de farmacêutico, na ainda hoje chamada Farmácia Simões, fundada por seu pai, Gaspar Simões Viana, também ele farmacêutico, de quem herdou o estabelecimento, continuando a sua direção técnica. Homem da cultura, dedicou-se à arqueologia, etnografia e ao jornalismo. Republicano, exerceu também cargos políticos, a nível local, no exercício dos quais procurou desenvolver a cultura dos vianeses, nomeadamente na defesa de instalações condignas para o Museu e Biblioteca municipais. Para uma biobibliografia desenvolvida deste «ilustre vianense», (re)ler VIANA, 1997.

7  José Viale Moutinho organiza, em quatro belos e espessos volumes, uma Camiliana. O terceiro tomo é dedicado à correspondência de Camilo. Trata-se de uma antologia de 509 cartas, de entre os milhares que o escritor escreveu a mais de uma centena de destinatários - amigos, conhecidos e familiares. A carta analisada por Cláudio Basto encontra-se em MOUTINHO (org.), 2016: 62.

8  Informa-se que, tal como se procedeu no apontamento anterior, também aqui se reproduzirá fielmente este artigo de Cláudio Basto. A penas o «q» [que] não será fielmente transcrito, com til, por não se dispor desse grafema, com o referido sinal gráfico sobreposto. Esclarece-se que informações consideradas pertinentes serão assinaladas, ao longo da transcrição, por índices entre chavetas { }. O corpo do texto de Cláudio Basto, transcrito da Lusa, vai entre aspas angulares (« »] e no tipo de letra «times new roman», para melhor se distinguir dos comentários e anotações do autor do apontamento, incluindo as remissões entre chavetas, nele inseridas.

{9}  Recorde-se que, à data da carta (23/04/1879), Ana Plácido ainda não era, oficialmente, «esposa» de Camilo. O casamento de ambos (o segundo para cada um dos amantes) realizou-se apenas em 09/03/1888. [(Re)ler CABRAL, 20032: «CASAMENTO», 177-178.]

{10}  Na Lusa, a carta de Camilo, tal como Cláudio Basto a transcreveu d’O Leme, ocupa o centro da página, enquanto o corpo do texto restante está impresso em duas colunas.

{11]  Raquel Castelo Branco (Seide, 21/02/1890 – 1952), neta de Camilo e Ana Plácido, é a 4.ª filha de Nuno Plácido e 3.ª de Ana Rosa Correia. Escreveu o livro Trinta Anos em Seide, sentidamente dedicado aos avós paternos e aos irmãos. Publicado em 1925, a autora reúne e transcreve correspondências trocadas entre Camilo e Ana Plácido, dos progenitores com os filhos Jorge e Nuno, bem com outros amigos do casal. Transcreve, também, textos literários dos parentes, sobretudo da avó. E ao capítulo III dá o título de «Recordações do meu tio Jorge», onde fala da vida, comportamentos e dotes artísticos deste seu parente. Aí reproduz «versos e artigos» de Jorge, bem como cartas que foi escrevendo ao «Papá», cujas redações revelam também as suas deficiências, incluindo as de grafia. Acerca da saúde mental - «loucura e epilepsia» - deste seu parente, Raquel reproduz trechos que Camilo deixou, na sua obra literária e em cartas a amigos. [(Re)ler BRANCO, 1925: 022 e ss., passim; Cap. III: 129-149]. Sobre os tópicos aqui aflorados, (re)ler nota 3, acima, e CABRAL, 20032: «CASTELO BRANCO, Raquel», 192-193.]

{12}  O «momento doloroso» a que se refere Cláudio Basto diz respeito aos sofrimentos que Camilo padecia, devido, por um lado, à evolução dos seus estados de saúde e, por outro, ao reconhecimento da loucura do filho Jorge, dos comportamentos extravagantes e irresponsáveis do filho Nuno, das frequentes desavenças com Ana Plácido, também ela uma mulher doente, sofrida e sofredora.


   Os biógrafos camilistas sempre se referem e interpretam, com maior ou menor fundamento e discutível objetividade, a vida de Camilo como «drama», «desgraça», «tragédia», «tortura», «penitência», «calvário», «sacrifício», «martírio». Em particular, quando passou a viver na casa "alheia" de Seide, que não teve, todavia, como "residência fixa". Eduardo Sucena, nos capítulos «17 / As Doenças de Camilo» e «18 / Aquela Casa Triste» de Calvário e Glória de Camilo (obra a ler criticamente, como sempre todo e qualquer livro), refere e cita os biógrafos que mais atenção dedica(ra)m a estas circunstâncias pessoais, familiares e sociais do biografado. (Re)ler nota anterior, com as referências aí indicadas, bem como, entre outros, BRAGA, 1916: 46-62. – CABRAL, 20032: «CASTELO BRANCO, Jorge Camilo», 186-187; id.: «São Miguel de Ceide», 723-725. – CABRAL, 1918: 197-207. – COSTA, 1959: 390-391. ‒ FARIA, 1990. –PIMENTEL, 1921: 51-59. – SILVA, 2016 ou 2017. – SUCENA, 2014: 216-235.

{13}  A propósito de certos «melindres» e «pundonores» de Cardoso Marta, a par de outros «estudiosos e possuidores de espólios epistolográficos camilianos», relativamente à sua «divulgação» ou «publicidade» integral, tendo-lhes introduzido ou defendendo, como reais «censores», cortes e/ou modificações, (re)ler CABRAL, 1984 (I): 18-22. Este reconhecido camilista, todavia, não inclui, estranhamente, Cláudio Basto, na lista destes «censores» de cartas de Camilo. Estranhamente, porque, como acima sumariamente se leu e lerá em próximo apontamento, Cláudio Basto foi radicalmente contra a divulgação de «infortúnios melindrosos», «deslizes e anormalidades» de «homens insignes», como Camilo, sobretudo quando dados a conhecer, através da sua publicação, a «um público na grande maioria alarve», que não os sabe estudar, compreender e devidamente apreciar.

14  O autor regista, em nota de rodapé: «Comunicação apresentada nas VI Jornadas Internacionais de História da Psiquiatria e Saúde Mental, realizadas em Coimbra, nos dias 11 e 12 de Maio de 2015, numa organização do Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX da Universidade de Coimbra – CEIS20 / Grupo de História e Sociologia da Ciência e da Tecnologia – GHSC/ Sociedade de História Interdisciplinar da Saúde – SHIS.» [SILVA, 2016: 167]

15  (Re)ler SILVA, 2016.

16  (Re)ler SILVA, 2017.

17  (Re)ler BASTO, 1918: 138 e, acima, notas {11} e {12}.

Obs. – As fotografias que ilustram este apontamento foram digitalmente colhidas, em obras abaixo referidas, sendo depois adaptadas a esta publicação.


Bibliografia [Grafia atualizada]

ARAÚJO, Alberto Veloso de, 1925: Camilo em S. Miguel de Seide. Braga: Livraria Cruz.
BASTO, Cláudio, 1917: «Notas Camilianas – I», em Lusa [Ano I, n.º 2, de 01/04), Vol. I]. Viana do Castelo, p. 13.
------------, 1918: «Notas Camilianas – II», em Lusa [Ano II, n.º 41 e 42, de 15/11 e 01/12), Vol. II. Viana do Castelo, pp. 137-138.
BRAGA, Teófilo, 1916: Camilo Castelo Branco (Esboço biográfico). Lisboa: Livraria Manuel dos Santos.
BRANCO, Raquel Castelo, 1925: Trinta Anos em Seide. Lisboa: Sociedade Editorial ABC, L.da.
CABRAL, Alexandre, 1984: Correspondência de Camilo Castelo Branco com os Irmãos Barbosa e Silva (vol. I). Lisboa: Livros Horizonte.
------------, 20032: Dicionário de Camilo Castelo Branco (2.ª ed. «revista e aumentada»). Lisboa: Caminho. [1.ª ed., 1989]
CABRAL, António, 1918: Camilo Desconhecido. Lisboa: Livraria Ferreira, L.da.
COSTA, Sousa, 1959: Camilo no Drama da Sua Vida. Porto: Livraria Civilização - Editora.
FARIA, Emília Sampaio Nóvoa (org.), 1990: Camilo em Landim (Cartas inéditas de Camilo e Ana Plácido para Alberto Sampaio e António Vicente de Carvalho Leal e Sousa). V. N. de Famalicão: Câmara Municipal de V. N. de Famalicão. (Col. Estudos Camilianos, n.º 2).
MARTA, M. Cardoso, 1918: Cartas de Camilo Castelo Branco (I). Rio de Janeiro / Lisboa: H. Antunes Editor.
------------, 1923: Cartas de Camilo Castelo Branco (II). Rio de Janeiro: H. Antunes & C.ª - Editores.
MARTINS, Rocha, s/d: A Paixão de Camilo (Ana Plácido). Lisboa: ed./A.
MOUTINHO, José Viale (org.) 2016: Camiliana: Cartas Escolhidas de Camilo Castelo Branco (vol. 3). S/l: Círculo de Leitores.
PIMENTEL, Alberto, 1901: Os Netos de Camilo. Lisboa: Empresa da História de Portugal.
------------, 1921: O Torturado de Seide (Camilo Castelo Branco). Lisboa: Livraria Manoel dos Santos.
RIBEIRO, Aquilino, 1961: O Romance de Camilo (Vols. I, II e III). Lisboa: Bertrand.
SILVA, Porfírio, 2016: «Camilo Castelo Branco (1825-1890) entre o génio-nevropata e a loucura de seu filho Jorge.» Em Cadernos Vianenses (Tomo 50). Viana do Castelo: Câmara Municipal de Viana do Castelo, pp. 167-177.
------------, 2017: «Camilo Castelo Branco (1825-1890) entre o génio-nevropata e a loucura de seu filho Jorge». AQUI.
SUCENA, Eduardo, 2014: Calvário e Glória de Camilo. Lisboa: Veja.
VIANA, Rui A. Faria, 1997: Tomás Simões Viana: um vianense ilustre. Viana do Castelo: Centro de Estudos Regionais. (Separata da revista Estudos Regionais, vol. 17, 1996).
VIANA, Rui A. Faria & BARROSO, António José, 2009: Publicações Periódicas Vianenses. Viana do Castelo: Câmara Municipal de Viana do Castelo.


[NB – O apontamento publicado hoje, 01/06/2020, é a versão, revista porque aumentada, de uma anterior, “postada” neste blogue, em 09-05-2020.]