Obs.- Este apontamento é reprodução (digitalizada) de texto publicado em Cadernos Vianenses (Tomo 51, 2017, pp. 51-67). Outros apontamentos sobre a presença de Viana do Castelo (cidade, concelho, distrito) na obra de Camilo, também neste blogue hão de ser reproduzidos.
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sexta-feira, 20 de março de 2020
Obs.- Este apontamento é reprodução (digitalizada) de texto publicado em Cadernos Vianenses (Tomo 51, 2017, pp. 51-67). Outros apontamentos sobre a presença de Viana do Castelo (cidade, concelho, distrito) na obra de Camilo, também neste blogue hão de ser reproduzidos.
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sexta-feira, 7 de março de 2014
005. VIANA EM CAMILO [03b]
[A Bruxa de Monte Córdova (1867)]
Este post é continuação do anterior (cf.
AQUI). Apresento
o relato ficcionado que Camilo faz, em A
Bruxa de Monte Córdova, do assassínio violento do sanguinário miguelista João
Pita Bezerra, natural de Darque, por uma furiosa chusma de portuenses. É o que se (re)lerá a seguir, depois de prévia
e breve contextualização.
Com a morte em combate do liberal
Tomás de Aquino, companheiro de Angélica Florinda, de quem tinha um filho, o octagenário
fr. Jacinto de Deus transforma-se numa espécie de pai adotivo da criança (a
quem tinham dado o nome de Jacinto de Deus, em homenagem ao frade amigo) e em
protetor da mãe solteira. O monge oferece a Angélica abrigo em suas propriedades.
Ela, porém, preferindo recolher-se a um convento, a criação do menino é
entregue a uma ama – a senhora Maria, mulher de Bento Gomes, camarada de armas de
Tomás de Aquino – a quem o frade paga uma mesada. Para a mãe poder visitar o
filho, fr. Jacinto aluga um sótão próximo do convento. Um dia, ao revisitar a ama
e o afilhado, a senhora Maria (cujo léxico pessoal o Escritor reproduz, por
vezes), depois de acusar a berzabum da
beata Angélica de deixar de visitar o filho, diz ao velho frade:
– Olhe
lá, senhor frei Jacintro! – disse a ama – não sabe que prenderam o Pitta
Bezerra? Aquelle grande carrasco?
–
Prenderam?
– Mas o
povo está na cordoaria á espera que elle saia do tribunal da Rua da Fabreca
para o matar. Eu, se não tivesse esta criança, também lá ia cortar-lhe uma
orelha.
– Que
mal fez o Pitta Bezerra á senhora Maria? – perguntou o frade.
–
Diabos o arrastem, que nunca o vi; mas matou ahi gente nesse Porto que não lhe
sei dizer. Eu disse a duas visinhas que lá foram: ó mulheres, se me trazeis a
ponta do nariz desse ladrão pago-vos duas canadas de vinho maduro, e mais ele
está pelas portas da morte.
– Essa
sede de sangue é impropria duma mulher, senhora Maria...
– Podéra
não! tomára eu vêr todos os caipiras picados como çabolla de estrugido.
O frade
ia dizendo entre si: «O sexo fraco, do qual dizem que a brandura da alma é o
seu particular condão!...»
Encaminhou-se
frei Jacintho de Deus á rua da Fabrica. Quando chegou á rua de Santo Antonio,
viu grande chusma de povo a desbordar da viella do Correio, urrando «morras» e
floreando no ar espadas e chuças. Ao convisinhar da revoluteante mó de mulheres,
maltrapidos e garotos ouviu que os gritos diziam: «Morra o Pitta Bezerra.»
Perguntou onde estava ele e disseram-lhe que estava a ser julgado e que o
esperavam para o matar.
– Não
seria melhor que o deixasseis ser castigado pelas leis?
– Quais
leis nem qual diabo! – bradou um soldado dos batalhões fixos, sacudindo uma
espada curta. – A lei é o povo! Será você algum burro da panela d’elle?
– Não
sou, camarada – respondeu serenamente o frade – eu sou um dos que ele meteu na
cadeia.
– E
então está aí a dar aos taleigos a favor do malvado que tirou um pedaço de nadega
a meu irmão, salvo tal lugar, aqui! Ora meu velhote, não se vá fazer fino com
palavriado lá para o meio do povo, que lhe vão à pavana! Tome o meu conselho...
Frei
Jacintho muito cosido com a parede, pedindo licenças com a maior humildade,
chegou até à porta do tribunal, a tempo que Pitta Bezerra descia as escadas
entre soldados.
Ao
verem-no, centuplicaram-se os gritos. Os silvos das mulheres, como os da cobra cascavel,
sobrelevavam os rugidos dos tigres, que nada menos se figuravam aquelles homens
recurvando as garras para o sevo da carniça.
Pitta
Bezerra, já condenado á morte, chegou ao limiar do pateo com o sangue já represado
no coração. Encostado ao alisar da porta estava o frade. O sentenciado, que ali
chegara com parecenças de cadaver, encarou no homem da batina.
– Sou
aquelle pobre frade, senhor Pitta Bezerra... – disse frei Jacintho de Deus; e,
assomando no umbral da porta, disse voltado para o povo:
– Não
queiraes manchar vossas mãos puras com o sangue do criminoso. Povo valente,
povo magnanimo! vós déstes á justiça a victoria; quebrastes as algemas aos
legisladores; deixae agora á justiça a missão de vos vingar.
– Que
diz o asno? – bradou uma regateira.
– Fóra
burro!... – conglobaram-se muitos gritos.
– Quem vos
falla – tornou o frade imperturbavel – é um dos homens inoffensivos que este
cruel lançou em ferros. Mas não permitta Deus, nem a liberdade, que vossos
braços conquistaram, que eu vos incite a matar este criminoso sem que todas as
suas victimas o possam ver no patibulo. Sabeis que se mata um homem num
momento? Que é pequeno castigo para este matador tirar-lhe num instante a vida,
quando ele tantas arrancou vagarosamente com demorados tormentos? Não querereis
antes vêl-o caminhar do oratorio á forca? Cidadãos! deixae-o entrar com vida na
cadeia; e não lhe deis o praser de o matar n’um curto momento; porque elle
decerto antes quer a morte repentina com que o ameaçaeees do que a lenta agonia
do oratorio e o espectaculo da infamante morte. Quantos parentes vossos cairam
nos baluartes d’esta cidade acutilados ou varados de pelouros? Morreram, e
contudo eram honrados defensores d’uma causa justa! E quereis vós, imprudentes,
que este homem acabe como acabaram os valentes que choraes? Quereis que elle
não tenha paroxismos mais duradouros? Quereis que elle d’aqui a cinco minutos
esteja insensível aos castigos que devem prolongar-se até que o peso do
carrasco lhe aperte a garganta? Cidadãos, vêde o que fazeis! A vida d’este
homem deve ser cortada fio a fio. Se o mataes d’um golpe, podereis dizer que
não vingastes as victimas de Pitta Bezerra.
–
Apoiado! – conclamaram muitas vozes. – Apoiado!, deixal-o ir! Não se mate! Diz
bem o padre: hade morrer aos pedaços! ... Ferros com elle! Deixem passar,
mulheres!
A escolta
abriu passagem. Pitta Bezerra ao perpassar pelo padre baixou-lhe um olhar de
implorativa gratidão. Frei Jacintho não o encarou.
Vinte
passos andados, a turba que sobreveio do lado dos Clerigos, e não tinha ouvido
a allocução triumphante do frade, rompeu de chofre e ferro apontado contra a
escolta, arrancou do preso, acutilou-o, espedaçou-lhe o rosto, estrangulou-o
com um grosso sparto, arrastou-o esphacellado pelas ruas, e levou-lhe o
arcaboiço meio escamado á beira do Douro, onde o arrojou, urrando uma prolongada
dissonância de gritos exultantes, vociferados pelos mesmos que tinham cuspido affrontas
às cabeças cravadas nos espeques da Praça Nova em 1829.
Era o
mesmo povo. [Branco,
1867: 142-145]
E que mais se sabe deste desgraçado,
além do que nos conta Camilo e do que se disse no final do post anterior?
Pouco mais. O jornalista Germano
Silva [2007], em resposta a carta de leitor do Jornal de Notícias, interessado também na releitura de A Bruxa, escreve, baseado em «crónica da
época», que Pita Bezerra foi «“o mais audaz de
quantos caceteiros miguelistas enxamearam a esse tempo a velha cidade”». E
acrescenta, citando:
«Consta da
citada crónica que “todas as noites descia ao Largo de S. Domingos acompanhado
de uma malta ignóbil e daí para cima o sanguinolento quadrilheiro espancava ou
mandava espancar quantas pessoas encontrava e que, por não serem suas
conhecidas, ele de imediato tomava como sendo hostis à causa de D. Miguel”.
Conta mais
o cronista “… Desgraçado que não fosse das suas relações ou não gritasse ao
avistar a malta do Pita Bezerra, viva o senhor D. Miguel e morram os constitucionais,
podia contar com a cabeça aberta e as costelas amolgadas porque o caceteiro,
sem dar tempo a justificação alguma, cuspia nas mãos, levantava o cacete e gritava
para os seus apaniguados, vamos a este rapazes! E era pancadaria de criar bicho…”
Caso para
dizer que Pita Bezerra fez a cama onde depois o deitaram…»
E quanto ao tal solar de Darque, junto do rio Lima, propriedade de Pita Bezerra?
Confirma-se a hipótese formulada no post anterior. A casa mais elevada (1),
parcialmente reproduzida na aguareal do pintor Salvador Vieira [cf. Oliveira, 2011: 115], pertenceu à
família dos Pitas de Darque. Sobre o portão de entrada da quinta, encontra-se a
pedra de armas (2), as mesmas que se encontram na respetiva carta de brasão (3),
estudada Manuel Artur Norton [1983].
Talvez não seja descabido dizer, antes
de terminar as referências de Camilo a Viana, em A Bruxa de Monte Córdova, que este romance é um autêntico drama,
uma tragédia, pessoal – ao nível dos afetos – por um lado, e social – a nível
religioso e político ou político-religioso, se preferirem – por outro. É uma
inexorável denúncia, uma implacável acusação, uma inclemente condenação de todos os
fundamentalismos (para utilizar um termo atual). Como sintetiza Alexandre
Cabral, na «Nota introdutória» à edição de 1982, encontra-se, «n’A Bruxa de Monte de Córdova, de forma lapidar, a influência que exerceu
na carnificina [guerra civil de 1832-34, sobretudo] a pregação fradesca [convém excluir fr. Jacinto de Deus], a intolerância daqueles que queriam impor
a verdade do seu credo pelos infalíveis e repugnantes meios da forca, das
perseguições e ódios políticos, chegando-se já nesse tempo, á proclamação do
execrando princípio do “quem não é por nós é contra nós”.»
E, dentro do mesmo espírito de
análise, observa ainda: «A luta fraticida
estende-se de norte a sul do país, empapando a terra portuguesa do generoso
sangue de seus filhos. Assiste-se às perseguições, às vinganças e às sevícias
das parcialidades sobre os adversários ideológicos. Porque – conclui – é disso efectivamente que se trata neste
romance: do confronto entre duas ideologias.» [CABRAL, 1982]
Por tudo isto e sobretudo pelo muito
que este romance encerra e a sua leitura revela, A Bruxa de Monte Córdova é uma das obras de Camilo a ler e/ou a
reler. Até pelos incómodos que poderá, ainda hoje, provocar. Uma obra, por
isso, também a estudar. Criticamente, como sempre deve ser.
Leituras
ARAÚJO,
José Rosa de, 1980: «Camilo e Ponte de Lima». Limiana, n.º 35. Ponte de Lima: jornal Cardeal Saraiva, de 29-02.
BRANCO,
1867: A Bruxa de Monte-Cordova.
Lisboa: Livraria de Campos Junior.
-----------,
1982: A Bruxa de Monte Córdova. Lisboa:
Círculo de Leitores.
CABRAL,
1982: «Nota introdutória», em BRANCO, 1982.
-----------,
1989: Dicionário de Camilo Castelo Branco.
Lisboa: Caminho.
NORTON,
Manuel Artur, 1983: «Carta de brasão de armas LV (Os Pitas de Darque)». Cadernos Vianenses, Tomo VII . Viana do
Castelo: Câmara Municipal de Viana do Castelo; pp. 42-56. Também AQUI.
OLIVEIRA,
Madalena, 2011: Salvador Vieira – Traços
do Homem e do Artista. (Pref. de Maurício de Sousa). S/L: ALERT Life
Sciences Computing.
RODRIGUES,
David F., 2013: «Viana & Camilo – Presenças e situações». A Falar de Viana. Viana do Castelo:
Vianfestas; pp. 207-213.
---------------,
2013: «Viana em Camilo», em http://vianacamilo.blogspot.pt/
Nota – Referências e citações entre comas respeitam a grafia
das edições consultadas.
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terça-feira, 4 de março de 2014
004. VIANA EM CAMILO [03a]
[A Bruxa de Monte Córdova (1867)]
Regresso, neste post, a A Bruxa de Monte
Córdova, de Camilo, depois de o ter feito já AQUI, a apropósito das referências que o Escritor faz, neste
romance, a Viana e à Senhora da Agonia.
Desta vez, porém, as referências
dizem respeito a Pita Bezerra, personagem secundária no enredo da narrativa, mas
sinistra figura do miguelismo. O romancista nada nos diz sobre a sua naturalidade,
talvez por simpatia para com esta cidade e sua gente, mas José Rosa de Araújo,
referindo-se ao mesmo indivíduo, diz que Camilo «nos dá uma versão realista,
pavorosa, do tumulto popular que assassinou barbaramente, nas ruas do Porto o
coronel Pita Bezerra, nascido naquele solar de Darque, há muito alianado [sic] sito mesmo à beira do rio [Lima]».
[Araújo, 1980: 3]
De facto, assim aconteceu, embora a realidade
romanescamente ficcionada não seja o relato da realidade histórica. O bárbaro episódio situa-se num tempo de
guerra civil, de permanente instabilidade política e convulsão social. Mas Camilo
também nos mostra, antes da referida vindicta popular, exemplos de como o nobre
Pita Bezerra despoticamente terá atuado, enquanto oficial do exército miguelista,
sobre a população civil que não se declarasse adepta e seguidora das ideias absolutistas
(também ditas realistas, ao tempo) e/ou
não contribuísse, com tudo o que tivesse, para a defesa do «trono e do altar», simbolizada
na figura de D. Miguel. O povo, por isso, logo que pôde, justiça fez pelas
próprias mãos. Apesar dos veementes apelos em contrário, arriscadamente feitos
por uma das persongens mais simpáticas de A
Bruxa, o solitário, clarividente, pacífico
e humano velho frade beneditino Jacinto de Deus.
A primeira referência encontra-se na
passagem que, depois de brevíssima contextualização, transcrevo a seguir.
Aos 80 anos, despedido do convento de S. João de Alpendorada (Marco de
Canaveses), por se recusar a pegar em armas, e, por isso, suspeito de
simpatizar com os malhados (assim
eram chamados, ao tempo, os adeptos do liberalismo), fr. Jacinto de Deus, vai a
caminho da sua aldeia, «vizinha do Arco de Baulhe, em terras de Basto». É
interrompido, a dado passo, por tropas liberais, insultado por alguns soldados e
agredido por populares, sendo de imediato conduzido a Penafiel e daqui ao Porto.
Sumariamente interrogado pelo tenente-general Stubbs – «velho asneirão, que tem
nas veias agua chilre quando as não tem a estoirar de vinho do Porto», segundo um
sargento –, o oficial inglês não deu a menor importância ao velho frade e
mandou-o embora.
Fr. Jacinto regressa à sua aldeia,
acompanhado por dois sobrinhos, a cujo pai, entretanto, tinha pedido auxílio,
«desviando-se já de um, já de outro bando» dos contendores. Chegado a S. Pedro
de Alvite (Cabeceiras de Basto), procura e encontra o irmão mais velho de Tomás
de Aquino. Este é aquele ex-frade que, enquanto conventual se chamou Tomás de
S. Plácido, de quem já falei AQUI. Ex-frade que, entretanto, acabara de morrer, em 5 de
setembro de 1833, na guerra de Lisboa, lutando pela causa de D. Maria II. É
durante a conversa que trava com o irmão mais velho deste liberal ex-frade que
fr. Jacinto de Deus encontra, pela primeira vez, na narrativa, Pita Bezerra.
Desceu o morgado ao terreiro da casa,
reconheceu o amigo de seu irmão e disse-lhe sacudidamente.
– O doido lá o atravessaram as balas em
Lisboa. Foi a deshonra da nossa casa. O pae morreu na defeza do altar, e o
filho acabou na fileira dos atheus.
– Seu pae defendia o altar? – perguntou
frei Jacintho.
– Pois não sabe que os liberaes de Fafe
o mataram no Ladario? Vossa paternidade está-se a fazer parvo!
– Constou-me que o mataram; mas disseram-me
que o senhor Simeão d’Aquino andava agarrando homisiados para os entregar áquelle
grande ministro chamado João Branco, o qual decerto não era ministro do altar.
– Podéra não! – tornou o irmão de Thomaz
com certo jubilo de ver já notoria a dedicação de seu pae. – E vossa
paternidade, se podesse, não os agarrava tambem?
– Agarrava para escondel-os do pae de vossa
senhoria.
– Que tal está o patife do frade! –
exclamou um official de grandes barbas, arrastando a espada, e coriscando dos
olhos ascuas de cólera.
Frei Jacintho de Deus encarou
serenamente no temeroso homem, deante do qual todos se affastavam e descobriam,
e disse:
– É vossa senhoria o senhor Pitta
Bezerra, se me não engano.
– Sou.
– Conheci-o muito novo e docil menino
em casa de seu tio o senhor capitão mór de Cabeceiras Serafim Pacheco dos
Anjos.
– E d’hai? – bradou o celebrado carnifece.
– Cuida que não o mando despir e chibatar, seu indigno frade, que ousa dizer
que escondia os malhados do justo castigo que os espera?
– Apoiado! – exclamou o irmão de Thomaz
de Aquino.
– Eu lhe direi, senhor – redarguiu o
monge –, esconderia da ira inconsiderada do seu inimigo todo homem em afflição;
esconderia no meu habito o senhor Pitta Bezerra, se amanhã os seus inimigos
viessem bradando que era justa vingança matal-o. A todos esconderia, a mim é
que me não escondo dos homens; esconder-me-ia só de Deus, se podesse. Póde pois
vossa senhoria mandar-me chibatar, se n’isso lhe vae satisfação.
– Não m’o peça segunda vez! – bradou o
capitão de infantaria 13. – Cadeia com elle e com estes que o acompanham!
– Estes são innocentes, que ainda não
proferiram palavra, senhor Pitta Bezerra! – disse o monge. – Parece-me justo
que os não prendam.
– Não me pregue lerias! Ferros com
eles, antes que os mande passar pelas armas!...
Alguns milicianos de Guimarães rodearam
o frade e os sobrinhos com ar de constrangidos. Pitta Bezerra, como os visse
froixos na diligência, bradou:
– Querem ir todos a pontapés?
Os presos entraram ao anoitecer na
cadeia das Pereiras. Os mancebos choravam e o tio frade dizia-lhes:
– Então, rapazes! Chorar!? que pusillanimes
sois!... Não vos envergonham os meus oitenta anos! Eu tambem nunca pernoitei
entre estes ferros; mas, se me não engano, o somno das consciências quietas não
estrema o carcere nu, de uma boa alcova cortinada. Se Deus vos deparar uma
cama, muitas graças lhe daremos.
[Branco,
1867: 129-131]
E quem foi, então – perguntar-se-á – esse
celebrado carnífice Pita Bezerra?
A Enciclopédio
Portuguesa e Brasileira de Cultura (vol. XXII, pp. 16-17), traz o seguinte
registo biográfico de João Pita Bezerra:
Oficial do Exército, n[asceu]
em Viana do Castelo em 10-XII-1792, m[orreu] tràgicamente no Porto, em
20-III-1835, quando tinha ainda a patente de capitão. Descendente de família
nobre de Darque, era partidário acérrimo do miguelismo. No decurso das lutas
civis, nos anos de 1828 a 1832, salientou-se, principalmente no Porto, em
perseguições, tortura e vexames em plena rua, quer nos assaltos a domicílios,
quer no comando da cadeia, que por vezes assumia. Quando o seu partido foi
vencido, fugiu para Melgaço, andou a monte e, por fim, refugiou-se na sua
residência em Darque, onde foi preso em Agosto de 1834. Durante a marcha para
Viana do Castelo foi defendido com muito custo pela escolta, constituída por
vinte soldados de infantaria, contra a multidão que o apupava. Os mesmos riscos
teve de suportar quando o levaram pela estrada, de Viana para o castelo da Foz
do Douro. Não foi abrangido pela amnistia de 17-V-1834 e em Jan[eiro] de 1835
foi condenado a prisão. Pouco depois era denunciado, por uma carta que remetera
para Melgaço, como implicado numa conjura miguelista. Novamente processado,
quando saía, escoltado, da viela do Correio, de regresso do tribunal, onde fora
interrogado por um juiz, para a cadeia, uma multidão enfurecida subjugou os
soldados e matou o preso, cujo cadáver foi depois arrastado pelas ruas e
lançado ao Douro.
Segundo se leu acima, Rosa de Araújo
diz que este Pita Bezerra nasceu num solar de Darque, situado junto do rio
Lima. Que memórias haverá, ainda em Darque, desse oficial miguelista e da
existência e estado do referido solar? O primeiro resultado é esta imagem:
(Fotografia de Gualberto Boa-Morte,
em Oliveira, 2011: 115)
Agradeço ao Salvador Vieira a
autorização da reprodução da fotografia.
Este bloco de casas, situado junto do
rio Lima, terá pertencido aos Pita Bezzera. Sobre esta família nobre, ver
Norton, 1983. A casa mais alta, à esquerda, parcialmente reproduzida na
aguarela, terá sido propriedade, habitação e refúgio do caudilho miguelista. Vou colher, todavia, mais informações, de que darei conta no
próximo post. Porque falta apresentar,
ainda, o episódio onde Camilo, n’A Bruxa
de Monte Córdova, narra o fim trágico deste Pita Bezerra.
Leituras
ARAÚJO,
José Rosa de, 1980: «Camilo e Ponte de Lima». Limiana, n.º 35. Ponte de Lima: jornal Cardeal Saraiva, de 29-02.
BRANCO,
1867: A Bruxa de Monte-Cordova.
Lisboa: Livraria de Campos Junior.
NORTON,
Manuel Artur, 1983: «Carta de brasão de armas LV (Os Pitas de Darque)». Cadernos Vianenses, Tomo VII . Viana do
Castelo: Câmara Municipal de Viana do Castelo; pp. 42-56. Também AQUI.
OLIVEIRA,
Madalena, 2011: Salvador Vieira – Traços
do Homem e do Artista. (Pref. de Maurício de Sousa). S/L: ALERT Life
Sciences Computing.
RODRIGUES,
David F., 2013: «Viana & Camilo – Presenças e situações». A Falar de Viana.
Viana do Castelo: Vianfestas; pp. 207-213.
---------------,
2013: «Viana em Camilo [01]», em http://vianacamilo.blogspot.pt/2014/02/002.html
Nota – Referências e citações entre comas respeitam a grafia
das edições consultadas.
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